A esquerda debatida à esquerda

O texto de Clara Ferreira Alves hoje no Expresso sobre o seu anti-comunismo é, apesar de o título não aparentar, um contributo lúcido para a discussão deste acordo à esquerda que está prestes a ser posto em prática. Não é pancada no PCP, mas antes um olhar histórico que deve ser contrabalançado com as condições únicas em que o acordo actualmente acontece. Ao mesmo tempo, mostra como a ausência de uma força intelectual e discursiva na direita capitalista e neoliberal permite que a retórica do PCP continue a ter ressonância. Não concordo necessariamente com a conclusão de que o passado histórico dos comunistas portugueses indique um rumo ao desastre, mas é este tipo de opinião argumentada que faz falta ao debate. E mais, demonstra novamente que o debate real e útil sobre a coligação de esquerda está a ser feito apenas à esquerda, em contraste com a histeria da direita, que lembra os piores momentos dos protesto anti-Dilma no Brasil ou do Tea Party norte-americano.

“Demasiado encarnado”

A primeira reacção da rua aos eventos sobejamente conhecidos dos últimos dias era para ser uma festa que à última da hora se tornou em manifestação. Cerca de duas centenas de independentes reuniram-se no Marquês exigindo a demissão do governo. Apesar do reduzido número de pessoas, é importante perceber que não é habitual haver uma mobilização assim tão rápida dos portugueses face aos eventos políticos, ainda para mais quando nada de definitivo tinha acontecido. Um sinal positivo. Eu não estive lá, e por isso decidi hoje espreitar a segunda reacção, convocada pelo PCP. Um desfile de militantes e alguns simpatizantes (vi pelo menos uma grande faixa do Movimento 15 de Outubro) caminhou em protesto desde o Chiado até ao Rossio, onde Jerónimo de Sousa discursou. A terceira movimentação está marcada para Sábado, pela CGTP, e tomará a forma de um protesto em Belém.

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Quem chegasse ao Chiado por volta das 18h ficaria certamente surpreendido com a mobilização conseguida pelo PCP. Não sou afecto ao PCP, nem a qualquer outro partido, mas senti a necessidade de perceber um pouco qual era o sentimento das pessoas neste momento peculiar. Por isso mesmo, não posso dizer que tenha feito parte do protesto, não apelei ao voto comunista nem levei a bandeira vermelha na mão, mas partilhei a revolta daqueles militantes, que por acaso, e apesar de muitos críticos se esquecerem disso, também são pessoas e cidadãos portugueses. E não são os robôs que gostam de os pintar. Fiquei surpreendido, volto a dizê-lo, porque menos de 24h e uma divulgação mínima do acontecimento bastaram para juntar várias centenas de manifestantes indignados. Terá sido um prenúncio de uma revolta social que está prestes a rebentar e que vai transformar Lisboa num palco de luta social que, esperamos, levará mais cedo ou mais tarde à queda do governo. Provavelmente mais tarde, mas isso somos nós, portugueses.

À porta dos Armazéns do Chiado, um quarteto trés chic de jovens modernos, vulgo cool, vulgo hipster, indignava-se não com a crise política mas com a confusão gerada pela manif. “Logo vi que era demasiado encarnado para ser uma revolução normal” — disse, seguindo de risos, uma das brilhantes mentes iluminadas ao meu lado. Os comunistas que desfilavam chamar-lhe-iam burguesa, mas isso sou eu que acabei na Santini a comer um gelado de chocolate e baunilha. Eu chamo-lhe parva. Esses putos mimados representam um grande sector na nossa sociedade, maioritariamente jovem (o que me choca mais), que se acha demasiado fixe para querer saber de política. Estas são as pessoas que eu diria que merecem este governo; não o digo porque nitidamente elas não sofrem com a estupidez política que assola o país. O que merecem não sei. Quem me conhece, conhece-me eterno admirador da sátira, e o comunismo, como os restantes “-ismos”, sempre proporcionou bons motivos para tal. Mas outra coisa é parvoíce crónica, tacanhez, ignorância, falta de respeito pelas opiniões dos outros, eu sei lá… A verdade é que precisávamos de desfiles todos os dias. Do PCP, BE, PS, PNR, PM, CGTP, UGT, Verdes, Independentes, Indignados, Desalinhados, Punks, Reformados, Vivos e Mortos. Vai acontecer? Acredito que sim, mas repito que deverá demorar. Talvez caia o governo sem que aconteça e reserva-se a oportunidade para o executivo de Seguro. Aceitar que gozem connosco é que não. Nem o Portas e o Passos, nem os putos estúpidos do Chiado.