Quantos centros tem o mundo? [4/4]

A exposição de ideias que se segue é a terceira parte de uma leitura do discurso de David Foster Wallace aos finalistas de 2005 no Kenyon College, nos Estados Unidos, intitulado A Água É Isto. A partir daí, foi reunido um conjunto de referentes, sobretudo textuais, que se interligam numa narrativa que pretende encontrar propostas de ensino para o design. O texto aqui apresentado foi adaptado de uma versão mais longa, que foi revista e comentada por Sofia Gonçalves, e pretende funcionar como o guião para uma apresentação pública. “Quantos centros tem o mundo?” foi um projecto editorial académico desenvolvido em 2015, em parceria com Laura Araújo e João Rodrigues, e materializou-se numa publicação impressa, acompanhada de um anexo digital — algumas imagens do resultado podem ser vistas aqui.

Ler Parte I: Discurso—Apresentação Pública
Ler Parte II: Assunto — Micro-narrativas
Ler Parte III: Implicações—Existencialismo


Parte IV: Proposta—Ensino

A conferência “Design  at Works”, organizada pelo ICOGRADA em 1978, em Chicago, EUA.
A conferência “Design at Works”, organizada pelo ICOGRADA em 1978,
em Chicago, EUA.

Aproximamo-nos do fim desta exploração, e por isso vamos procurar esboçar a nossa proposta de ensino. Esperamos assim atar o nó que liga o discurso de David Foster Wallace ao design, depois de termos feito um grande desvio crítico que nos vai ajudar agora a encontrar uma possível conclusão.

[Não vamos descrever aqui um manifesto educativo, deixaremos apenas um conjunto de ideias no ar, que cada um poderá interpretar de forma crítica no contexto do que foi anteriormente dito. Vamos, no entanto, ter como ponto de partida precisamente um manifesto.]

Fundada em 1963 por Peter Kneebone, a ICOGRADA apresentou-se ao público com uma conferência em 1964, em Zurique. A ideia era organizar uma rede internacional para designers, onde estes pudessem comunicar e reflectir sobre qualquer questão. Esta organização levou a cabo diversas actividades todos os anos desde o seu aparecimento, abordando uma temática específica e levantando questões relacionadas com as mudanças em curso à volta do globo.

[Em 1978, no congresso “Design that works!”, realizado em Chicago, foram convidados Josef Müller-Brockmann, Milton Glaser e Massimo Vignelli para falarem sobre a dimensão social do design. Os participantes do seminário foram confrontados com a pergunta “Is Graphic Design a Reflection of Society or a Factor in its Evolution?”]

Em 2011 é publicado o Icograda Design Education Manifesto (uma outra versão tinha sido publicada em 2000), no qual se destaca uma preocupação em caracterizar a prática dos designers de comunicação e por outro lado salvaguardar um ensino de qualidade para os futuros designers. As principais preocupações manifestam-se na procura do pensamento crítico, da participação social e do acompanhamento do devir global.

“New opportunities and challenges confront the designer. Changes over the last decade have profoundly a ected communication design.” Design Education Manifesto (2011), ICOGRADA

Este documento sugere boas indicações para o ensino, mas podemos ainda construir sobre ele. Da leitura que fazemos do manifesto, emerge a necessidade de re-enfatizar algo que já antes referimos, o papel do designer como cidadão antes de tudo.

A nossa exploração do texto de David Foster Wallace procura exactamente retirar o design da sua esfera de exclusividade e da sua existência auto-legitimada. Na conclusão que podemos arriscar, existem dois tópicos que merecem destaque: o lugar e os valores.

Quando nos referimos ao lugar, falamos em promover a contextualização no espaço e no tempo do ensino do design. Desta forma pode ser construída uma rede global de designers aptos a partilhar conhecimentos e experiências relativos às micro-narrativas existentes. Activando a comunicação dentro desta comunidade, e abrindo-a à sociedade, o designer individual acede a uma rede que lhe permite compreender, ou pelo menos verificar, a existência de realidades paralelas, o que por um lado lhe dá uma maior humildade perante o mundo como um espaço habitado por pessoas diferentes, e por outro lhe dá as ferramentas para exercer a sua função de forma assumidamente social e, logo, mais consequente.

Fotograma de Optical Poem, de Oskar Fischinger
Fotograma de Optical Poem, de Oskar Fischinger

O diálogo é vital para que este processo possa funcionar. As ferramentas tecnológicas ao nosso dispor, actualmente e no futuro, desempenham também um papel importante, como seria expectável. A internet e o conceito de importação/exportação estão profundamente interligadas com a nossa experiência da multiplicidade de realidades. Lev Manovich, num texto intitulado precisamente de Import/Export, contextualiza este cenário tão profundamente modelado por dois comandos virtuais. No essencial, dois comandos que simplificaram os processos de comunicação globais, uma espécie de Esperanto que funcionou de facto.

[Também Jean-François Lyotard aborda o assunto em A Condição Pós-Moderna, falando de uma cultura input/output, paradigma das sociedades pós-modernas.]

“Although import/export commands appear in most modern media authoring and editing software running under GUI, at first sight they do not seem to be very important for understanding software culture. You are not authoring new media or modifying media objects or accessing information across the globe, as in web browsing. All these commands allow you to do is to move data around between different applications. In other words, they make data created in one application compatible with other applications. And that does not look so glamorous. […] It turns out that the largest part is import/export business (more than 60%). More generally, one commonly evoked characteristic of globalization is greater connectivity—places, systems, countries, organizations etc. becoming connected  in more and more ways. And connectivity can only happen if you have certain level of compatibility: between business codes and procedures, between shipping technologies, between network protocols, and so on.” Import/Export (2006), Lev Manovich

A tecnologia encurta as distâncias mas não anula os lugares, potencia-os. À semelhança de Stuart Hall, acreditamos que estes processos globalizadores não invalidam as identidades locais, apenas as tornam híbridas e imprevisíveis. O lugar no espaço e no tempo, concretizado pelo diálogo. A nossa primeira proposta orienta-se então neste sentido.

A segunda proposta restabelece uma ligação mais próxima ao discurso A Água é Isto, e refere-se à questão dos valores. Em primeiro lugar, tentamos perceber de que forma os valores propostos por David Foster Wallace — compreensão, tolerância, compaixão — podem ser também valores aplicados no design.

Como é que podemos renunciar ao pensamento por defeito para construir um discurso mais adequado através destes apontamentos de uma posição comunitária ideal? A resposta encontra-se em pontos que tocámos anteriormente, sobretudo no que diz respeito à relação com o outro, que quando bem gerida permite que aconteçam diálogos construtivos.

Torna-se essencial desconstruir progressivamente os preconceitos que minam as relações pessoais, culturais, religiosas, etc. A forma como estes valores se tornam valores de design é também muito simples: estes são problemas de todos os seres humanos, questões verdadeiramente universais. Como qualquer outro cidadão, o designer deve recorrer ao seu conhecimento adquirido, à especificidade da sua prática, para os abordar da forma mais adequada. O ensino do design não pode nunca esquecer este facto equalizador e profundamente humanizante.

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Mas quais são então os valores que o ensino do design deve ter como prioritários? Talvez seja demasiado arriscado fazer aqui uma enumeração. Como vimos, os problemas da sociedade contemporânea são incrivelmente complexos, difíceis de identificar e com implicações tão diferentes quantas as realidades que existem. Este texto dá apenas conta de uma ínfima parte dessas realidades.

A grande pergunta que orientou esta pesquisa não pode ser respondida, pelo menos não de forma esclarecedora. Não sabemos quantos centros tem o mundo. O importante é termos consciência desta ignorância. Aprender a pensar é ganhar essa consciência.

Para uma escola aprender a ensinar a pensar, é necessário discutir modelos ou o seu abandono, reinterpretar as noções de professor, aluno ou sala de aula, confrontar expectativas em todos os momentos, não temer o absurdo. Mas acima de tudo, terá de ser sempre uma escola que não deixe de perguntar o que é a água.

Quantos centros tem o mundo? [1/4]

A exposição de ideias que se segue é a primeira parte de uma leitura do discurso de David Foster Wallace aos finalistas de 2005 no Kenyon College, nos Estados Unidos, intitulado A Água É Isto. A partir daí, foi reunido um conjunto de referentes, sobretudo textuais, que se interligam numa narrativa que pretende encontrar propostas de ensino para o design. O texto aqui apresentado foi adaptado de uma versão mais longa, que foi revista e comentada por Sofia Gonçalves, e pretende funcionar como o guião para uma apresentação pública. “Quantos centros tem o mundo?” foi um projecto editorial académico desenvolvido em 2015, em parceria com Laura Araújo e João Rodrigues, e materializou-se numa publicação impressa, acompanhada de um anexo digital — algumas imagens do resultado podem ser vistas aqui.

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Parte I: Discurso—Apresentação Pública

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Estátua de Giordano Bruno no Campo de’ Fiore, em Roma, onde foi queimado vivo.

A 17 de Fevereiro de 1600, Giordano Bruno é queimado vivo perante uma multidão, depois de ser condenado à morte pelo Vaticano. O seu crime foi uma proposta ousada, uma teoria cosmológica que propunha um Universo infinito, o qual não tinha em ponto algum o seu centro.

“Isto é uma exigência normal dos discursos americanos de fim de curso: a utilização de pequenas histórias didáticas, tipo parábolas” A Água É Isto (2005), David Foster Wallace

[A Água é Isto começa com uma pequena história de dois peixes que se cruzam com um peixe mais velho; este pergunta-lhes se a água está boa, o que confunde bastante os jovens peixes. Esta confusão leva-os a perguntar o que é água. Assim, o discurso insere-se numa longa tradição dos seus semelhantes formais. Segundo o autor, isto é até uma exigência.]

Vamos seguir o “conselho” de David Foster Wallace e recorrer a uma parábola histórica. A verdade é que o tempo e a história deram a Giordano Bruno um novo julgamento. Apesar das consecutivas hesitações da Igreja e da ridicularização a que foi sujeito em tempos, ele é hoje um mártir da ciência. O Universo é bem maior do que aqueles que o condenaram à morte alguma vez pensaram.

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Gravura representativa das menemónicas usadas por Giordano Bruno.

[Podíamos retirar já uma resposta à nossa pergunta-título, mas demoremo-nos na procura recorrendo à hipérbole.]

Perguntemos quem se riu de Giordano Bruno.

Não nos interessa realmente responder a esta pergunta. Fazemo-la porque também David Foster Wallace ouviu risos do seu público. Este é um riso diferente, um riso de incompreensão.

Quem se riu, então, de David Foster Wallace?

Fazemos esta pergunta porque começamos a encontrar no riso uma identidade. Este é quase o mesmo riso do público do programa de televisão “I’ve Got a Secret” onde, em 1960, John Cage apresentou a sua peça musical “Water Walk”.

[Não nos daremos ao trabalho de perguntar quem se riu de John Cage.]

São três risos diferentes, que poderíamos classificar de acusador, difamatório ou sádico (no caso de Bruno), de pretensioso (no caso de Wallace) ou de nervoso (no caso de Cage), mas estas categorizações não nos levam muito longe. Podemos em vez disso encontrar o ponto comum destes três risos, que é o confronto de expectativas entre um determinado público e a mensagem que lhe é apresentada. Estes três risos são risos do absurdo.

“And the audience doesn’t quite know how to react, except with nervous laughter. It wasn’t particularly courteous. But, as one scholar has noted, it’s equally remarkable that prime time TV gave ten minutes of uninterrupted airtime to avant-garde music. You take the good with the bad.” John Cage performs “Water Walk” on “I’ve got a secret” (2001), autor não identificado (openculture.com)

[Concentremo-nos nos casos de John Cage e David Foster Wallace, pelo facto de os seus registos nos chegarem fisicamente, por podermos comprovar que alguém, algures, se riu de alguma coisa. É aliás nesta estrutura — alguém, algures, algo — que encontramos o próximo ponto de interesse, sem no entanto esquecermos ainda o som do riso.]

A apresentação pública é um formato de incalculável importância para a nossa civilização. Ao longo dos anos foi submetida a regras que permitem que aquele que se dirige a um público o faça da forma mais adequada ao contexto em questão. Mas se estas normas foram fundamentais para que o formato sobrevivesse, elas também conduziram a uma homogenização dos discursos.

O discurso de David Foster Wallace ironiza e subverte o formato da apresentação para através dela criar significado. Pela parte do público, esta subversão não é imediatamente compreendida, o que pode justificar o riso — ele surge exactamente no momento em que, por norma, deveria surgir. Mas este discurso não seguia a norma.

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O primeiro-ministro inglês David Cameron numa Ted Talk.

A crítica aos modelos de apresentação pública pode procurar perceber e desmantelar ideologias e filosofias de ensino que lhes são inerentes. Um exemplo paradigmático são as TED Talks. Estes discursos inspirados e inspiradores, apresentados na maior parte dos casos por personalidades conhecidas, sugerem respostas a todo o tipo de problemas. Numa primeira análise é difícil encontrar algo de mal com o formato — mesmo quando discordamos, a tendência é de valorização da iniciativa sobre o conteúdo da mensagem. Mas como Simon Sadler aponta, a iniciativa em si exige uma análise mais cuidadosa.

“As is the case with TED—where $7,500 is the starting price for a conference ticket—some of us are in the room as the ideas get spread, and some of us aren’t. Some of us get to ask the speaker questions and retain her as a contact or reference, perhaps for life; others get the video. (Eighteen minutes.) Some of us struggle in remote villages, others in well-equipped offices and universities—then enjoy the trope of participating in the life of the remote village in Africa as part of a global studio or lab.” TEDification versus Edification (2014), Simon Sadler

Partindo do subtítulo do ensaio de Sadler, procuramos uma breve interpretação sobre o problema das TED, de forma a avançar na nossa própria exploração: “The magical thinking and many contradictions of the TED Talks — and the implicit threats to design and education.”

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Whole Earth Catalog (primavera 1969), Stewart Brand

[Concentremo-nos no que podemos retirar desta ameaça do “pensamento mágico” para o design e a educação.]

O pensamento mágico manifesta-se nas Ted Talks através de uma tendência para a generalização positivista, uma tendência que pressupõe que os problemas causados pelo sistema capitalista se resolvem através da ideia genial e do dispositivo engenhoso — o gizmo. Este pensamento exclui a possibilidade da edificação, do processo lento de conhecer um problema a fundo. Tal como a apresentação de 18 minutos que vemos online, a solução-tipo proposta pelos oradores da TED é instantânea.

Faça-se um desvio para voltarmos a ouvir um riso.

[Vamos à boleia de Sam Hyde, comediante que se fez passar por um jornalista prestigiado, de forma a dar uma palestra numa TEDx de uma universidade norte-americana.]

“Sam Hyde’s 2070: Paradigm Shift” é um media stunt que expõe os problemas de legitimação destes eventos. Hyde passa os seus 18 minutos a gozar com o público e com as próprias TED. O seu currículo forjado dá-lhe o “direito” de se dirigir à audiência com um discurso e pose absurdos, que só perto do final lhe valem os risos que seriam expectáveis. Durante grande parte da apresentação, Hyde é levado a sério — com um pouco mais de cuidado, a piada até podia ter passado despercebida.

Este riso tardio dá-nos o exacto oposto da apresentação de David Foster Wallace. O público esperava uma mensagem arrojada, diferente, completamente fora do pensamento por defeito. O confronto de expectativas não acontece de imediato, o absurdo só se revela quando Hyde finalmente ultrapassa todos os limites do racional e expõe a sua construção do ridículo por completo. Aí surge o riso, um que todos nós conhecemos das piadas incompreendidas, que precisam de ser dissecadas para no final percebermos que afinal a piada somos nós.

[Para Sam Hyde, a piada são as TED Talks; a sua apresentação é, a todos os níveis, inconveniente.]

“Hyde went on to deliver a basically spot-on demolition of the TED Talks tropes, first instructing the audience to pat themselves on the back, then waxing lyrical about futurist chestnuts from sea farming to population explosions to 3D printing to the accuracy of “An Inconvenient Truth.” Albert Einstein keeps popping up. “Facebook as your birth certificate!” “3D printers are kids’ toys!” “Soda Stream will do for soda what 3D printing did for assault rifles,” he predicts. This isn’t even subtle. He’s wearing greaves and a breastplate, for pete’s sake.” The most glorious TED Talk takedown you will witness before 2070 (2013), Alexandra Petri

Sam Hyde ilustra acidamente várias questões abordadas em “TEDification versus Edification”. Só uma cultura do “pensamento mágico” pode levar a sério algumas das suas ideias. Isto não serve para dizer que as TED são inúteis ou erradas como iniciativa. Apenas expõe a fragilidade de modelos que não promovem espaços de discussão crítica.

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Ecrã apresentado durante 2070: Paradigm Shift, de Sam Hyde

Como Sadler enuncia, a diferença das experiência do público de auditório para o público de ecrã é abismal. Quem presencia uma TED Talk fisicamente pode questionar o orador, pôr em causa as suas ideias, esclarecer dúvidas. Pelo contrário, quem vê o vídeo raramente vai além da ovação em pé. A mensagem é muito mais dogmática, muito mais definitiva. O perigo para a educação é precisamente este dogmatismo que só pode ser combatido pelos processos demorados (e dispendiosos) da edificação.

O discurso de David Foster Wallace também suporta estas dimensões de leitura: a de quem esteve lá e a de quem leu ou ouviu posteriormente um registo. Mas aqui destaca-se um detalhe constantemente realçado por Wallace: precisamente o facto de o autor não querer pregar qualquer tipo de mensagem ou de apresentar soluções mágicas. Wallace dá apenas sugestões e faz questão de o referir.

Vemos que a forma do discurso, ou o modelo que este segue, pode transfigurar a própria mensagem transmitida. Até aqui nada de novo. O que é importante reter é o papel da crítica subversiva que Wallace faz ao discurso de final de curso como modelo, e perceber que esse jogo de distanciamento face ao mesmo é uma ferramenta essencial para desmontar o pensamento por defeito identificado pelo orador.

Voltemos a usar uma pergunta para avançar…

(continua na 2ª parte)