Antes sushi que arte

Desde ontem (senão antes) que decorre no Facebook um “jogo” em que uma pessoa partilha uma obra de arte e atribui aos amigos que gostam da imagem um outro artista, do qual devem escolher uma obra para depois partilhar e repetir o ciclo e assim acabar com as fotos de refeições no Facebook. Não me apetece divagar muito sobre o porquê de isto ser uma ideia parva (sobretudo porque também tem o seu quê de inofensiva), mas o princípio de superioridade que estas mensagens enunciam é no mínimo irritante. Como rede social, ou meio de expressão pessoal perante um universo seleccionado de utilizadores, no Facebook tem tanto valor uma foto de sushi como o Guernica, está na sua génese a partilha de informações generalizada e de critério largo — trivialidades e assuntos substanciais convivem lado a lado. Aliás, a maior parte dos utilizadores já viu o Guernica centenas de vezes na sua vida (nas suas várias representações possíveis) mas não a refeição do amigo ou o seu novo animal de estimação. Depois, pensar que de certa forma se educa para a arte assim de forma instantânea, ao mesmo tempo ganhando karma positivo porque se está a ser “cultural”, é exactamente o tipo de exercício masturbatório que faz com que não se pense a sério na arte e na cultura, e se continue a encarar os problemas como uma partida de golfe — aborrecida e elitista.