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Publicação da ESAD Grenoble-Valence que reúne textos de alunos e professores desta escola superior de design francesa.
Publicação da ESAD Grenoble-Valence que reúne textos de alunos e professores desta escola superior de design francesa.

No primeiro ano do curso de Design de Comunicação nas Belas-Artes aprendi que gostava tanto de ler e escrever sobre design como de fazer design, mesmo que na realidade não lesse assim tanto e escrevesse ainda menos. Na altura isto aconteceu quando descobri os textos do Mário Moura, do Frederico Duarte (que também era meu professor) e do José Bártolo. Além de ter essa espécie de revelação do que era (e podia ser) a crítica de design, comecei-me a interessar cada vez mais pela história e pela forma como o design se cruzava com a cultura, a política, a sociedade, a filosofia, etc. As aulas do Frederico foram particularmente importantes (mesmo que eu faltasse a tantas por ficar em casa a dormir…) para que deixasse de pensar no design como um primo pobre das artes plásticas e o entendesse como uma disciplina muito mais fascinante do que tinha imaginado até então.

A crítica de design foi também uma descoberta fantástica porque me ajudou a relativizar as minhas limitações como (proto-)designer. Por um lado ajudava-me a compreender os meus falhanços e por outro convencia-me de que não era preciso esquecer completamente o design caso um dia viesse a perceber que seria um péssimo designer. Agora que olho para os meus trabalhos de uma forma um bocado mais fria, reparo continuo a gostar bastante de alguns projectos de design que fiz ao longo dos últimos 3 anos, mas gosto mais ainda de voltar aos textos que escrevi. Não acho que sejam propriamente incríveis, e muitos deles despertam-me até alguma vergonha, mas quase todos me lembram de pontos de vista interessantes que tinha na altura (muitas vezes completamente errados), do processo de pensamento que segui e sobretudo do prazer que me deu pesquisar sobre alguns assuntos e escrever alguns desses textos.

Uma coisa que fui percebendo também é que muitos dos meus colegas escreviam coisas bastante interessantes, mas raramente o faziam porque tinham uma aversão à escrita ou porque achavam que escreviam mal. Penso que, em parte, isto vem da quantidade de professores que se apanham pela frente que promovem mais o cumprimento do academês do que a exposição das ideias de cada um. Acredito que a maior parte das pessoas pode escrever um bom texto sem que isso seja um fardo, principalmente quando não tenta seguir as normas do que é supostamente um bom texto. Em alguns exercícios promovidos pelo Frederico Duarte havia resultados escritos completamente delirantes e divertidos, outros mais sérios e muito informativos, e mesmo em alguns trabalhos mais “fracos” eu ficava com a impressão de que as pessoas não escreviam textos melhores porque achavam que não eram capazes logo à partida. Muitas vezes tornavam ideias simples em divagações incompreensíveis por motivos que me pareciam estéticos. De certa maneira, era valorizar mais a forma do que o conteúdo, um conflito que aos designer não é, de todo, estranho.

Gostava de ver as cadeiras teóricas nos cursos de design a incentivarem os alunos a escreverem mais e a descobrir precisamente a melhor forma de expor as suas ideias por escrito. Faz falta ao design mais convívio entre a sátira, a ficção, o gonzo, a investigação, a reportagem, o texto académico, e por aí além. Fazem falta mais vozes, principalmente as dos estudantes. Claro que isto não é para obrigar toda a gente a ser um crítico, historiador ou jornalista, mas acredito que há muitos alunos com ideias que merecem ser partilhadas, postas no papel e lidas por muita gente. Acredito também que as escolas de design devem produzir mais output teórico e crítico, descomprometido e descomplexado das fórmulas convencionais da escrita, acabando com a ideia de que o texto é um estatuto, um achievement ou algo do género, apenas acessível a uma elite. É preciso publicar mais!

Por um design lento

Na linha de discussão do designer como autor, podem ser encontrados inúmeros paralelos com o trabalho jornalístico. Ellen Lupton afirma no seu texto “The Designer as Producer”, que o designer não precisa necessariamente de saber escrever fluentemente, mas apenas compreender as ferramentas da escrita de forma a poder usá-las no seu trabalho. Assim, perfila um designer multidisciplinar, que assimila processos externos ao design e os agrega no seu trabalho. O conhecimento teórico, tecnológico e prático de um designer deve ser o mais abrangente possível, equivalendo a uma ilimitação das suas possibilidades como mais do que um mero formatador dos objectos que lhe chegam às mão. É neste sentido que se pode entender um possível futuro da disciplina do design, como uma área que intervém sobre a sociedade, que assume responsabilidades perante os problemas, apresentando soluções a fundo, não se limitando a reagir passiva e casualmente a situações pontuais. Este é um debate bastante amplo, ao qual se juntam cada vez mais vozes diferentes, ideias novas e factores relevantes.

“In Beijing, the joke among hacks is that, after the drive in from the airport, you are ready to write a column; after a month, you feel the stirrings of an idea-book; but after a year, you struggle to write anything at all, because you’ve finally discovered just how much you don’t know.”

Este apontamento surge na sequência de um artigo que acabo de reler, que me despertou, originalmente, grande interesse. Não por ser um texto excelente, mas por relatar um processo único de abordagem à criação de conteúdo jornalístico, que me parece relevante para qualquer designer. “In Praise of Slow Journalism”, escrito por Even Osnos para a revista The New Yorker, descreve uma abordagem aos assuntos reportados que, como o título indicia, acontece sem pressas, tentando conhecer de forma aprofundada os problemas em questão. Se ao primeiro olhar, a superfície de um problema nos parece indicar soluções, uma análise demorada e atenta revela-nos novas condicionantes que alteram necessariamente a abordagem que entendemos como ideal. Desta forma abstracta, esquecendo a semântica própria de cada uma das áreas, é tanto um assunto do jornalismo como é do design. Trata-se de assumir processos em curso, em que o erro acontece e é corrigido em tempo real, sem necessidade de chegar rápido demais a soluções definitivas e dogmáticas. 

A ponte com Lupton traça-se precisamente na confusão entre jornalismo e design. Neste caso, a confusão não é materializada simplesmente num designer que faz jornalismo, mas antes na adopção deste processo experimental de análise. O designer que faz design, usando os métodos do jornalismo (como poderia usar os da escrita, da performance, da natureza,… ). O designer que, com a sua dimensão de observador ininterrupto, está na posição ideal para assumir este tipo de estratégias que são um antídoto para a efemeridade do design, ampliando a sua dimensão social, responsável e consequente. 

“Da dúvida à incerteza” — Exposição de trabalhos de DCMP + DCI

Durante a semana passada organizei, juntamente com alguns colegas da minha turma, uma exposição de trabalhos do primeiro ano do curso de Design de Comunicação, mais especificamente realizados nas cadeiras de DCMP e DCI (aka “cadeiras de projecto”). Esta exposição inseria-se na Design Welcome Week, uma nova iniciativa na FBAUL que visa preparar os novos alunos, e não só, para o percurso que têm à frente. Foi uma boa maneira de começar o ano, porque ninguém que tenha estado envolvido pôde ceder à lentidão característica dos recomeços. Aderi à ideia, colocada pela professora Cândida Ruivo (uma das professoras das cadeiras referidas), com algum cepticismo e não sabia o que esperar do resultado final, visto estarem envolvidas tantas pessoas com ideias diferentes. No entanto, e olhando para trás em jeito de rescaldo, posso dizer que fiquei surpreendido e mais que feliz pela direcção que a exposição tomou e pelo resultado que produziu. Toda a gente trabalhou em sintonia, numa confluência de ideias e visões muito interessante que transformou a exposição numa verdadeira retrospectiva sobre um ano de trabalho, cheio de percursos individuais e colectivos, que se manifestaram sob a mensagem do título desta exposição. 

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Guilherme Sousa

My first cheat sheet

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When I started elementary school I could already ready, thanks to my mom and dad, Sesame Street books and later, Disney comics. I’m not sure, tough, that I could write. Looking at this small piece of paper I would say I probably couldn’t. As much as I can remember, we were learning our “abc’s” and I was very afraid of forgetting each letter’s form. So, in my first (and one of the very few, I should mention) efforts to actually cheat in school, I made this very useful “memory aid”, which I kept with me throughout the year. It includes both lower and upper case alphabets, written in the correct calligraphic style the teacher had taught us. Still to this day I am very insecure and doubtful about my memory and keep notes and cheat sheets about everything, though now I know that to use them in tests is considered a bad thing and can get you in trouble. I like to think that this was also my very first information design work. Although time’s effects and the glass framing my dad put on the piece of paper (hence the terrible photo) don’t help with the understanding of the object itself, it is quite well organized and surprisingly functional, except for the gray pencil layer covering everything, probably added in a very boring moment, and that totally random (and awesome) podium in the bottom.

Guilherme Sousa