Universidade e mercado de trabalho

Uma crítica que costumo ouvir em relação ao ensino na FBAUL é que ele é demasiado afastado das necessidades do mercado de trabalho real. Por exemplo, não há um grande investimento nos novos media ou o tipo de trabalhos que são realizados não corresponde às tipologias mais recorrentes do meio profissional. É uma crítica que compreendo e que acho pertinente, mas também me parece que facilmente pode ter um efeito perverso.

Por um lado, é óbvio que a universidade deve preparar os alunos para o mercado de trabalho, cumprindo a sua função de formar bons profissionais. Mas se a universidade se orientar puramente pelas tendências do mercado, então ela perde o seu papel como força de renovação ou fonte de pensamento crítico. No fundo, tenderá sempre a legitimar um determinado status quo.

O ideal, claro está, encontra-se num meio termo que conjugue uma resposta às tendências profissionais de um dado tempo, com uma educação mais intemporal que aponta a um carácter cívico, social e político. Isto não permite apenas que os alunos estejam melhor preparados para reforçar a força de trabalho da disciplina, mas também que a encarem com vontade, e sobretudo capacidade, de a mudar e de construir sobre ela.

No entanto, Bolonha não parece permitir este compromisso ao encurtar a duração das licenciaturas, obrigando a cedências indesejadas. No momento de escolher, e não estando a falar de uma situação ideal, convenço-me cada vez mais que estamos melhor sem pensar tanto no mercado de trabalho. Pelo menos sobrevive uma hipótese de ruptura contra a alternativa da estagnação.

Doing it for the $$$

Há quem ache que um designer só pode trabalhar por gosto àquilo que faz, o que torna legítimo assumir que ele o fará de graça. Recusar, por vezes, parece uma heresia. Onde é que já se viu, trabalhar por dinheiro? O que interessa é a “paixão”, a “experiência” e o afinar da “arte.” Com a crise acentuou-se esta linha de pensamento, mas por motivos ainda mais maliciosos. Na ignorância generalizada do público em relação à profissão de designer, encontrou-se uma forma de promover o trabalho mal ou não-remunerado sem grandes constrangimentos sociais.

O pior disto tudo é que os próprios designers jovens estão a cair na armadilha e a começar a acreditar que é mau pedir dinheiro pelo seu esforço. Por vezes encaram a empresa de qualquer badameco que inventou a pólvora como uma causa e não como um trabalho. É o tipo de conversa fiada daquelas ofertas de emprego que não dizem nada sobre o trabalho em si ou sobre as condições do contrato mas que descrevem muito bem e com sentido de humor muito apurado o espírito de camaradagem da equipa, onde toda a gente se trata por “tu” e são todos muito fixes e criativos e inspiradores. Sei de fonte segura que até na Menina Design Group faziam torneios de futebol.

Há situações em que o trabalho não-remunerado é aceitável, mas não me lembro de nenhuma em que a iniciativa não tenha de partir do próprio designer. Ou melhor, se alguém tem de me explicar porque é que eu devia aceitar trabalhar de graça num determinado projecto, então a resposta vai ser sempre não. Na verdade não tenho um grande problema em que me peçam para trabalhar de graça, mas sim que esperem à partida que eu aceite. Na maior parte dos casos não vou aceitar, mas é importante saber que a pessoa do outro lado está consciente do que pede e não parte do princípio que eu estou disposto a dedicar-me a algo nesses termos. Mas isto já é a diferença entre um convite e uma oferta, ou entre um projecto pontual e um emprego. Todo o discurso dos estágios e semelhantes “ofertas” serve para exercer pressão sobre jovens recém-licenciados de forma a aceitarem algo que, em condições normais, não aceitariam porque não teriam qualquer interesse nisso. Isto é exploração. É aí que os designers devem de assumir a sua responsabilidade: tentar educar quem não sabe e denunciar aqueles que sabem mas ignoram.

Caso de Estágio

Os meus colegas que, tal como eu, se licenciaram este ano, começaram agora a procurar trabalho. Claro que isto chegou para que surgissem de imediato as história inevitáveis de empresas que não pagam, pagam mal, que procuram estagiários, etc.

O caso do dia foi quando alguém se lembrou de ir ao grupo de facebook da turma partilhar uma “oferta de trabalho” numa empresa de parques infantis, de acordo com o seguinte regime: estágio curricular (com almoço e transportes pagos), estágio do IEFP e por fim o contrato. Ora, a FBAUL nem sequer tem programa de estágios curriculares, portanto chamei logo à atenção que aquilo era trabalho não-remunerado. A pessoa em causa afirmou que nem todos os estágios são para a faculdade e que aquilo era uma forma de o trabalhador não ter de se comprometer com um estágio no IEFP. Ah, e claro que disse que almoços e transportes era melhor que nada. Insisti e disse que o trabalho paga-se, e que ela podia chamar o que bem quisesse àquilo que continuava a ser exploração. E pronto, descambou. Desejou-me boa sorte com a minha revolução, disse que devia ir à minha vidinha como as outras pessoas que ignoraram o anúncio, ficou chocada quando comparei os estágios não-remunerados à escravatura, disse que “não merecíamos um caralho”… Isto vindo de uma pessoa apenas 2 anos mais velha que eu, que devia estar precisamente deste lado da barricada a combater este tipo de propostas revoltantes. Aposto que a seguir foi pôr like na página do Portugal à Frente, tudo nesta conversa soava a programa Vem.

Enfim, mais um dia no mundo real.

Sobre “Inextinguishable Fire”, de Harun Farocki

(Nota: Este texto foi adaptado de um paper redigido para a cadeira de Cultura Visual da FBAUL)

Inextinguishable Fire — divisão do trabalho e alienação

Harun Farocki é um realizador alemão nascido na República Checa a 9 de Janeiro de 1944. Estudou na Duetsche Film- und Fernsehakademie Beriln entre 1966 e 1968, e mais tarde deu aulas na University of California, Berkley entre 1993 e 1999. Na sua vasta produção como cineasta constam mais de noventa filmes por ele realizados, editados, produzidos e/ou escritos.

Em 1969, Farocki estreia o seu segundo filme, “Inextiguishable Fire”, uma curta-metragem documental que se coloca abertamente numa posição de protesto à produção de napalm, por parte dos Estados Unidos da América, para utilização na Guerra do Vietnam. O filme inicia com um indivíduo, friamente colocado perante a câmara (esta frieza é uma constante no filme), a ler o relato de uma vítima vietnamita do napalm. Terminada esta leitura, afirma que não é possível mostrar aos espectadores os efeitos do napalm, pois perante as imagens, estes sentir-se-ão feridos nos seus sentimentos, como se neles tivesse sido utilizado napalm. De seguida, verbaliza uma frase que serve como mote para o resto do filme: “Se os espectadores não quiserem ter nada a ver com os efeitos do napalm, então é importante determinar o que eles já têm a ver com as razões do seu uso.” Fora do ecrã, outro narrador afirma, após uma demonstração breve do uso de napalm “O napalm tem de ser contestado onde é produzido, nas fábricas.” (Farocki, 1969). O filme desenvolve-se numa lógica de ilustração da actividade da empresa, com várias cenas a repetirem-se, com apenas ligeiras alterações nos diálogos ou na mise en scène que servem para acentuar certos pontos que o realizador pretende transmitir. Num destes casos de repetição, a fábrica é comparada com um conjunto de blocos de construção. Na primeira cena, um cientista assegura que com ela se pode montar o mundo inteiro. Na repetição, quando lhe perguntam o que monta com o referido bloco, o mesmo cientista admite produzir napalm. Mais tarde, numa alusão a esta passagem, surge o director da empresa a confessar-se, da seguinte forma, à sua secretária:

Não estou a defender a guerra. Mas estou convencido que o nosso envolvimento no Vietnam foi justificado. Também estou convencido que o napalm é uma boa arma que ajuda a salvar vidas humanas. O Departamento de Estado deu-nos milhões para o desenvolvimento futuro de napalm. Alguns sectores do público, bem como alguns dos nosso trabalhadores, não percebem isso. Uma corporação química é como um conjunto de blocos de construção. Deixamos a cada trabalhador um bloco para ele trabalhar. Depois juntamos os blocos para construir o que o cliente nos pede. A cada trabalhador será dada uma tarefa discreta, principalmente por razões de confidencialidade. Aqui está uma lista das tarefas discretas. Certifique-se que são distribuídas. (Farocki, 1969)

O filme mostra trabalhadores da empresa a verem imagens numa televisão das atrocidades cometidas no Vietnam. Uns perguntam-se se aquilo deve continuar, outros perguntam-se se têm mesmo de ver aquilo, lembrando o segmento inicial em que o narrador explica que é impossível mostrar a alguém os efeitos do napalm, sem quem esta pessoa se sinta ferida, indiciando talvez que também nós, espectadores, estamos a ser feridos pela visualização do filme. Um título surge no ecrã, lendo assim:

“Após uma visualização dos crimes cometidos em Hiroshima e no Vietnam, muitos cientistas e técnicos aperceberam-se que o seu contributo para a destruição fora criminoso. DEMASIADO TARDE.” (Farocki, 1969).

Assim é introduzida a temática da divisão do trabalho, seguindo-se a já referida confissão do director da empresa. Farocki coloca-o da seguinte forma, num outro título:

Devido à intensificação da divisão do trabalho, muitos técnicos e cientistas já não conseguem reconhecer a contribuição que fizeram para as armas de destruição. Em relação aos crimes no Vietnam, sentem-se como espectadores. (Farocki, 1969)

A divisão do trabalho acontece quando, numa linha de produção, diferentes trabalhadores se especificam e dedicam totalmente à execução de apenas uma tarefa. Com a ascensão do capitalismo e do mundo industrializado, este método tornou-se cada vez mais comum, sobretudo devido à sua rentabilidade. Numa das analogias mais conhecidas feitas relativamente à divisão do trabalho, conhecida como a “fábrica de alfinetes”, Adam Smith apontou as vantagens deste método:

O grande aumento da quantidade de trabalho que, em consequência da divisão do trabalho, o mesmo número de pessoas é capaz de executar deve-se a três circunstâncias: primeira, o aumento da destreza de cada um dos trabalhadores; segunda, a possibilidade de poupar o tempo que habitualmente se perdia ao passar de uma tarefa a outra; e, finalmente, a invenção de um grande número de máquinas que facilitam e reduzem o trabalho, e tornam um só homem capaz de realizar o trabalho de muitos. (Smith, 1776, p.79-83)

Noutro ponto da mesma obra, Smith critica, por sua vez, a divisão do trabalho, afirmando que esta materializa o Homem,  levando a uma “mutilação mental”. (Smith, 1776) Este ponto de vista sobre um tema largamente discutido na história da humanidade (sobre ele, um dos pensadores mais relevantes foi mesmo Platão), leva-nos a considerar a teoria de Karl Mark da alienação pelo trabalho, que inclusive estabelece uma possível relação entre estas duas perspectivas de Smith (positiva e negativa) que acabámos de analisar, quando diz que “O trabalhador torna-se tanto mais pobre quanto mais riqueza produz” (Marx, 1844, p.159). Apesar de Marx ter sido um crítico de Smith, bem como de outros economistas considerados burgueses, e de reflectir sobretudo sobre a divisão social do trabalho (um tema diferente do aqui abordado) a sua teoria da alienação pode ser enquadrada com a temática do filme e do pensamento de Smith. Quando Marx afirma que o trabalho aliena a natureza do homem e o homem de si mesmo (Marx, 1944, p.164), podemos entender que na natureza do homem existe uma necessidade crítica, ética e moral que é anulada. A exploração de Farocki em “Inextinguishable Fire” mostra precisamente como a divisão do trabalho é um meio de alienação do trabalhador, que pela repetição do gesto produtivo ultra-especializado o trabalhador perde a capacidade se inserir num contexto mais abrangente, onde poderia julgar as consequências das suas acções. Mais ainda, Farocki deixa de certa forma implícito que as empresas utilizam a divisão de trabalho de forma deliberada para evitar o questionamento acerca dos verdadeiros fins da sua produção. Para descrever a ambiguidade da Dow, a empresa retratada em “Inextinguishable Fire”, Farocki expõe as dúvidas dos seus trabalhadores. A fábrica produz insecticidas que ajudam humanidade, mas também produz herbicidas que destroem as colheitas. Numa frase algo semelhante à de Karl Marx, citada atrás, é-nos dito que “A perda para os oprimidos é o ganho para os opressores.” (Farocki, 1969). Quando, na sequência final do filme, um trabalhador e um estudante se mostram incertos sobre qual é a produção da empresa onde trabalham — se aspiradores, se metralhadoras — um terceiro indivíduo, um engenheiro, explica o seguinte:

Sou um engenheiro e trabalho numa corporação dedicada à electricidade. Os trabalhadores pensam que produzimos aspiradores. Os estudantes pensam que produzimos metralhadoras. Este aspirador pode-se transformar numa arma útil. Esta metralhadora pode-se transformar num objecto doméstico útil. O que produzimos depende dos trabalhadores, estudantes e engenheiros. (Farocki, 1969)

Ao dizer que aquilo que a empresa produz depende de trabalhadores, estudantes e engenheiros, poderá estar a enunciar precisamente a ambiguidade que se referiu antes. No entanto, este final enigmático pode ter outra mensagem implícita, a de uma possível resposta.

Resposta possível — a proposta de Farocki

Ao demonstrar que o que um empresa produz depende de inúmeras pessoas em inúmeros cargos, Farocki sugere que existem assim muitos agentes que podem impedir estas empresas de trabalhar para a destruição e fazê-las começar a trabalhar para o bem da humanidade. Quando no início do filme se afirma que o napalm deve ser protestado nas fábricas, podemos então acrescentar “no interior das fábricas”. O filme não é, no entanto, demasiado optimista, e deixa esta possibilidade apenas como isso, e não como uma fórmula cujo efeito benigno é garantido. Em momento algum, as personagens do filme vencem a dúvida; a dúvida é, no entanto, o primeiro passo libertador da alienação.

A este propósito, pode ser lembrado Tomás Maldonado quando fala sobre o designer industrial, sendo, no contexto deste trabalho, a opinião extrapolada para o universo de todos os trabalhadores industriais:

(…) para um designer industrial, a não ser que viva mergulhado num estado de sonambulismo profissional, são iniludíveis algumas perguntas. Por exemplo, deverá interrogar-se em que medida aquilo que está a acontecer no mundo dos produtos pode alterar os métodos e os objectivos da sua actividade projectista. Vendo bem, por detrás desta pergunta, existe outra, que respeita a incidência real dos novos produtos sobre o ambiente, sobre a nossa vida quotidiana, sobre as nossas relações de comunicação interpessoal, sobre a nossa percepção exterior. (Maldonado, 1976)

Em “Inextinguishable Fire” somos apresentados a trabalhadores que operam no referido “estado de sonambulismo profissional”, acordando de seguida para a interrogação. Farocki deixa em aberto o tipo de acção que deve ser tomada, mas demonstra que existe espaço para uma resposta. De facto, talvez possamos entender que a interrogação já é em si uma resposta.

Podemos ver que Farocki criou, de certa forma, um manifesto incerto contra a divisão do trabalho com fins destrutivos, bem como um protesto à guerra no Vietnam. Diz-se incerto pelo facto já referido de não apresentar uma proposta definitiva de reacção, mas antes sugerindo possibilidades implícitas, quase implosivas, do sistema criticado. Uma viagem até ao presente e podemos perceber a actualidade da crítica de Farocki. Muito mais poderia ser (e já foi, inclusive) dito sobre o assunto, mas “Inextinguishable Fire” continua a ser uma excelente peça documental e política que abre a discussão sobre as verdadeiras intenções das grande s empresas industriais.

Referências
FAROCKI, Harun. [Registo Vídeo] Inextinguishable Fire. (1969) Alemanha. Disponível em <URL: http://youtu.be/6JBbgWSBTdA>
MALDONADO, Tomás. Design Industrial. (1976/2012). Lisboa. Edições 70.
MARX, Karl. Manuscritos Económicos Filosóficos. (1944/1993). Lisboa. Edições 70
SMITH, Adam. A Riqueza das Nações — Volume I. (1776/2001). Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian

Imagens
• Épinglier (Pin-Maker) I, L’Encyclopédie (1760s)
• Still de Inextinguishable Fire, de Harun Farocki