A geração depois do fim

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Frame de Starship Troopers, Paul Verhoeven (1997).

“I’ve seen the future, brother: It is murder.”
The Future, Leonard Cohen (1992)

Há uma cena particularmente inquietante no filme Starship Troopers (1997) de Paul Verhoeven, na qual o protagonista Johnny Rico informa os pais de que se acabara de alistar no exército. A decisão, que quase certamente significava a sua morte, é simplesmente incompreensível para eles. Os jovens desta Buena Aires distópica são educados com um fervor nacionalista que glorifica a guerra e a expansão imperialista — uma motivação mais forte que o medo. Os pais que os tentam desencaminhar deste destino são retratados como traidores. Claro que Starship Troopers é uma sátira embrulhada nos maiores clichês estilísticos e ideológicos de Hollywood, algo que foi maioritariamente incompreendido aquando da sua estreia. Verhoeven pergunta como seria um filme de ficção científica produzido por uma sociedade fascista e apresenta em bruto um produto incrivelmente semelhante às grandes produções norte-americanas do pós-11 de Setembro. Tudo no filme é demasiado óbvio: há planos directamente copiados da obra de Leni Riefenstahl e a certa altura o actor Neil Patrick Harris aparece vestido com uma farda das SS alemãs. [1] As críticas, no entanto, debruçavam-se sobre o valor de produção, a qualidade do guião ou o talento dos actores (eles próprios desconhecedores das intenções do realizador). A enorme suástica metafórica carimbada em cada frame passou, e para muita gente continua a passar, totalmente despercebida.

A naturalidade banal com que o fascismo é encarado neste filme é o que o torna tão insuspeito. A crença cega de Johnny Rico no dever da guerra soa tão inacreditável aos seus pais como a carta que Magda Goebbels enviou ao seu filho Harald Quandt antes de se suicidar, explicando que não valia a pena viver num mundo sem o Führer ou o nacional-socialismo. [2] É o mal absurdo e real de Trump nos Estados Unidos ou do nome Hugo Boss, um dos principais produtores das fardas das SS [3], estampado no frasco de perfume que uso diariamente. A obra de Verhoeven, marcada também por Robocop (1987) ou Showgirls (1995), é das mais prescientes das últimas décadas. Starship Troopers apresenta uma profunda compreensão da infindável estupidez do fascismo total e de como ela se torna num apelo poderoso aos piores instintos do ser humano. Quando essa estupidez coincide com governos e movimentos autoritários emergentes, políticas discriminatórias e repressivas, catástrofes climatéricas implacáveis, guerras infindáveis ou o brutal desequilíbrio na distribuição da riqueza — fenómenos que pouco incomodam o resto do mundo que deles se pode alhear — temos então motivos para alerta.

Outrora, o futuro da democracia e da liberdade residiu numa memória histórica que foi sendo gradualmente descuidada, revisitada com má vontade e em última análise esquecida. Mais recentemente, o sector tecnológico começou a olhar para si como um último reduto de esperança na sobrevivência do ser humano livre. Em Silicon Valley, nos EUA, o projecto capitalista investiu de novo na ideia da sua auto-regulação, apresentando-se agora como agente subversivo de um sistema que pretende salvaguardar. É uma enorme pescadinha de rabo na boca, um conceito incoerente dissecado perante o grande público numa série de escândalos recentes. Google, Facebook e Twitter são questionados pelo seu tratamento de dados privados e ingerências anti-democráticas, Elon Musk perde gradualmente a cabeça em tempo real na internet e o co-fundador da Web Summit, Paddy Cosgrave, dá duas voltas à espinha entre convites e desconvites a Marine Le Pen. Comum a todos: o conforto no convívio com, e apoio a, movimentos repressivos de extrema-direita. O sonho liberal de um resgate tecnológico à moda de um blockbuster sci-fi vai derretendo como um gelado ao Sol quando confrontado com o poder do populismo etno-nacionalista. Marte não está assim tão perto e o corpo de Peter Thiel congelado à espera da imortalidade não nos traz grande conforto. [4] Mas claro que nada disto faz sentido desde o início: Silicon Valley é indissociável do poder, representa as suas faces mais obscuras, e só o grande desespero do abismo poderia levar-nos a pensar que pôr o futuro nas suas mãos era uma boa ideia.

O progresso tecnológico, bandeira máxima da razão contemporânea, só poderia desvendar o seu programa depois de conquistar pacificamente a geração que a pode sustentar. Não é raro ver os telejornais apresentar uma peça jornalística sobre a relação dos millenials com a tecnologia. Fala-se dos perigos, das possibilidades, dos novos talentos e das promessas de futuro… Mas o progresso é tão veloz que estas peças são sempre tentativas falhadas, evidências claras da total falta de compreensão que divide gerações. Além disso, reservam uma crítica tecnológica para efeitos menores de um aparelho ideológico que age numa escala bem mais alargada. A cultura online é hoje absolutamente massiva e move-se a um ritmo imparável. É impossível compreendê-la sem fazer parte dela, até para pessoas jovens e activas na rede como eu. Por isso acredito que não há maneira de imaginarmos sequer como o futuro imediato se vai desenrolar. Não sabemos tirar o pulso a quem somos. Herdámos o fim da História quando já a pata estava enfiada na poça de ataraxia neo-liberal de Tatcher e Reagan — uma era que foi tudo menos um ponto final. A vitória do capitalismo com a queda da União Soviética foi pírrica e simbolizou apenas o fim de uma narrativa que serviu de pouco perante os problemas graves que o globo enfrentaria nos anos seguintes, deixando para os vindouros a responsabilidade de segurar o castelo de cartas.

Ainda assim, enquanto geração, a nossa defesa acaba no diagnóstico. Para toda a genuína revolta e vontade de mudar, para todas as tentativas de propor modelos mais justos, parece haver uma cruel corrente contrária igualmente potente. E é claro que nós, geração, também não percebemos ainda a real dimensão do que se está a passar. Isso terá de mudar em breve, pois tudo se precipita rapidamente. Os alarmes não soam porque o fascismo não voltou sob a forma de 1984 nem de Admirável Mundo Novo, mas sim servida como a estupidez mergulhada em gorduras saturadas de Starship Troopers. Não se propagou pela imprensa do Estado ou por velhos académicos, mas penetrou no incontrolável solo fértil da cultura de massas. Não há razão nenhuma para acreditar que as injustiças do passado não serão perpetuadas por nós — nada nos distingue como melhores. Os filhos que herdaram o imenso poder e riqueza dos seus pais estão hoje em posições privilegiadas para silenciar os restantes e são os primeiros a contestar qualquer definição do Mal que os identifique como o inimigo.

Dizem-nos que não podemos gastar as palavras, que lhes sugamos o significado e anulamos o seu poder. Há quem não goste que se diga “fascismo” e reserve o adjectivo para parcelas hermeticamente seladas da História, reduzidas a erros pontuais para que ninguém se atreva a pensar que são a norma. Ainda assim, mesmo que nos queiramos cingir a uma definição convencional de fascismo enquanto violência colonial aplicada domesticamente através da perseguição de bodes expiatórios, vemos que tal acontece abertamente perante os nossos olhos. Como os nazis perseguiram os judeus, o governo norte-americano persegue os migrantes da América Central e do Sul, vários líderes europeus assumem querer esvaziar o continente de qualquer presença muçulmana e nas Filipinas Rodrigo Duterte compara-se a Hitler enquanto ordena o assassinato de centenas de traficantes e utilizadores de droga. Aconteceu tudo como antes: ambições imperialistas, guerras inúteis e uma recusa geral em aceitar que o sistema capitalista não permite a libertação deste ciclo. O status quo esteve sempre mais confortável a apoiar reacções de extrema-direita do que a dissolver o sistema económico que gera toda esta violência — foi assim que o fascismo desmontou, no século XX, toda a força do movimento proletário descontente com as circunstâncias económicas do pós-guerra. É assim que o está a fazer agora: com dinheiro, poder e repressão — e uma resposta fácil a problemas complexos.

O convite original que me fizeram para este texto pedia que escrevesse acerca do que mudou nos 3 anos desde a última vez que o fiz, para a exposição de finalistas Agora, irrepetível. [5] Fi-lo outras vezes entretanto e revejo-me em muito pouco do que escrevi. Quando se escreve sobre a geração é fácil acabar a dar conselhos que ninguém pediu ou a lamentar as nossas próprias inseguranças. Por isso não correspondi a esse pedido — porque sinto que não tenho assim tanto a dizer, porque não me considero sequer de uma geração diferente dos finalistas deste ano e porque me parece que os discursos da geração são um escape reaccionário a discussões concretas sobre política e poder. Mas há algo a apontar. As circunstâncias do nosso universo próximo podem ter melhorado em alguns aspectos e piorado noutros, com uma sensação tendencialmente positiva. Mas não é possível estar tranquilo quando vemos que à nossa volta tudo está a ruir e o autoritarismo violento ressurgiu em locais e de maneiras impensáveis. É preciso ser muito ingénuo para achar que o nosso país nunca cometeria o mesmo erro. A última vez que o cometeu não foi assim há tanto tempo. Derrotar o fascismo do século XXI, em todas as suas formas. É esta a maior urgência da minha geração, que no fundo é toda a gente que está viva ao mesmo tempo que eu. Toda a ansiedade geracional — ou se lhe preferirem assim chamar, esta crise de identidade — acontece porque percebemos no fundo que os desafios que se adivinham são excepcionais. Acredito, no entanto, no poder desta crise. Talvez ela carregue a inquietação necessária para uma verdadeira ruptura. É essencial que sirva para deixar de procurar o valor de uma geração na comparação com as anteriores, pois isso serve apenas aqueles que querem pouco que as coisas mudem. Não estamos confinados à escolha binária de ser o filho que parte para a morte ou o pai que esconde a culpa atrás da repulsa — temos a responsabilidade de abandonar velhos dogmas para evitar horrores do passado. O futuro não é garantido, mas podemos conquistá-lo.


[1] How we made Starship Troopers em The Guardian. Paul Verhoeven, 22-01-2018. [disponível em: https://www.theguardian.com/culture/2018/jan/22/how-we-made-starship-troopers-paul-verhoeven-nazis-leni-riefenstahl]
[2] Letter from Magda Goebbels to Harald Quandt. Magda Goebbels, 1945. [disponível em: http://www.worldfuturefund.org/Reports/lastletter.htm]
[3] Fashion at War: Crafting the Nazi Brand. Alexa Karolinski e John Walter, 2017. [disponível em: https://m2m.tv/watch/fashion-at-war-crafting-the-nazi-brand/films]
[4] The Men Who Want to Live Forever em The New York Times. Dara Horn, 25-01-2018. [disponível em: https://www.nytimes.com/2018/01/25/opinion/sunday/silicon-valley-immortality.html]
[5] Quanto tempo passou desde agora? em “Agora, irrepetível. A juventude, o design e a sua prática”. Edição FBAUL/Sofia Gonçalves, 2015. [disponível em: https://biomorphism.wordpress.com/2018/03/24/quanto-tempo-passou-desde-agora/]

Este texto foi redigido para o jornal da exposição Crise de Identidade, organizada pelos finalistas de Design de Comunicação da FBAUL em 2018.

“Demasiado encarnado”

A primeira reacção da rua aos eventos sobejamente conhecidos dos últimos dias era para ser uma festa que à última da hora se tornou em manifestação. Cerca de duas centenas de independentes reuniram-se no Marquês exigindo a demissão do governo. Apesar do reduzido número de pessoas, é importante perceber que não é habitual haver uma mobilização assim tão rápida dos portugueses face aos eventos políticos, ainda para mais quando nada de definitivo tinha acontecido. Um sinal positivo. Eu não estive lá, e por isso decidi hoje espreitar a segunda reacção, convocada pelo PCP. Um desfile de militantes e alguns simpatizantes (vi pelo menos uma grande faixa do Movimento 15 de Outubro) caminhou em protesto desde o Chiado até ao Rossio, onde Jerónimo de Sousa discursou. A terceira movimentação está marcada para Sábado, pela CGTP, e tomará a forma de um protesto em Belém.

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Quem chegasse ao Chiado por volta das 18h ficaria certamente surpreendido com a mobilização conseguida pelo PCP. Não sou afecto ao PCP, nem a qualquer outro partido, mas senti a necessidade de perceber um pouco qual era o sentimento das pessoas neste momento peculiar. Por isso mesmo, não posso dizer que tenha feito parte do protesto, não apelei ao voto comunista nem levei a bandeira vermelha na mão, mas partilhei a revolta daqueles militantes, que por acaso, e apesar de muitos críticos se esquecerem disso, também são pessoas e cidadãos portugueses. E não são os robôs que gostam de os pintar. Fiquei surpreendido, volto a dizê-lo, porque menos de 24h e uma divulgação mínima do acontecimento bastaram para juntar várias centenas de manifestantes indignados. Terá sido um prenúncio de uma revolta social que está prestes a rebentar e que vai transformar Lisboa num palco de luta social que, esperamos, levará mais cedo ou mais tarde à queda do governo. Provavelmente mais tarde, mas isso somos nós, portugueses.

À porta dos Armazéns do Chiado, um quarteto trés chic de jovens modernos, vulgo cool, vulgo hipster, indignava-se não com a crise política mas com a confusão gerada pela manif. “Logo vi que era demasiado encarnado para ser uma revolução normal” — disse, seguindo de risos, uma das brilhantes mentes iluminadas ao meu lado. Os comunistas que desfilavam chamar-lhe-iam burguesa, mas isso sou eu que acabei na Santini a comer um gelado de chocolate e baunilha. Eu chamo-lhe parva. Esses putos mimados representam um grande sector na nossa sociedade, maioritariamente jovem (o que me choca mais), que se acha demasiado fixe para querer saber de política. Estas são as pessoas que eu diria que merecem este governo; não o digo porque nitidamente elas não sofrem com a estupidez política que assola o país. O que merecem não sei. Quem me conhece, conhece-me eterno admirador da sátira, e o comunismo, como os restantes “-ismos”, sempre proporcionou bons motivos para tal. Mas outra coisa é parvoíce crónica, tacanhez, ignorância, falta de respeito pelas opiniões dos outros, eu sei lá… A verdade é que precisávamos de desfiles todos os dias. Do PCP, BE, PS, PNR, PM, CGTP, UGT, Verdes, Independentes, Indignados, Desalinhados, Punks, Reformados, Vivos e Mortos. Vai acontecer? Acredito que sim, mas repito que deverá demorar. Talvez caia o governo sem que aconteça e reserva-se a oportunidade para o executivo de Seguro. Aceitar que gozem connosco é que não. Nem o Portas e o Passos, nem os putos estúpidos do Chiado.

Passos Coelho é que é o Presidente da Junta!

Comparar Portugal e o Egipto será exagerado, não o quero fazer. Apesar dos muitos pontos de semelhança metafóricos que podem ser encontrados, vou-me limitar a um: o facto de, no mesmo dia, Passos Coelho e Morsi assumirem a sua cegueira egocêntrica e afirmarem “eu não saio.” Um pressionado pelo exército, o outro pressionado pela opinião pública, ambos pressionados pela realidade.

Por aqui, o rei vai nu. Existe uma explicação para o tom semi-celebrativo que foi assumido nas televisões ao longo do dia: tudo apontava, aliás, exigia, uma demissão. Se estes dois anos de políticas desastrosas de agressão ao direito de felicidade dos portugueses não tinham chegado, então a queda das duas personalidades mais importante do governo da coligação deveria chegar. Excepto para o Primeiro-Ministro. Alguns dirão que é em prol da estabilidade, que o que vem depois das eleições será pior. Mas quando confrontados com a actualidade deste governo, temos mais razões para acreditar no futuro duvidoso do que no presente certo. A resignação é que não. Passos Coelho dá as últimas, mostrando-se o louco que sempre indiciou ser. Cavaco SIlva, na sua senilidade penosa, põe-se de lado da situação, esperando que a história o absolva. Mas não o absolverá, nem a Gaspar, nem a Portas, nem a Relvas. Os barcos que afundam são, geralmente, mais infames que os que ficam à tona.

Mas tanto para Passos como para Morsi, nada disto interessa, a ficção é melhor que a realidade. Mandar é sempre fixe. E apropriando-me da referência feita na TVI, “viva o presidente da junta!”