Design, Estado e boa vontade

Numa entrevista de 2004 para o livro “Design Gráfico em Portugal” de Margarida Fragoso, editado em 2012, Henrique Cayatte fala da sua complicada relação com o Estado como cliente. Diz assim:

“Enorme dificuldade no trabalho com o Estado: o Estado paga mal e paga fora de tempo e, precisamente por causa desses meus princípios de cidadania, que é uma palavra de que eu gosto, não quero deixar de trabalhar com o Estado. Mas, o Estado desafia-nos diariamente porque demora um ano e meio, dois anos, três anos a pagar e para o inverso é cego a exigir.”

Penso que este desafio diário a que Cayatte se refere é precisamente aquilo que aliena o Estado do design como actividade de importância primária no desenvolvimento do país, quer a nível social como cultural. Não apenas no que diz respeito aos pagamentos, mas também no próprio reconhecimento do designer como participante activo na sociedade. Especialmente para os jovens, vai-se esgotando a boa vontade, os “princípios de cidadania” já não chegam para ofuscar aquilo que é um tratamento muito precário do design, e de toda a cultura em geral. Ao não haver uma vontade recíproca de criar um ambiente de colaboração e valorização do trabalho, o passo seguinte para quem se move por uma vontade ideológica de criar valor público através do design é naturalmente a desistência. É precisamente a isso que me refiro no artigo que escrevi há uns tempos atrás para o IP4 sobre O Design e a Autarquia. O Estado demite-se da sua função de incentivo à produção, usando o argumento do empreendedorismo para atribuir aos designers a culpa da falta de trabalho e iniciativa. Quando se fala em design, dá a impressão que o Estado preferia não existir, sempre é menos um problema a ocupar a cabeça de quem dorme a pensar nos credores.

Os glitches da globalização

No documentário dos Buraka Som Sistema “Off the Beaten Track”, a dupla de DJ’s venezuelanos Pocz & Pacheko explica como a palavra “wapero”, usada para identificar um amante da música electrónica americana e europeia, advém de um mal entendido com a letra do hit dos Technotronic “Pump Up the Jam”. Pump up the jam, pump it up [wapero]… Também no Brasil existe o mito urbano de que a palavra “forró” foi uma adaptação acidental do termo “for all”, a “party for all” dos soldados americanos. Na verdade, a palavra tem outra origem, mais exactamente a palavra “forrobodó”, uma génese um pouco decepcionante em comparação com o mito urbano — assim o são todas as verdades. Mas voltando ao wapero, e porque devaneios semânticos entre diferentes idiomas não são coisa particularmente rara, comecei a olhar para este fenómeno como uma espécie de glitch na globalização, uma minúscula falha na parede-mestra que sustenta a cultura global.

O interessante do wapero é o movimento cultural eclético que está por trás dele ou semelhantes que ele simboliza. Não apenas na Venezuela, mas por toda a América do Sul, surgem movimentos entre a cultura e a contra-cultura que desafiam o velho conceito de globalização sem, no entanto, a rejeitarem. Na Argentina, por exemplo, a ZZK lidera a “revolução” da Cumbia digital. Foi sob a alçada desta editora liderada por El-G, que teve honras de encerramento do último Milhões de Festa, que os Chancha Via Circuito desenterram José Larralde num remix da música “Quimey Neuquen”, tornada num mini-fenómeno depois de servir de banda sonora a um dos episódios finais de Breaking Bad. Esta faixa é paradigmática da forma como muitos jovens sul-americanos encontram alternativas à hegemonia cultural do Ocidente sem rejeitar dogmaticamente o melhor desta mesma cultura. É através de uma mistura de influências, do passado local e do presente forasteiro que se definem atitudes e posições culturais e sociais livres e progressivas, entusiasmantes perante dois extremos: a rejeição dogmática do mainstream e a aceitação cega dos valores ocidentais. Pela sua natureza multicultural, não será surpresa que Portugal tenha sido casa de artistas que encaram a globalização desta forma crítica e construtiva, que vai mais além da colagem e do pastiche pós-moderno que se limita a referenciar. Longe disso, músicos como os Buraka Som Sistema ou a sua editora Enchufada mostraram que esta é uma atitude de apropriação, de tornar do artista tudo aquilo em que ele possa pôr as mãos. É também, no fundo à semelhança das confusões semânticas referidas no início do texto, uma forma de mal-entendido. O artista não faz as coisas como é “suposto”. Cumbia e techno não se deviam juntar, no entanto as melhores discotecas europeias hoje dançam ao som desta mistura improvável. A rebeldia das periferias, o processo de gestação artística under the radar toma de assalto públicos mais alargados, dá lições de como a maneira errada de fazer as coisas muitas vezes é a mais interessante.

Não consigo deixar de pensar num mentor fictício da globalização, um Big Cat estereotipado, calças à Uncle Sam, confrontado com pequenos erros no processo de hegemonização de culturas diferentes à ocidental/comercial. Nesse sistema acelerado pela tecnologia e pela Era da Informação, encontra pequenas falhas, entraves quase insignificantes, glitches que com o tempo tornam disfuncional todo o processo. Não era suposto, mas as falhas acontecem e sucedem-se. Pior que isso (para o Big Cat, pelo menos) o próprio Ocidente começa a olhar para estes fenómenos que vão deixando ter o estigma paternalista de desvios étnicos para se assumirem como alternativas viáveis para melhorar um sistema capitalista tão descredibilizado quanto instituído. O próprio sistema capitalista procura replicar o glitch das comunidades exteriores como forma de apelar aos “estados-membros” do seu domínio. É, no fundo, um glitch simulado a McBifana vendida em Portugal ou o “kitsch pitoresco” vendido aos turistas de todo o mundo. Esta simulação, este plágio, homenageia e reconhece a importância dos movimentos de rejeição/inclusão dos processos culturalmente globalizantes. Estes, por sua vez, mostram-nos como é possível andar para trás num calendário em que os dias podem parecer cada vez mais Orwelianos.

Antes sushi que arte

Desde ontem (senão antes) que decorre no Facebook um “jogo” em que uma pessoa partilha uma obra de arte e atribui aos amigos que gostam da imagem um outro artista, do qual devem escolher uma obra para depois partilhar e repetir o ciclo e assim acabar com as fotos de refeições no Facebook. Não me apetece divagar muito sobre o porquê de isto ser uma ideia parva (sobretudo porque também tem o seu quê de inofensiva), mas o princípio de superioridade que estas mensagens enunciam é no mínimo irritante. Como rede social, ou meio de expressão pessoal perante um universo seleccionado de utilizadores, no Facebook tem tanto valor uma foto de sushi como o Guernica, está na sua génese a partilha de informações generalizada e de critério largo — trivialidades e assuntos substanciais convivem lado a lado. Aliás, a maior parte dos utilizadores já viu o Guernica centenas de vezes na sua vida (nas suas várias representações possíveis) mas não a refeição do amigo ou o seu novo animal de estimação. Depois, pensar que de certa forma se educa para a arte assim de forma instantânea, ao mesmo tempo ganhando karma positivo porque se está a ser “cultural”, é exactamente o tipo de exercício masturbatório que faz com que não se pense a sério na arte e na cultura, e se continue a encarar os problemas como uma partida de golfe — aborrecida e elitista.