A esquerda debatida à esquerda

O texto de Clara Ferreira Alves hoje no Expresso sobre o seu anti-comunismo é, apesar de o título não aparentar, um contributo lúcido para a discussão deste acordo à esquerda que está prestes a ser posto em prática. Não é pancada no PCP, mas antes um olhar histórico que deve ser contrabalançado com as condições únicas em que o acordo actualmente acontece. Ao mesmo tempo, mostra como a ausência de uma força intelectual e discursiva na direita capitalista e neoliberal permite que a retórica do PCP continue a ter ressonância. Não concordo necessariamente com a conclusão de que o passado histórico dos comunistas portugueses indique um rumo ao desastre, mas é este tipo de opinião argumentada que faz falta ao debate. E mais, demonstra novamente que o debate real e útil sobre a coligação de esquerda está a ser feito apenas à esquerda, em contraste com a histeria da direita, que lembra os piores momentos dos protesto anti-Dilma no Brasil ou do Tea Party norte-americano.

Porque é que o design é político

 

No famoso debate entre Jan van Toorn e Wim Crouwel que aconteceu na Holanda em 1972 (1), o segundo afirmava que costumava encontrar alunos que se preocupavam mais com as causa sociais associadas aos seus trabalhos do que à missão de tornar uma mensagem clara e compreensível. Quando isto acontecia, Crouwel aconselhava o aluno a abandonar a sua carreira como designer e a dedicar-se à política, podendo dessa forma chegar a posições de maior influência em relação aos tais problemas que, segundo Crouwel, não cabia ao designer resolver.

Esta é uma visão interessante, que não reflecte apenas um entendimento sobre o papel do design, mas também sobre o funcionamento de uma sociedade democrática. Vamos por partes. O debate em causa opunha duas visões diametralmente opostas sobre o que deve ser um designer. Enquanto Crouwel evitava posicionar-se como um obstáculo entre emissor e receptor, van Toorn procurava precisamente fazer essa interferência, não necessariamente para criar significados mas para que o leitor os pudesse criar a partir da forma como a mensagem era transmitida.

Crouwel defendia a especialização, afirmando que um designer não pode ter conhecimentos suficientemente aprofundados sobre todas as matérias que são tratadas nos seus projectos e como tal deve manter-se distante de uma intervenção sobre as mesmas, recorrendo a especialistas no assunto, se necessário. Van Toorn, pelo contrário, defendia precisamente uma condição mais abrangente das competências do designer, não apenas como um técnico que dá forma às ideias do outros mas como um elemento participante da própria mensagem e da cadeia de comunicação. Crouwel é objectivo, van Toorn é subjectivo. O debate tem outras implicações interessantes, como o tipo de clientes que o designer deve procurar (e se os deve procurar de todo) ou qual é o papel dos museus, mas para o efeito, esta síntese serve.

Apesar da negação de Crouwel, parece-me que a posição de qualquer um destes designers é uma posição política. No caso de van Toorn esta é uma constatação óbvia, mas para entendermos a linha de discurso de Crouwel como política é preciso dissecá-la. A ideia de especialização profissional, que se vê materializada nas “recomendações” aos alunos anteriormente referidas, é uma ideia política por si só e refere-se a uma ordem de ideias que deposita grande confiança no funcionamento do sistema social e político.

Pode parecer um discurso anti-democrático, se pensarmos que em parte incentiva um certo tipo de inacção, mas também pode ser lido como um voto de confiança no funcionamento democrático da sociedade. Os designers podem confiar nos políticos, os políticos podem confiar nos designers. Ambos não interferem na actividade dos outros não por desinteresse, mas porque reconhecem neles maior capacidade e competência para resolver os problemas específicos da sua área de conhecimento. Claro que hoje esta é uma ideia ingénua, até utópica. É o mesmo positivismo europeu da música dos Kraftwerk, uma concepção social bastante mais comum nos países da Europa do centro e norte do que nos países de sul, onde não teve muita ressonância (em Portugal, por exemplo, terá tido imediatamente a seguir à adesão à CEE, mas como sabemos durou pouco).

É importante fazer esta distinção para que não se aponte o dedo a Crouwel como um totalitário do funcionalismo gráfico que ignora os problemas que existem para lá do seu trabalho. Fazer isso parece-me injusto, ou no mínimo precipitado. Não me parece que seja tanto um ignorar dos problemas como é uma cedência de responsabilidades ou competências. É uma ideia política porque subentende uma formulação da ordem social. Ao mesmo tempo, a renúncia à participação política é, paradoxalmente, uma opção política. Uma comparação pertinente são as pessoas que se abstêm numa eleição: a sua decisão (mesmo quando é feita por desinteresse) carrega consigo uma mensagem política e como tal é importante para o debate.

Entre as visões de Crouwel e van Toorn, não é possível realmente dizer que uma delas é a correcta. Hoje em dia é, de resto, habitual assumir esta posição de tolerância das diferentes abordagens à prática dos designers, o que, em parte, contribui para que não existam debates acesos e memoráveis como este. Pessoalmente, identifico-me mais com van Toorn, mas não posso afirmar que Crouwel está errado. São visões que, além de pessoais, são bastante bem fundamentadas e que se manifestaram em corpos de trabalho distintos que moldaram o panorama do design gráfico.

Quanto à pergunta do título, não chega apenas referir-me a esta análise do discurso de Crouwel. Esta linha de pensamento é política precisamente devido à sua negação de participação política, mas o que acontece quando o design não nega nem renuncia tal participação? É neste campo intermédio que grande parte da actividade, sobretudo comercial, do design se desenvolve. Crouwel articula um pensamento excepcional quanto à objectividade funcionalista do seu trabalho, mas tal como os abstencionistas que argumentam ideologicamente a sua atitude eleitoral, este caso não reflecte o pensamento da maioria.

O design é político por se referir quase sempre a um acto de comunicação público. O designer, como mediador de mensagens, encontra-se no ponto sensível da cadeia de comunicação onde a forma e o meio são definidos e trabalhados para que determinada ideia seja comunicável. Em muitos casos, é nas mãos do designer que o privado se torna público, acrescendo assim a responsabilidade de o fazer de forma consciente. O poder de intervenção neste processo é tal que se debate, como vimos, se o designer o deve ou não fazer, e não se é capaz de o fazer. É aqui que o trabalho do designer se torna político.

Não me interessa tanto definir que atitude política deve, então, o designer assumir. Considero mais importante que se adquira a consciência de que o design não é politicamente inocente, por assim dizer. A ele associam-se empresas, governos, pessoas, cadeias de produção, ideologias políticas e económicas, e por aí além. Tudo isto acarreta, por sua vez, consequências boas e más em áreas como a governação, a economia ou o ambiente. Tal como Wim Crouwel, o designer pode renunciar criticar ou intervir na mensagem do cliente, mas não pode negar que a está a viabilizar, a legitimá-la por omissão de uma posição relativamente à mesma.

Por esta lógica, deduz-se que tudo o que é público é político, o que me parece razoável. O English Dictionary da Penguin apresenta como primeira definição de political: “relating to government or public affairs.” (relativo a assuntos governamentais ou públicos). Isto vai de encontro à ideia defendida anteriormente de que toda a matéria pública é também matéria política. É importante perceber isto para que a democracia funcione em todos os espaços da nossa sociedade, para que nos interessemos e estejamos informados sobre as decisões que, em maior ou menor escala, orientam as nossas vidas. E aqui sim, oponho-me a Crouwel, não na especificidade do design, mas nessa noção de especialização que conduz a uma sociedade fechada, seguindo o lema de “cada macaco no seu galho”, limitando a participação e opinião política a um número reduzido de indivíduos que define o status quo.

Crouwel está certo ao defender que o designer não pode resolver todos os problemas do mundo, mas isso não significa que não possa contribuir para a procura de uma resposta. Ter uma consciência política é, na verdade, essencial para que os designers percebam o raio de acção da sua plataforma e não cederem à narrativa TED Talk de que o mundo se muda um gadget de cada vez. Como cidadãos, acima de tudo, os designers precisam desta consciência para orientarem a sua participação pública e política. O design não é esta participação, mas é uma parte importante dela.


  1. Baseei o exemplo principal deste texto na leitura do livro The Debate, a primeira transcrição do debate entre Wim Crouwel e Jan van Toorn publicada em inglês. Os temas e ideias do debate que eu aqui refiro de passagem são expostos e bem contextualizados neste livro. O Design Observer publicou quatro excertos do livro a propósito do seu lançamento:
  2. Excerto 1
    Excerto 2
    Excerto 3
    Excerto 4

Republicanos, Hitchens.

Ontem assisti ao debate do Partido Republicano nos EUA. Gosto da política norte-americana, não porque seja o melhor dos sistemas mas sobretudo pela forma como as pessoas se envolvem nas campanhas eleitorais. Estas são muito mais variadas, com um grande número de candidatos que vai sendo filtrado até ao inevitável 1×1 final. Com isto tudo também aparecem as personagens caricatas e os cromos inacreditáveis. O Partido Republicano é especialmente propício a este espectáculo e é errado pensar apenas em Donald Trump. Bastou ver o debate de ontem para perceber que há ali gente com ideias tão ou mais descabidas do que o magnata com o cabelo mais discutido da política internacional. Mas é nos dogmas conservadores (Air Force One de Ronald Reagan estava mesmo atrás dos candidatos), e na forma como todos os candidatos são praticamente obrigados a confluir em certas ideias, que estes debates se tornam tão surreais. Todos são pro-life, todos odeiam Putin de morte e temem pela segurança de Israel, todos têm um plano para a primeira chamada que vão fazer assim que se apanharem na Sala Oval. Se em Portugal a campanha é vazia (Sócrates, pizas, etc…), nos Estados Unidos é simplesmente espantosa a forma vazia como os candidatos discutem assuntos tão sérios como o acordo nuclear com o Irão (uma data deles jura rasgá-lo no primeiro dia de presidência) ou a imigração (os muros voltaram a estar na moda). Deu para rir um bocado, mas rapidamente tive de desenjoar. Fui ver vídeos do Christopher Hitchens a defender a guerra no Iraque para me convencer que nem todos os que defendem posições neo-conservadoras(1) são completos idiotas.

(1) Hitchens até era um “tipo de esquerda”, mas no pós-11 de Setembro defendeu acerrimamente a invasão do Iraque (e o capitalismo, já agora). Os seus debates sobre o Médio Oriente são os meus preferidos, por serem polémicos (chocaram liberais pelo mundo fora) mas extremamente bem argumentados e racionais. Nunca se chegou a perceber bem esta “viragem à direita” de Hitchens, mas até as suas palavras finais antes de morrer foram enigmáticas: “Capitalism…Downfall.”