Republicanos, Hitchens.

Ontem assisti ao debate do Partido Republicano nos EUA. Gosto da política norte-americana, não porque seja o melhor dos sistemas mas sobretudo pela forma como as pessoas se envolvem nas campanhas eleitorais. Estas são muito mais variadas, com um grande número de candidatos que vai sendo filtrado até ao inevitável 1×1 final. Com isto tudo também aparecem as personagens caricatas e os cromos inacreditáveis. O Partido Republicano é especialmente propício a este espectáculo e é errado pensar apenas em Donald Trump. Bastou ver o debate de ontem para perceber que há ali gente com ideias tão ou mais descabidas do que o magnata com o cabelo mais discutido da política internacional. Mas é nos dogmas conservadores (Air Force One de Ronald Reagan estava mesmo atrás dos candidatos), e na forma como todos os candidatos são praticamente obrigados a confluir em certas ideias, que estes debates se tornam tão surreais. Todos são pro-life, todos odeiam Putin de morte e temem pela segurança de Israel, todos têm um plano para a primeira chamada que vão fazer assim que se apanharem na Sala Oval. Se em Portugal a campanha é vazia (Sócrates, pizas, etc…), nos Estados Unidos é simplesmente espantosa a forma vazia como os candidatos discutem assuntos tão sérios como o acordo nuclear com o Irão (uma data deles jura rasgá-lo no primeiro dia de presidência) ou a imigração (os muros voltaram a estar na moda). Deu para rir um bocado, mas rapidamente tive de desenjoar. Fui ver vídeos do Christopher Hitchens a defender a guerra no Iraque para me convencer que nem todos os que defendem posições neo-conservadoras(1) são completos idiotas.

(1) Hitchens até era um “tipo de esquerda”, mas no pós-11 de Setembro defendeu acerrimamente a invasão do Iraque (e o capitalismo, já agora). Os seus debates sobre o Médio Oriente são os meus preferidos, por serem polémicos (chocaram liberais pelo mundo fora) mas extremamente bem argumentados e racionais. Nunca se chegou a perceber bem esta “viragem à direita” de Hitchens, mas até as suas palavras finais antes de morrer foram enigmáticas: “Capitalism…Downfall.”