Viva (o) Hate

Num dos artigos que o Público publicou a propósito da sua transição para o lado dos serviços online pagos (aka o Lado Negro da Força) o tema era o hate nas caixas de comentários dos sites, os insultos, os trolls… No fundo, a desilusão que foi a introdução destes ssitemas, que outrora se imaginaram como potenciadores de discussões úteis e democráticas (…). O Ricardo Araújo Pereira explicou-o muito bem nesta crónica. Mário Moura também falou do assunto aqui, além de noutros textos aos quais se chega com uma pesquisa rápida no Ressabiator. E no geral, não é novidade nenhuma para quem já tenha passado mais do que meia dúzia de horas na internet.

Falo disto porque, conforme cresce, o IP4 vai recebendo, pouco a pouco, mais um troll, mais um comentário ofensivotendencialmente anónimo. O número ainda é reduzido, sim, mas o site existe há apenas 3 meses. Na verdade, os trolls estiveram lá desde o início (são eternos), mas no crescimento exponencial do ataque pessoal não-fundamentado, encontrei um medidor do sucesso, ou pelo menos do alcance, da webzine. Não é bem a história de não haver má publicidade, há sempre — mas má para uns, boa para outros…  Deliberadamente, não apago estes comentários (excepto em casos onde a linguagem fira os olhos e a alma — não existiram ainda). São, para todos os efeitos, uma crítica com o seu quê de legítimo e ao mesmo tempo divertidos. Quando lançámos o IP4, pensava em alguns artigos como geradores de polémica, discussões acesas (dentro dos parâmetros aplicáveis a uma cidade transmontana) e outras confusões. Mas revelou-se que os artigos mais polémicos à partida geravam consenso (pelo menos aparente) ou intimidavam os trolls, que assim deslizavam sorrateiramente para os artigos mais divertidos, descontraídos ou no geral mais inocentes. O que entender daqui, não sei ainda. Apenas que cabeças de javali na parede são mais polémicas que putas e seringas.

O Público e o conteúdo digital pago

Frederico Batista e Sérgio B. Gomes (texto) + Sara-a-dias (ilustração), Público

O Público prepara-se pra começar a cobrar pelos seus conteúdos online. Já o faz, de uma forma contida, mas em breve os leitores não-pagantes só terão acesso a 20 artigos por mês. à partida a reacção das pessoas é negativa. Presumo que seja pelo facto de a informação online gratuita de qualidade ser entendida como um dado adquirido. Ao mesmo tempo que isto acontece, discute-se amplamente como é que internet e jornalismo podem conviver (ainda há dias, aqui). A verdade é que muitos jornais, um pouco por todo o mundo, começaram a ter de tomar posições semelhantes à do Público, de forma a garantir a viabilidade financeira dos projectos editoriais. Mesmo em Portugal já não é caso único (ver Expresso, RTP, SIC,…).

Não sou um leitor assíduo de jornais impressos, ontem comprei por acaso o Público, como faço esporadicamente e fiquei surpreendido quando vi que estava a ser publicada uma série de artigos que contextualiza esta decisão de tornar o site do jornal num serviço pago. Ontem fazia-se um apanhado de diferentes soluções que várias publicações têm adoptado para resolver o problema do financiamento na era digital. Hoje uma espécie de banda desenhada ilustrada pela Sara-a-Dias recapitulava a história dos jornais online em Portugal. Amanhã especula-se sobre o futuro do jornalismo, mais precisamente em 2041.

Não sei, na verdade, o que perdi para trás, nem quanto tempo mais vai durar esta série, mas enquanto durar vou acompanhá-la com atenção. Parece-me uma decisão muito correcta e materializada de forma útil e informativa. Concorde-se ou não com a decisão, o Público demonstra uma enorme sensibilidade para o facto de este ser um piso muito escorregadio.