A geração depois do fim

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Frame de Starship Troopers, Paul Verhoeven (1997).

“I’ve seen the future, brother: It is murder.”
The Future, Leonard Cohen (1992)

Há uma cena particularmente inquietante no filme Starship Troopers (1997) de Paul Verhoeven, na qual o protagonista Johnny Rico informa os pais de que se acabara de alistar no exército. A decisão, que quase certamente significava a sua morte, é simplesmente incompreensível para eles. Os jovens desta Buena Aires distópica são educados com um fervor nacionalista que glorifica a guerra e a expansão imperialista — uma motivação mais forte que o medo. Os pais que os tentam desencaminhar deste destino são retratados como traidores. Claro que Starship Troopers é uma sátira embrulhada nos maiores clichês estilísticos e ideológicos de Hollywood, algo que foi maioritariamente incompreendido aquando da sua estreia. Verhoeven pergunta como seria um filme de ficção científica produzido por uma sociedade fascista e apresenta em bruto um produto incrivelmente semelhante às grandes produções norte-americanas do pós-11 de Setembro. Tudo no filme é demasiado óbvio: há planos directamente copiados da obra de Leni Riefenstahl e a certa altura o actor Neil Patrick Harris aparece vestido com uma farda das SS alemãs. [1] As críticas, no entanto, debruçavam-se sobre o valor de produção, a qualidade do guião ou o talento dos actores (eles próprios desconhecedores das intenções do realizador). A enorme suástica metafórica carimbada em cada frame passou, e para muita gente continua a passar, totalmente despercebida.

A naturalidade banal com que o fascismo é encarado neste filme é o que o torna tão insuspeito. A crença cega de Johnny Rico no dever da guerra soa tão inacreditável aos seus pais como a carta que Magda Goebbels enviou ao seu filho Harald Quandt antes de se suicidar, explicando que não valia a pena viver num mundo sem o Führer ou o nacional-socialismo. [2] É o mal absurdo e real de Trump nos Estados Unidos ou do nome Hugo Boss, um dos principais produtores das fardas das SS [3], estampado no frasco de perfume que uso diariamente. A obra de Verhoeven, marcada também por Robocop (1987) ou Showgirls (1995), é das mais prescientes das últimas décadas. Starship Troopers apresenta uma profunda compreensão da infindável estupidez do fascismo total e de como ela se torna num apelo poderoso aos piores instintos do ser humano. Quando essa estupidez coincide com governos e movimentos autoritários emergentes, políticas discriminatórias e repressivas, catástrofes climatéricas implacáveis, guerras infindáveis ou o brutal desequilíbrio na distribuição da riqueza — fenómenos que pouco incomodam o resto do mundo que deles se pode alhear — temos então motivos para alerta.

Outrora, o futuro da democracia e da liberdade residiu numa memória histórica que foi sendo gradualmente descuidada, revisitada com má vontade e em última análise esquecida. Mais recentemente, o sector tecnológico começou a olhar para si como um último reduto de esperança na sobrevivência do ser humano livre. Em Silicon Valley, nos EUA, o projecto capitalista investiu de novo na ideia da sua auto-regulação, apresentando-se agora como agente subversivo de um sistema que pretende salvaguardar. É uma enorme pescadinha de rabo na boca, um conceito incoerente dissecado perante o grande público numa série de escândalos recentes. Google, Facebook e Twitter são questionados pelo seu tratamento de dados privados e ingerências anti-democráticas, Elon Musk perde gradualmente a cabeça em tempo real na internet e o co-fundador da Web Summit, Paddy Cosgrave, dá duas voltas à espinha entre convites e desconvites a Marine Le Pen. Comum a todos: o conforto no convívio com, e apoio a, movimentos repressivos de extrema-direita. O sonho liberal de um resgate tecnológico à moda de um blockbuster sci-fi vai derretendo como um gelado ao Sol quando confrontado com o poder do populismo etno-nacionalista. Marte não está assim tão perto e o corpo de Peter Thiel congelado à espera da imortalidade não nos traz grande conforto. [4] Mas claro que nada disto faz sentido desde o início: Silicon Valley é indissociável do poder, representa as suas faces mais obscuras, e só o grande desespero do abismo poderia levar-nos a pensar que pôr o futuro nas suas mãos era uma boa ideia.

O progresso tecnológico, bandeira máxima da razão contemporânea, só poderia desvendar o seu programa depois de conquistar pacificamente a geração que a pode sustentar. Não é raro ver os telejornais apresentar uma peça jornalística sobre a relação dos millenials com a tecnologia. Fala-se dos perigos, das possibilidades, dos novos talentos e das promessas de futuro… Mas o progresso é tão veloz que estas peças são sempre tentativas falhadas, evidências claras da total falta de compreensão que divide gerações. Além disso, reservam uma crítica tecnológica para efeitos menores de um aparelho ideológico que age numa escala bem mais alargada. A cultura online é hoje absolutamente massiva e move-se a um ritmo imparável. É impossível compreendê-la sem fazer parte dela, até para pessoas jovens e activas na rede como eu. Por isso acredito que não há maneira de imaginarmos sequer como o futuro imediato se vai desenrolar. Não sabemos tirar o pulso a quem somos. Herdámos o fim da História quando já a pata estava enfiada na poça de ataraxia neo-liberal de Tatcher e Reagan — uma era que foi tudo menos um ponto final. A vitória do capitalismo com a queda da União Soviética foi pírrica e simbolizou apenas o fim de uma narrativa que serviu de pouco perante os problemas graves que o globo enfrentaria nos anos seguintes, deixando para os vindouros a responsabilidade de segurar o castelo de cartas.

Ainda assim, enquanto geração, a nossa defesa acaba no diagnóstico. Para toda a genuína revolta e vontade de mudar, para todas as tentativas de propor modelos mais justos, parece haver uma cruel corrente contrária igualmente potente. E é claro que nós, geração, também não percebemos ainda a real dimensão do que se está a passar. Isso terá de mudar em breve, pois tudo se precipita rapidamente. Os alarmes não soam porque o fascismo não voltou sob a forma de 1984 nem de Admirável Mundo Novo, mas sim servida como a estupidez mergulhada em gorduras saturadas de Starship Troopers. Não se propagou pela imprensa do Estado ou por velhos académicos, mas penetrou no incontrolável solo fértil da cultura de massas. Não há razão nenhuma para acreditar que as injustiças do passado não serão perpetuadas por nós — nada nos distingue como melhores. Os filhos que herdaram o imenso poder e riqueza dos seus pais estão hoje em posições privilegiadas para silenciar os restantes e são os primeiros a contestar qualquer definição do Mal que os identifique como o inimigo.

Dizem-nos que não podemos gastar as palavras, que lhes sugamos o significado e anulamos o seu poder. Há quem não goste que se diga “fascismo” e reserve o adjectivo para parcelas hermeticamente seladas da História, reduzidas a erros pontuais para que ninguém se atreva a pensar que são a norma. Ainda assim, mesmo que nos queiramos cingir a uma definição convencional de fascismo enquanto violência colonial aplicada domesticamente através da perseguição de bodes expiatórios, vemos que tal acontece abertamente perante os nossos olhos. Como os nazis perseguiram os judeus, o governo norte-americano persegue os migrantes da América Central e do Sul, vários líderes europeus assumem querer esvaziar o continente de qualquer presença muçulmana e nas Filipinas Rodrigo Duterte compara-se a Hitler enquanto ordena o assassinato de centenas de traficantes e utilizadores de droga. Aconteceu tudo como antes: ambições imperialistas, guerras inúteis e uma recusa geral em aceitar que o sistema capitalista não permite a libertação deste ciclo. O status quo esteve sempre mais confortável a apoiar reacções de extrema-direita do que a dissolver o sistema económico que gera toda esta violência — foi assim que o fascismo desmontou, no século XX, toda a força do movimento proletário descontente com as circunstâncias económicas do pós-guerra. É assim que o está a fazer agora: com dinheiro, poder e repressão — e uma resposta fácil a problemas complexos.

O convite original que me fizeram para este texto pedia que escrevesse acerca do que mudou nos 3 anos desde a última vez que o fiz, para a exposição de finalistas Agora, irrepetível. [5] Fi-lo outras vezes entretanto e revejo-me em muito pouco do que escrevi. Quando se escreve sobre a geração é fácil acabar a dar conselhos que ninguém pediu ou a lamentar as nossas próprias inseguranças. Por isso não correspondi a esse pedido — porque sinto que não tenho assim tanto a dizer, porque não me considero sequer de uma geração diferente dos finalistas deste ano e porque me parece que os discursos da geração são um escape reaccionário a discussões concretas sobre política e poder. Mas há algo a apontar. As circunstâncias do nosso universo próximo podem ter melhorado em alguns aspectos e piorado noutros, com uma sensação tendencialmente positiva. Mas não é possível estar tranquilo quando vemos que à nossa volta tudo está a ruir e o autoritarismo violento ressurgiu em locais e de maneiras impensáveis. É preciso ser muito ingénuo para achar que o nosso país nunca cometeria o mesmo erro. A última vez que o cometeu não foi assim há tanto tempo. Derrotar o fascismo do século XXI, em todas as suas formas. É esta a maior urgência da minha geração, que no fundo é toda a gente que está viva ao mesmo tempo que eu. Toda a ansiedade geracional — ou se lhe preferirem assim chamar, esta crise de identidade — acontece porque percebemos no fundo que os desafios que se adivinham são excepcionais. Acredito, no entanto, no poder desta crise. Talvez ela carregue a inquietação necessária para uma verdadeira ruptura. É essencial que sirva para deixar de procurar o valor de uma geração na comparação com as anteriores, pois isso serve apenas aqueles que querem pouco que as coisas mudem. Não estamos confinados à escolha binária de ser o filho que parte para a morte ou o pai que esconde a culpa atrás da repulsa — temos a responsabilidade de abandonar velhos dogmas para evitar horrores do passado. O futuro não é garantido, mas podemos conquistá-lo.


[1] How we made Starship Troopers em The Guardian. Paul Verhoeven, 22-01-2018. [disponível em: https://www.theguardian.com/culture/2018/jan/22/how-we-made-starship-troopers-paul-verhoeven-nazis-leni-riefenstahl]
[2] Letter from Magda Goebbels to Harald Quandt. Magda Goebbels, 1945. [disponível em: http://www.worldfuturefund.org/Reports/lastletter.htm]
[3] Fashion at War: Crafting the Nazi Brand. Alexa Karolinski e John Walter, 2017. [disponível em: https://m2m.tv/watch/fashion-at-war-crafting-the-nazi-brand/films]
[4] The Men Who Want to Live Forever em The New York Times. Dara Horn, 25-01-2018. [disponível em: https://www.nytimes.com/2018/01/25/opinion/sunday/silicon-valley-immortality.html]
[5] Quanto tempo passou desde agora? em “Agora, irrepetível. A juventude, o design e a sua prática”. Edição FBAUL/Sofia Gonçalves, 2015. [disponível em: https://biomorphism.wordpress.com/2018/03/24/quanto-tempo-passou-desde-agora/]

Este texto foi redigido para o jornal da exposição Crise de Identidade, organizada pelos finalistas de Design de Comunicação da FBAUL em 2018.

Quanto tempo passou desde agora?

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Nota prévia:
Este ensaio foi redigido em 2015 para o livro dos finalistas de Design de Comunicação da Faculdade-de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. O livro fazia parte de uma série de iniciativas, como uma exposição, debates e um documentário, agregadas sob o título Agora, irrepetível. Enquanto um dos finalistas desse ano, tentei neste texto captar o sentimento de uma geração, ou pelo menos dos colegas que me rodeavam. Hoje continuo-me a rever em algumas das ideias aqui expostas, noutras nem tanto. Não esperava outra coisa. Partilho o texto sem alterações, pois considero-o um documento mais útil no seu estado original do que revisto aos olhos da actualidade. O mais certo é que qualquer revisão feita agora esteja desactualizada daqui a 3 anos.

Agora, irrepetível.http://agorairrepetivel.belasartes.ulisboa.pt/
Comprar o livro: http://loja.belasartes.ulisboa.pt/agora-irrepet%C3%ADvel-2

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[Entrevista] Teal Triggs

Além do seu trabalho como professora na School of Communication da Royal College of Arts (Londres), e com um grande número de textos e livros publicados em diferentes media e editores, Teal Triggs é uma das vozes mais respeitadas no debate sobre tmas como a pedagogia do design, a auto-publicação ou o feminismo na disciplina. Na sua conferência nos Encontros de Design de Lisboa, a 17 de Novembro de 2016, debruçou-se sobre os novos espaços da crítica no design gráfico, numa “provocação” certeira a uma plateia de alunos e professores que não se inibiu de participar no debate. Algumas horas antes tive oportunidade de entrevistar Teal Triggs e com ela conversar brevemente sobre fanzines, juventude, ensino e como agir politicamente pelo design em tempos conturbados. 

A Teal investiga o mundo das fanzines há já bastante tempo e de facto este continua a ser um formato editorial bastante adorado pelos designers gráficos, sobretudo os mais jovens. Na sua opinião, qual é o papel deste género de publicação independente low-cost na sociedade actual?

Em termos do clima político actual — social e culturalmente — o mundo atravessa grandes mudanças e estamos a assistir a uma série de fenómenos interessantes. O papel da edição independente tornou-se incrivelmente crucial neste novo contexto e as publicações independentes estão a emergir. Como resultado disso, as pessoas no mainstream estão um pouco mais conscientes de perspectivas alternativas. Normalmente, as fanzines e revistas independentes fazem parte de uma cena underground e só as pessoas no meio é que tendem a ter acesso ou interesse em olhar para elas. Houve um período em que a tecnologia e a era do ‘boom’ do computador e do desktop publishing vieram a jogo. Isto criou uma sensação de horror, particularmente no design gráfico, com designers como David Carson a declarar “print is dead”. Isto agitou o debate; contudo, hoje em dia já acalmou completamente. Penso que temos gerações de designers que cresceram a usar a tecnologia e agora têm um fascínio por coisas impressas, pelo que a fanzine ressurgiu coincidindo com o actual clima político e toda esta mudança que eu referia. Desta forma, o papel das zines é incrivelmente significativo. Estas publicações permitem que se ouçam vozes que de outra forma não seriam ouvidas e evidenciam que existe uma grande dose de reflexão, cuidado e atenção prestada aos desafios que enfrentamos actualmente. As zines disponibilizam uma via muito importante e eficaz de disseminação; elas sugerem que outro tipo de comunicação está a ocorrer. Portanto sim, [a edição independente é] absolutamente importante.

Falava do “print is dead” e toda a agitação que se levantou na altura. De que forma é que as redes sociais vieram mudar estes meios de comunicação? Pode-se dizer que se eu tiver uma mensagem será mais fácil simplesmente publicá-la no Facebook ou no Twitter. Pensa que isto veio criar uma espécie de crise identitária para a edição independente e possivelmente torná-la em algo datado?

Não, penso que é apenas mais uma plataforma. Eu acho que as redes sociais têm uma função — existe um imediatismo em fazer a mensagem chegar aos teus leitores ou seguidores — mas não penso que isto tenha diminuído a necessidade dos produtores de fanzines em fazerem algo que tem materialidade. A mensagem contida nesses objectos tem uma espécie de validade porque podes tocá-la, senti-la e interagir com ela. É também importante a comunidade das zines que partilha as suas publicações com pessoas com os mesmos interesses. Existe um ecossistema que sustenta uma comunidade. E sim, podes fazer isso no Twitter, definitivamente existem comunidades no Facebook e em todas estas plataformas, mas há algo mais na necessidade, no desejo e no entusiasmo em ter uma conversa quando entregas fisicamente a tua fanzine a alguém e dizes “Hey, o que pensas sobre isto?” ou “Quero escrever sobre um determinado assunto, vamos juntar-nos e conversar.” Há ainda toda uma infraestrutura à volta disto, com as feiras de zines e com outros tipos de eventos que intencionalmente juntam pessoas de uma forma que não acontece necessariamente nas redes sociais. É diferente e eu penso que ambos funcionam bem juntos.

E o que é que mudou nestas comunidades com a era digital?

Penso que as comunidades cresceram com o aumento dos canais digitais; eventualmente como resultado de conseguirem alcançar outras partes do mundo que individualmente as pessoas talvez não fossem capazes de alcançar. A mesma coisa aconteceu quando a internet apareceu, de repente as zines estavam na rede. É mais um mecanismo de distribuição, por isso não se perde a oportunidade de interagir pessoalmente mas dá a outras pessoas oportunidade de ler uma fanzine, seja através de um PDF descarregável ou dizendo “Aqui estou eu, envia o dinheiro e recebes a tua zine.” Como um meio de distribuição acho que as plataformas digitais funcionam mesmo bem como outra forma de comunicação que acrescenta algo à edição impressa. O Twitter e o Facebook permitem que os produtores de zines ponham a mensagem cá fora e depois o resto do processo trata-se de veicular o conteúdo real, a substância e a interação daí resultante.

Outro aspecto que acho interessante na edição independente, especialmente depois da democratização do computador pessoal, é que permitiu a não-designers fazerem design gráfico. Pergunto-me se a Teal considera que esta exposição a novas maneiras de pensar e trabalhar é importante para os designers gráficos e se ela continua a acontecer actualmente.

Penso que em termos da recente mudança de paradigma na tecnologia informática, sim, permitiu uma maior democratização do acesso aos meios de produção para aqueles que não são designers. Diria também que isso sempre aconteceu na comunidade das fanzines e essa é a sua beleza, porque qualquer um o pode fazer. Se voltarmos ao período do punk, qualquer um podia pegar numa guitarra e fazer parte de uma banda, se a vontade estiver lá vais sempre encontrar os meios de produção para fazer acontecer. E mesmo mais para trás historicamente, com as newsletters comunitárias criadas por indivíduos que talvez não fossem considerados designers ou que eram considerados “amadores”. Portanto, acho que a democratização sempre esteve presente. O que eu acho que aconteceu com os designers — e estamos a vê-lo na Royal College of Arts, por exemplo — é esse fascínio pela dimensão táctil encontrada no processo de concepção das fanzines, e por causa de um ethos intrínseco Do it Yourself, estas publicações são produzidas rapidamente. A impressora Riso é a nova fotocopiadora, está a permitir que surjam outras formas de pensar sobre aquilo que designers ou não-designers querem comunicar, que são baratas e rápidas e dão o máximo feedback nesse ponto da produção. Penso que o processo de produção de zines ajuda os designers a reflectir e a entender melhor o que querem alcançar e comunicar com os outros. Abre um espaço experimental que se foca especificamente no que está ser comunicado, como está a ser comunicado, e a quem se dirige esta comunicação.

De volta à política. Não podemos falar de fanzines sem falar de uma atitude política na edição independente. Estamos a viver tempos interessantes, usando um eufemismo, e a política está a entrar cada vez mais em vários aspectos da nossa cultura. Vêmo-lo na arte, na escrita, no cinema… Como é que acha que os designers actualmente estão a abraçar as causas sociais no seu trabalho?

É uma boa pergunta. Acho que tem havido uma crescente consciencialização entre a geração mais jovem de designers, de uma forma que eu não tinha necessariamente visto anteriormente. Temos de ter bastante cuidado, isto são generalizações enormes, porque podemos voltar aos anos 1960 onde colectivos tais como o grupo experimental Grapus trouxeram a consciência social para o design e produziram afirmações políticas realmente fortes e impactantes. Mas o que eu vejo agora parece ser um verdadeiro desejo de comunicar com públicos fora da comunidade do design e uma forma de o fazer é através de uma maior consciência do contexto político, social e cultural em que os designers trabalham. Os designers parecem ter uma paixão e um compromisso em fazer passar certas ideias, mas também em gerar debate e discussão. E assim vêem-se exemplos como o [jornal] The Occupied Times of London, feito por alunos da London College of Communication, que interagem activamente com a linguagem gráfica de protesto. Uma das nossas alunas norte-americanas no programa MRes (Master in Research) da RCA voltou a Nova Iorque para as eleições presidenciais e tem estado activamente envolvida nos protestos de rua. Tal como outros jovens designers, ela tem estado muito empenhada em fazer a diferença usando as suas capacidades e a sua paixão para levar a cabo uma acção positiva. Eu tenho o maior respeito por esta próxima geração que está a tentar lidar com todos estes grandes problemas — e ainda assim, ao mesmo tempo, usam verdadeiramente as suas capacidades enquanto comunicadores para contribuir para a mudança e, ao fazê-lo, alcançar algo que seja realmente efectivo e com significado. Os cartazes nos protestos de rua nunca tiveram tão bom aspecto!

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© The Occupied Times of London

Também me parece importante, ao falar de fanzines, referir que os designers se vêem de alguma forma forçados a não serem apenas designers — têm de saber construir uma mensagem e ter sequer uma mensagem para transmitir. Em linha com o que estava a dizer, penso que os designers talvez estejam a olhar cada vez mais para si como cidadãos do que apenas como designers. Concorda?

Absolutamente! E isso vai de encontro ao que Jan van Toorn diz quando se refere ao designer cidadão. Também acredito que houve uma obsessão com uma estética que vimos ao longo dos anos em termos de tudo ter que ser absolutamente perfeito na perspectiva do design — habitualmente uma obsessão com o kerning e outros detalhes — mas agora parece-me que os designers estão usar a lente do design para trabalharem sobre estes desafios maiores, de forma a perceberem melhor o seu próprio posicionamento. Isto não significa necessariamente que seja tudo acerca do resultado final, mas antes sobre o processo. Dessa forma, o que dizes está certo, é esse envolvimento com o conteúdo que é agora o condutor, mais do que o envolvimento com a forma final. Novamente, isto é uma grande generalização; não serve para dizer que as formas finais não reflectem o conteúdo, mas antes que estamos a assistir a uma mudança de ênfase — onde o papel do designer surge no início do projecto e não necessariamente no fim. Os designers podem continuar a fazer algo com ‘bom aspecto’, mas agora há uma verdadeira mudança no pensamento sobre as diferentes maneiras que um designer pode encontrar para se integrar inteiramente no processo de comunicação.

Como educadora, o que espera de uma escola de design que ambicione formar uma futura geração de designers capaz de enfrentar estes problemas?

O que é que eu espero de uma escola de design…? O que é que eu espero do sítio onde trabalho! Penso que é absolutamente essencial que as escolas de arte e design mantenham um espaço livre onde os estudantes possam ser experimentais, onde possam desenvolver as suas ideias, onde possam levantar questões e problemas que talvez não sejam fáceis de levantar numa prática de design convencional ou na indústria. É uma oportunidade de olhar para trás e reflectir sobre o que é que queres fazer mas também sobre qual poderá ser a tua posição na questão mais abrangente. Acredito que, como educadores, devemos facilitar e não ditar. Os dias da abordagem dogmática à educação já não vão necessariamente ao encontro das condições em que actualmente vivemos ou da forma como estamos a fazer design para este contexto. Hoje em dia o foco devia ser mais em ajudar os alunos a perceber como podem ser mais ágeis e flexíveis na sua maneira de pensar do que em serem apenas reactivos. Em vez disso, os designers deviam assumir a liderança na procura de soluções para estes novos desafios e usar as suas capacidades de design e pensamento crítico para o fazer. Sou firmemente crente na escola de artes e na experiência ‘vivida’ que ela pode providenciar, não apenas para alimentar indústrias criativas mas também em termos do impacto que os designers podem ter no quadro geral. O design é absolutamente chave para tudo o que atravessamos neste momento.

Quais são os maiores desafios para esta nova geração de designers? E está optimista?

Estou sempre optimista, mas já lá voltamos. Em termos de desafios, lamento bastante a situação dos alunos que neste momento terminam a sua educação. Quero dizer, no Reino Unido têm agora que pagar taxas, estão em dívida, são confrontados com um contexto económico que não é estável e portanto existe uma grande incerteza em termos de carreira e da sua progressão. Ainda assim, acredito que os designers são bastante capazes de se manobrarem através destas complexidades, portanto se estiverem a fazer bem o seu trabalho e a aproveitar realmente o seu tempo e educação estarão no bom caminho. Desse ponto de vista, estou bastante optimista com estas novas gerações que estão a surgir e que são capazes de lidar com os desafios de uma forma que os contextos educativos anteriores talvez não tenham permitido. Estou esperançosa com isso. Ainda assim, tenho bastante apreensão para com a situação dos estudantes que vão atravessar grandes dificuldades no futuro. Se os estudantes forem perseverantes, não apenas irão colher os frutos e benefícios como profissionais (em qualquer dimensão do design que decidam praticar), mas também o seu impacto no futuro será significativo.

Política aventura

O momento político do país é particularmente interessante e para grande parte das pessoas, nas quais me incluo, uma grande e bem-vinda lufada de ar fresco. No meio disto tudo, destaca-se o facto de haver uma alternativa não apenas ao governo da direita, mas também ao dito arco da governação. É certo que este acordo histórico é fruto de condições muito especiais, as do país por um lado (mergulhado em crise) e as eleitorais pelo outro (uma derrota surpreendente do PS, um crescimento inesperado do Bloco,…). Ainda assim, o consenso à esquerda parece ir além do mero oportunismo, e especialmente as relações entre PS e PCP podem quebrar com um velho dogma ainda omnipresente na nossa paisagem política, social e cultural. Também pode correr muito mal, mas isso não é desculpa para perpetuar o que tem sido uma governação exasperante e destrutiva da direita. Nota-se que finalmente há debate aceso e consequente. Mesmo na oposição à coligação de esquerda, e aqui excluo a idiotice habitual de alguns (muitos) comentadores da direita conservadora que já são só ruído de fundo, até nesta oposição parece haver um assumir da cultura democrática que tanto tem faltado ao país. Isto acontece, é certo, depois de um penoso deserto discursivo em que se andou a discutir a legitimidade de uma maioria parlamentar. Isso sobrou para os Observadores do país. Agora estamos noutra. Não me chateia nada ver Assis a fazer uma campanha contra a opção de Costa, não me custa nada ler, ouvir e perceber os argumentos usados contra o governo de esquerda. Este debate tem ajudado a clarificar as ideias e estou cada vez mais seguro que votaria com confiança nesta opção se ela agora fosse às urnas. É natural que as pessoas estejam apreensivas e com algum receio. Eu estou. Mas ao mesmo tempo estou muito entusiasmado com as possibilidades futuras. Mesmo sabendo que poderemos sofrer, como a Grécia do Syriza, uma campanha de agressão por parte da Europa. Mesmo sabendo que a coligação pode ser mais frágil do que parece. Mas como nunca aconteceu, também temos que saber que pode correr muito bem. Esta esperança é tudo depois de 4 anos de calvário. E se as Europas, os Cavacos e os Credores deixarem, estou certo que a esquerda não nos levará à cruz. Podemos dormir descansados. 

A esquerda debatida à esquerda

O texto de Clara Ferreira Alves hoje no Expresso sobre o seu anti-comunismo é, apesar de o título não aparentar, um contributo lúcido para a discussão deste acordo à esquerda que está prestes a ser posto em prática. Não é pancada no PCP, mas antes um olhar histórico que deve ser contrabalançado com as condições únicas em que o acordo actualmente acontece. Ao mesmo tempo, mostra como a ausência de uma força intelectual e discursiva na direita capitalista e neoliberal permite que a retórica do PCP continue a ter ressonância. Não concordo necessariamente com a conclusão de que o passado histórico dos comunistas portugueses indique um rumo ao desastre, mas é este tipo de opinião argumentada que faz falta ao debate. E mais, demonstra novamente que o debate real e útil sobre a coligação de esquerda está a ser feito apenas à esquerda, em contraste com a histeria da direita, que lembra os piores momentos dos protesto anti-Dilma no Brasil ou do Tea Party norte-americano.

Porque é que o design é político

 

No famoso debate entre Jan van Toorn e Wim Crouwel que aconteceu na Holanda em 1972 (1), o segundo afirmava que costumava encontrar alunos que se preocupavam mais com as causa sociais associadas aos seus trabalhos do que à missão de tornar uma mensagem clara e compreensível. Quando isto acontecia, Crouwel aconselhava o aluno a abandonar a sua carreira como designer e a dedicar-se à política, podendo dessa forma chegar a posições de maior influência em relação aos tais problemas que, segundo Crouwel, não cabia ao designer resolver.

Esta é uma visão interessante, que não reflecte apenas um entendimento sobre o papel do design, mas também sobre o funcionamento de uma sociedade democrática. Vamos por partes. O debate em causa opunha duas visões diametralmente opostas sobre o que deve ser um designer. Enquanto Crouwel evitava posicionar-se como um obstáculo entre emissor e receptor, van Toorn procurava precisamente fazer essa interferência, não necessariamente para criar significados mas para que o leitor os pudesse criar a partir da forma como a mensagem era transmitida.

Crouwel defendia a especialização, afirmando que um designer não pode ter conhecimentos suficientemente aprofundados sobre todas as matérias que são tratadas nos seus projectos e como tal deve manter-se distante de uma intervenção sobre as mesmas, recorrendo a especialistas no assunto, se necessário. Van Toorn, pelo contrário, defendia precisamente uma condição mais abrangente das competências do designer, não apenas como um técnico que dá forma às ideias do outros mas como um elemento participante da própria mensagem e da cadeia de comunicação. Crouwel é objectivo, van Toorn é subjectivo. O debate tem outras implicações interessantes, como o tipo de clientes que o designer deve procurar (e se os deve procurar de todo) ou qual é o papel dos museus, mas para o efeito, esta síntese serve.

Apesar da negação de Crouwel, parece-me que a posição de qualquer um destes designers é uma posição política. No caso de van Toorn esta é uma constatação óbvia, mas para entendermos a linha de discurso de Crouwel como política é preciso dissecá-la. A ideia de especialização profissional, que se vê materializada nas “recomendações” aos alunos anteriormente referidas, é uma ideia política por si só e refere-se a uma ordem de ideias que deposita grande confiança no funcionamento do sistema social e político.

Pode parecer um discurso anti-democrático, se pensarmos que em parte incentiva um certo tipo de inacção, mas também pode ser lido como um voto de confiança no funcionamento democrático da sociedade. Os designers podem confiar nos políticos, os políticos podem confiar nos designers. Ambos não interferem na actividade dos outros não por desinteresse, mas porque reconhecem neles maior capacidade e competência para resolver os problemas específicos da sua área de conhecimento. Claro que hoje esta é uma ideia ingénua, até utópica. É o mesmo positivismo europeu da música dos Kraftwerk, uma concepção social bastante mais comum nos países da Europa do centro e norte do que nos países de sul, onde não teve muita ressonância (em Portugal, por exemplo, terá tido imediatamente a seguir à adesão à CEE, mas como sabemos durou pouco).

É importante fazer esta distinção para que não se aponte o dedo a Crouwel como um totalitário do funcionalismo gráfico que ignora os problemas que existem para lá do seu trabalho. Fazer isso parece-me injusto, ou no mínimo precipitado. Não me parece que seja tanto um ignorar dos problemas como é uma cedência de responsabilidades ou competências. É uma ideia política porque subentende uma formulação da ordem social. Ao mesmo tempo, a renúncia à participação política é, paradoxalmente, uma opção política. Uma comparação pertinente são as pessoas que se abstêm numa eleição: a sua decisão (mesmo quando é feita por desinteresse) carrega consigo uma mensagem política e como tal é importante para o debate.

Entre as visões de Crouwel e van Toorn, não é possível realmente dizer que uma delas é a correcta. Hoje em dia é, de resto, habitual assumir esta posição de tolerância das diferentes abordagens à prática dos designers, o que, em parte, contribui para que não existam debates acesos e memoráveis como este. Pessoalmente, identifico-me mais com van Toorn, mas não posso afirmar que Crouwel está errado. São visões que, além de pessoais, são bastante bem fundamentadas e que se manifestaram em corpos de trabalho distintos que moldaram o panorama do design gráfico.

Quanto à pergunta do título, não chega apenas referir-me a esta análise do discurso de Crouwel. Esta linha de pensamento é política precisamente devido à sua negação de participação política, mas o que acontece quando o design não nega nem renuncia tal participação? É neste campo intermédio que grande parte da actividade, sobretudo comercial, do design se desenvolve. Crouwel articula um pensamento excepcional quanto à objectividade funcionalista do seu trabalho, mas tal como os abstencionistas que argumentam ideologicamente a sua atitude eleitoral, este caso não reflecte o pensamento da maioria.

O design é político por se referir quase sempre a um acto de comunicação público. O designer, como mediador de mensagens, encontra-se no ponto sensível da cadeia de comunicação onde a forma e o meio são definidos e trabalhados para que determinada ideia seja comunicável. Em muitos casos, é nas mãos do designer que o privado se torna público, acrescendo assim a responsabilidade de o fazer de forma consciente. O poder de intervenção neste processo é tal que se debate, como vimos, se o designer o deve ou não fazer, e não se é capaz de o fazer. É aqui que o trabalho do designer se torna político.

Não me interessa tanto definir que atitude política deve, então, o designer assumir. Considero mais importante que se adquira a consciência de que o design não é politicamente inocente, por assim dizer. A ele associam-se empresas, governos, pessoas, cadeias de produção, ideologias políticas e económicas, e por aí além. Tudo isto acarreta, por sua vez, consequências boas e más em áreas como a governação, a economia ou o ambiente. Tal como Wim Crouwel, o designer pode renunciar criticar ou intervir na mensagem do cliente, mas não pode negar que a está a viabilizar, a legitimá-la por omissão de uma posição relativamente à mesma.

Por esta lógica, deduz-se que tudo o que é público é político, o que me parece razoável. O English Dictionary da Penguin apresenta como primeira definição de political: “relating to government or public affairs.” (relativo a assuntos governamentais ou públicos). Isto vai de encontro à ideia defendida anteriormente de que toda a matéria pública é também matéria política. É importante perceber isto para que a democracia funcione em todos os espaços da nossa sociedade, para que nos interessemos e estejamos informados sobre as decisões que, em maior ou menor escala, orientam as nossas vidas. E aqui sim, oponho-me a Crouwel, não na especificidade do design, mas nessa noção de especialização que conduz a uma sociedade fechada, seguindo o lema de “cada macaco no seu galho”, limitando a participação e opinião política a um número reduzido de indivíduos que define o status quo.

Crouwel está certo ao defender que o designer não pode resolver todos os problemas do mundo, mas isso não significa que não possa contribuir para a procura de uma resposta. Ter uma consciência política é, na verdade, essencial para que os designers percebam o raio de acção da sua plataforma e não cederem à narrativa TED Talk de que o mundo se muda um gadget de cada vez. Como cidadãos, acima de tudo, os designers precisam desta consciência para orientarem a sua participação pública e política. O design não é esta participação, mas é uma parte importante dela.


  1. Baseei o exemplo principal deste texto na leitura do livro The Debate, a primeira transcrição do debate entre Wim Crouwel e Jan van Toorn publicada em inglês. Os temas e ideias do debate que eu aqui refiro de passagem são expostos e bem contextualizados neste livro. O Design Observer publicou quatro excertos do livro a propósito do seu lançamento:
  2. Excerto 1
    Excerto 2
    Excerto 3
    Excerto 4