Game Over?

A capa do i de hoje ostenta um “GAME OVER” sobre a cara de Passos Coelho, como se este chumbo do Tribunal Constitucional fosse um fim de linha. Em condições normais seria, mas falamos de um Governo que sobreviveu à queda (uma delas apenas provisória) dos três braços braços direitos dessa deusa Kali que é o nosso primeiro ministro. Em tempos pensou-se que o Governo se agarrava à sua popularidade, hoje tem-se a certeza que se agarra ao poder porque a popularidade já a perdeu há muito. Este governo não cai e ao mesmo tempo não se tira. É um mal que não sendo eterno, se eterniza na sua efemeridade.

“Demasiado encarnado”

A primeira reacção da rua aos eventos sobejamente conhecidos dos últimos dias era para ser uma festa que à última da hora se tornou em manifestação. Cerca de duas centenas de independentes reuniram-se no Marquês exigindo a demissão do governo. Apesar do reduzido número de pessoas, é importante perceber que não é habitual haver uma mobilização assim tão rápida dos portugueses face aos eventos políticos, ainda para mais quando nada de definitivo tinha acontecido. Um sinal positivo. Eu não estive lá, e por isso decidi hoje espreitar a segunda reacção, convocada pelo PCP. Um desfile de militantes e alguns simpatizantes (vi pelo menos uma grande faixa do Movimento 15 de Outubro) caminhou em protesto desde o Chiado até ao Rossio, onde Jerónimo de Sousa discursou. A terceira movimentação está marcada para Sábado, pela CGTP, e tomará a forma de um protesto em Belém.

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Quem chegasse ao Chiado por volta das 18h ficaria certamente surpreendido com a mobilização conseguida pelo PCP. Não sou afecto ao PCP, nem a qualquer outro partido, mas senti a necessidade de perceber um pouco qual era o sentimento das pessoas neste momento peculiar. Por isso mesmo, não posso dizer que tenha feito parte do protesto, não apelei ao voto comunista nem levei a bandeira vermelha na mão, mas partilhei a revolta daqueles militantes, que por acaso, e apesar de muitos críticos se esquecerem disso, também são pessoas e cidadãos portugueses. E não são os robôs que gostam de os pintar. Fiquei surpreendido, volto a dizê-lo, porque menos de 24h e uma divulgação mínima do acontecimento bastaram para juntar várias centenas de manifestantes indignados. Terá sido um prenúncio de uma revolta social que está prestes a rebentar e que vai transformar Lisboa num palco de luta social que, esperamos, levará mais cedo ou mais tarde à queda do governo. Provavelmente mais tarde, mas isso somos nós, portugueses.

À porta dos Armazéns do Chiado, um quarteto trés chic de jovens modernos, vulgo cool, vulgo hipster, indignava-se não com a crise política mas com a confusão gerada pela manif. “Logo vi que era demasiado encarnado para ser uma revolução normal” — disse, seguindo de risos, uma das brilhantes mentes iluminadas ao meu lado. Os comunistas que desfilavam chamar-lhe-iam burguesa, mas isso sou eu que acabei na Santini a comer um gelado de chocolate e baunilha. Eu chamo-lhe parva. Esses putos mimados representam um grande sector na nossa sociedade, maioritariamente jovem (o que me choca mais), que se acha demasiado fixe para querer saber de política. Estas são as pessoas que eu diria que merecem este governo; não o digo porque nitidamente elas não sofrem com a estupidez política que assola o país. O que merecem não sei. Quem me conhece, conhece-me eterno admirador da sátira, e o comunismo, como os restantes “-ismos”, sempre proporcionou bons motivos para tal. Mas outra coisa é parvoíce crónica, tacanhez, ignorância, falta de respeito pelas opiniões dos outros, eu sei lá… A verdade é que precisávamos de desfiles todos os dias. Do PCP, BE, PS, PNR, PM, CGTP, UGT, Verdes, Independentes, Indignados, Desalinhados, Punks, Reformados, Vivos e Mortos. Vai acontecer? Acredito que sim, mas repito que deverá demorar. Talvez caia o governo sem que aconteça e reserva-se a oportunidade para o executivo de Seguro. Aceitar que gozem connosco é que não. Nem o Portas e o Passos, nem os putos estúpidos do Chiado.

Sobre manifestações, o poder das imagens, e um fim de tarde à chuva

No impulso talvez ingénuo de quem é novo numa cidade e tem algum tempo livre nas mãos, dediquei o meu fim de tarde a uma caminhada do Chiado a São Bento, com o propósito de percorrer as ruas onde, na passada a Quarta-feira, se deram os incidentes da manifestação que já todos conhecem. Procurava sinais do que aconteceu, sem saber se os havia ou não, pois consta que ontem foi dia de limpezas. Perdido, cansado e à chuva, foi com alguma desilusão que me deparei com o mais previsível dos cenários: a normalidade. À excepção das escadas da Assembleia, que por esta altura apresentam uma constrangedora mas bela aguarela multicolor que não destoaria no contexto de uma intervenção artística contemporânea, a verdade é que alguém que desconheça os incidentes, como os vários turistas que contemplavam curiosos o espectro pintado nos degraus, não notaria ali a carga simbólica que hoje o local acarreta. Mesmo estas cores, e mesmo as grades que cobrem o perímetro frontal do edifício,  não posso eu garantir que sejam coisas de agora, pois além da descoberta destes sinais, fui também à descoberta desta parte da cidade que me é estranha.

Não sou no entanto, nem nenhum português o é neste momento, ignorante à actualidade, e há portanto uma certa carga simbólica e diria até emocional que é impossível dissociar do ambiente que ali se sente. É sem dúvida algo psicológico, um romantismo um pouco saloio, mas é difícil não reparar. É este o único vestígio encontrado. As imagens, talvez de sangue no chão como era relatado, talvez de vidros partidos (existem, mas poucos), talvez de lixo queimado nas esquinas, essas imagens não as encontrei. E ao não as encontrar questionei-me se realmente é necessário. Porque é que temos este impulso voyeurista de procurar o que choca (e o que choca já nem passa de cliché) e será que isso traz algo de novo à nossa percepção dos acontecimentos? Dei por mim a pensar no quão ridículo era esta minha vontade de confirmar com os meus próprios olhos algo que eu sei que aconteceu. E aí talvez resida a razão para a extremização dos discursos que se deram no rescaldo desta complicada situação. Costumamos hoje em dia criticar as imagens publicadas nos media, mas perdermos pouco tempo a perceber o impacto daquilo que nós partilhamos instantaneamente na rede. Se não houver um acesso à totalidade dos pontos de vista da realidade, somos vítimas de um estado de informação mais perigoso do que a manipulação que ocorre nos meios de comunicação tradicionais. A imagem da senhora de 50/60 anos ensanguentada conta-nos uma história, uma história que repudiamos, que classificamos de preocupante, mas não nos conta tudo o que se passou. No entanto, não é difícil encontrar opiniões baseadas num único .jpeg encontrado online, assim como vemos quem se apresse a pôr em causa o pluralismo que está na base da democracia deste país, baseando-se apenas nas imagens de vinte indivíduos que no meio de milhares de manifestantes decidiram atirar pedras à polícia.

Tiago Miranda/Expresso

Mas há algo que eu considero mais preocupante do que um discurso mal fundamentado ou extremista, que é a ausência de todo de um discurso. É ensurdecedor o silêncio que se ouve apenas dois dias depois. E é exemplar da nossa maneira de ser, o facto de quando algo complicado e inesperado acontece  ninguém querer falar do assunto; todos assobiam para o lado e seguem em frente. Porquê? Porque há toda uma agenda política posta em causa pelo que sucedeu. Ninguém é contra nem a favor, e aqueles que têm a responsabilidade de incentivar o debate, escondem-se atrás de uma cortina mais que conhecida, que se fecha sempre que há votos em causa ou seguidores em perigo.  Todos nós temos as nossas opiniões próprias, mas um debate público pede uma assunção à partida de uma pose sem tabus, ideias pré-concebidas e uma certa disposição a dar o braço a torcer para que se possa de facto discutir e tentar perceber o que aconteceu. A acrescer a esta falta de humildade de todas as partes, há uma pequenez típica deste Portugal, que é aquela que nos diz que se a violência é normal na Grécia, na Itália, na Espanha, também o pode ser cá. É a perda de uma identidade que acontece no contexto de um processo de globalização que avança sem travão pelos países da Europa, unidos sob uma bandeira única que introduz noções nefastas em culturas que nunca as tiveram. Se se fez uma revolução sem sangue, porque é que ele há-de existir numa simples manifestação? Tudo isto é resultado de uma situação incrivelmente instável e que levanta uma preocupação: quão perigoso é um governo em fim de linha? A pequenez da nossa classe política atigiu um auge com o actual o governo e os efeitos começam a reflectir-se na sociedade, pouco a pouco, o espectáculo começa. A violência é o primeiro acto. Se não estivermos dispostos a entender colectivamente o que se está a passar, e talvez ir além da política para tentar evitar o pior, corremos o sério risco de entrar num estado de confrontos civis que, acredito, já terá sido mais inimaginável. Como a chuva e os funcionários da CML limparam os restos da confusão do dia 14, é preciso que a memória não se perca, e que haja vontade de falar. Correr com o governo fica para depois.

Fica o desabafo.