Olaria de Bisalhães: a roda dá mais uma volta

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® CMVR

Apesar de lhe ter sido adivinhada uma morte lenta há já vários anos, a técnica ancestral da olaria negra de Bisalhães nunca deixou de ser usada como traço identitário da região transmontana, em particular de Vila Real. Referido muitas vezes como um factor único e distintivo, o barro preto é daqueles dispositivos emocionais que pela sua simbologia sempre dispensaram grande conhecimento factual sobre a matéria. Talvez por isso não seja tanto do conhecimento popular local o facto de que se produz olaria negra em Molelos, concelho de Tondela, ou mesmo na Catalunha, para apenas referir dois exemplos. É certo que especificidades técnicas e materiais distinguem a produção da olaria em diferentes locais, mas a ideia de que só existe barro negro em Bisalhães é um mito em que muita gente não pensa realmente mas que no qual mesmo assim acredita. Além disso, a iconografia do barro preto dispensou também uma preocupação efectiva com o estado da arte, não tendo havido esforços reais para estudar, compreender e ouvir os artesãos para que posteriormente se tomassem medidas de salvaguarda de um ofício condenado pela idade avançada dos oleiros e por um apelo decrescente a este tipo de produção artesanal.

É portanto bem recebida a notícia de que o processo de confecção do barro preto de Bisalhães integra agora a lista do património cultural imaterial em necessidade de salvaguarda urgente da UNESCO. Quando as notícias sairam de Adis Adeba, onde a decisão foi anunciada, e chegaram aos ouvidos transmontanos, seguiu-se naturalmente alegria e congratulação popular e institucional. Como se décadas de negligência e desinteresse chegassem agora a um abrupto fim, o barro preto parecia salvo. Mas quando o anúncio de um fundo de 370.000 euros a investir até 2020 não se faz acompanhar de qualquer tipo de intenções programáticas concretas ou de uma visão estratégica fundamentada, não é tão certo assim que dentro de três anos a olaria de Bisalhães seja mais que uma reminiscência poética e identitária, sombra do seu passado, exactamente aquilo que é hoje.

Isto não retira qualquer crédito à iniciativa que conseguiu dar sucesso a esta candidatura, um sinal muito importante de alguma mudança de atitude que estava certamente em falta. Todos estão, naturalmente, de parabéns. Dito isto, só sem grandes euforias se pode dar o passo seguinte no caminho certo e, a julgar por sinais do passado, vejo mais razões para uma preocupação céptica do que para uma alegria incondicional. Uma política cultural deficiente ou praticamente inexistente tem sido obscurecida por um aparente aumento de eventos culturais. As duas coisas não devem ser confundidas. Terminou há algumas semanas o ano de Capital da Cultura do Eixo Atlântico em Vila Real e se, de alguma forma, no futuro nos lembrarmos que ele sequer aconteceu, será para perceber o grande fiasco que constituiu. Novamente, mais coisas a acontecer, algum dinheiro a circular, mas quando tudo acaba, nada mudou. Não houve um repensar do espaço da cultura numa cidade onde ela existe em défice, não se trabalhou no sentido de unir e consolidar os vários agentes e espaços culturais da região, que continuam a caminhar cada um para o seu lado, e não se promoveu um contacto com diferentes expressões artísticas e culturais. A maior parte destas questões, para não dizer todas, não foram sequer debatidas publicamente.

O desafio com a olaria de Bisalhães é muito maior do que o de uma Capital da Cultura onde a desilusão já era um resultado expectável. Se até 2020 o plano de acção for o mesmo, e se os responsáveis por o implementar continuarem a dar palmadinhas nas costas dessa criatura que é a cultura local auto-celebrada, esta data poderá ser lida como um fim definitivo, sem que qualquer futuro se adivinhe para a técnica e tradição aqui em causa. Mais concretamente, é essencial que não se cometa o erro de começar imediatamente a implementar projectos de incentivo à produção que reinterpretam e recontextualizam o ofício sob esse grande e perigoso guarda-chuva do design. O ponto de partida que se impõe nesta caminhada é o do levantamento no local, a documentação técnica e etnográfica realizada por uma equipa multidisciplinar. Não basta apontar para estudos académicos já existentes sobre o barro preto, a Câmara Municipal de Vila Real tem agora a obrigação de produzir “o” estudo sobre a olaria de Bisalhães que será referência futura. Como tal, não poderá estar comprometido pela ânsia de fazer, promover e vender — isso vem depois. Este processo terá ainda de se centrar nas pessoas envolvidas na produção das peças, nos seus conhecimentos, na sua experiência e nas suas propostas para o futuro. Ao contrário do que aconteceu até agora, é essencial que se deixem de lado os egos de gabinete, algo que será particularmente interessante de avaliar agora que entramos em período pré-eleitoral para as próximas eleições autárquicas.

Só depois de ser realizado um levantamento extenso e detalhado é que se poderá avaliar um plano de acção para promoção e salvaguarda do ofício, integrando as instituições culturais e a indústria local num papel de renovação. Isto não significa que a sua participação se inicie depois do levantamento, bem pelo contrário. Instituições estabelecidas, como os museus, e novos agentes, como é o caso da ‘startup’ Bisarro que se tem vindo a destacar nas produção de objectos contemporâneos em barro preto, devem ser integrados no processo de estudo para que a sua intervenção posterior possa ser consciente e consequente, nunca desligada da realidade artesanal que é, em última análise, guardiã da verdadeira herança de uma técnica ancestral cuja identidade se construiu no tempo. Mais uma vez, distanciar a produção teórica do conhecimento prático é um tiro no pé; a CMVR tem a responsabilidade de construir esta ponte.

No imediato, ficarei contente se ouvir menos conversa sobre “novos designs” e mais discussão sobre estratégia de acção. Para mim, tudo terá de começar no terreno, sem pressas e precipitações, procurando medir o pulso a este ofício e aos seus protagonistas. Quanto ao que vem a seguir, não tenho certezas, mas tenho certeza que esta abordagem ajudaria todos a ficarem mais esclarecidos. Exemplos disto não faltam, posso falar deles noutra altura. Por agora, reforço a minha provocação fundamentada — estou céptico e preocupado, mas vou esperar para ver. Obviamente, participarei sempre que houver oportunidade, plataforma e relevância em fazê-lo, como penso que devem fazer todos os que se interessam e querem garantir a sobrevivência saudável da olaria de Bisalhães. Isto lembra-me de outra certeza que tenho: a história do barro preto não se escreveu em Adis Adeba.