Os glitches da globalização

No documentário dos Buraka Som Sistema “Off the Beaten Track”, a dupla de DJ’s venezuelanos Pocz & Pacheko explica como a palavra “wapero”, usada para identificar um amante da música electrónica americana e europeia, advém de um mal entendido com a letra do hit dos Technotronic “Pump Up the Jam”. Pump up the jam, pump it up [wapero]… Também no Brasil existe o mito urbano de que a palavra “forró” foi uma adaptação acidental do termo “for all”, a “party for all” dos soldados americanos. Na verdade, a palavra tem outra origem, mais exactamente a palavra “forrobodó”, uma génese um pouco decepcionante em comparação com o mito urbano — assim o são todas as verdades. Mas voltando ao wapero, e porque devaneios semânticos entre diferentes idiomas não são coisa particularmente rara, comecei a olhar para este fenómeno como uma espécie de glitch na globalização, uma minúscula falha na parede-mestra que sustenta a cultura global.

O interessante do wapero é o movimento cultural eclético que está por trás dele ou semelhantes que ele simboliza. Não apenas na Venezuela, mas por toda a América do Sul, surgem movimentos entre a cultura e a contra-cultura que desafiam o velho conceito de globalização sem, no entanto, a rejeitarem. Na Argentina, por exemplo, a ZZK lidera a “revolução” da Cumbia digital. Foi sob a alçada desta editora liderada por El-G, que teve honras de encerramento do último Milhões de Festa, que os Chancha Via Circuito desenterram José Larralde num remix da música “Quimey Neuquen”, tornada num mini-fenómeno depois de servir de banda sonora a um dos episódios finais de Breaking Bad. Esta faixa é paradigmática da forma como muitos jovens sul-americanos encontram alternativas à hegemonia cultural do Ocidente sem rejeitar dogmaticamente o melhor desta mesma cultura. É através de uma mistura de influências, do passado local e do presente forasteiro que se definem atitudes e posições culturais e sociais livres e progressivas, entusiasmantes perante dois extremos: a rejeição dogmática do mainstream e a aceitação cega dos valores ocidentais. Pela sua natureza multicultural, não será surpresa que Portugal tenha sido casa de artistas que encaram a globalização desta forma crítica e construtiva, que vai mais além da colagem e do pastiche pós-moderno que se limita a referenciar. Longe disso, músicos como os Buraka Som Sistema ou a sua editora Enchufada mostraram que esta é uma atitude de apropriação, de tornar do artista tudo aquilo em que ele possa pôr as mãos. É também, no fundo à semelhança das confusões semânticas referidas no início do texto, uma forma de mal-entendido. O artista não faz as coisas como é “suposto”. Cumbia e techno não se deviam juntar, no entanto as melhores discotecas europeias hoje dançam ao som desta mistura improvável. A rebeldia das periferias, o processo de gestação artística under the radar toma de assalto públicos mais alargados, dá lições de como a maneira errada de fazer as coisas muitas vezes é a mais interessante.

Não consigo deixar de pensar num mentor fictício da globalização, um Big Cat estereotipado, calças à Uncle Sam, confrontado com pequenos erros no processo de hegemonização de culturas diferentes à ocidental/comercial. Nesse sistema acelerado pela tecnologia e pela Era da Informação, encontra pequenas falhas, entraves quase insignificantes, glitches que com o tempo tornam disfuncional todo o processo. Não era suposto, mas as falhas acontecem e sucedem-se. Pior que isso (para o Big Cat, pelo menos) o próprio Ocidente começa a olhar para estes fenómenos que vão deixando ter o estigma paternalista de desvios étnicos para se assumirem como alternativas viáveis para melhorar um sistema capitalista tão descredibilizado quanto instituído. O próprio sistema capitalista procura replicar o glitch das comunidades exteriores como forma de apelar aos “estados-membros” do seu domínio. É, no fundo, um glitch simulado a McBifana vendida em Portugal ou o “kitsch pitoresco” vendido aos turistas de todo o mundo. Esta simulação, este plágio, homenageia e reconhece a importância dos movimentos de rejeição/inclusão dos processos culturalmente globalizantes. Estes, por sua vez, mostram-nos como é possível andar para trás num calendário em que os dias podem parecer cada vez mais Orwelianos.