Esta cidade não é para novos

Nos últimos meses andei à procura de casa para arrendar em Lisboa. Não foi a primeira vez — nem a segunda nem a terceira — mas qualquer outra pessoa que já o tenha feito percebe certamente o drama que é. O mercado do arrendamento imobiliário em Lisboa é uma selva. Casas aparecem de manhã, desaparecem à tarde. Senhorios pedem rendas abusivas por apartamentos a cair de podre. Pelo meio, com um bocadinho de sorte, ainda se arranja maneira de ser burlado. A procura de apartamentos para arrendar cresceu, já não há tanta gente a querer comprar casa, mas os processos não se agilizaram — bem pelo contrário. Ser jovem e viver em Lisboa não é uma boa combinação.

Há dois meses integrei uma equipa de trabalho das Belas-Artes que trabalha num projecto da Câmara Municipal de Lisboa sobre o comércio da cidade. Aí tenho vindo a perceber a forma completamente injusta e despudorada como o devir do mercado e a marcha do progresso movido a tuk-tuk tem levado tantas lojas históricas da cidade a encerrar portas. Não se perde só património, isso é o mínimo. Perde-se actividade, perdem-se relações sociais, vida urbana — perde-se gente.

Há aqui um paralelismo directo com o desajuste dos preços das rendas para habitação. É que esta cidade é cada vez menos uma cidade para se viver. Lisboa visita-se. Não interessa que os jovens não consigam pagar as rendas — fazem-se concursos nos Fablabs, empreende-se um bocado e chamam-se os Erasmus. O discurso público anda bem longe da realidade e toda esta imagem positiva de progresso e inovação é praticamente um insulto. O pior, parece-me, é que não há uma culpa centralizada. De certa forma, toda a gente apanhou a onda e agora vamos ver no que isto dá. Há uns meses atrás fiz a escolha de assentar aqui, de não emigrar ou estudar ‘lá fora’. Muitos não estão para isso ou simplesmente não podem esperar mais. Ficar é cada vez mais a segunda escolha.

 

Lisboa de 3 em 3 anos

A Angelina dizia que estava farta de ouvir falar na Trienal. Não o dizia com desprezo, porque aliás, a Angelina acaba por fazer parte dela (via exposição “O Efeito Instituto”, no MUDE). Como só vim estudar para Lisboa no ano passado, esta é a minha primeira Trienal de Arquitectura, a terceira a acontecer desde a primeira edição em 2007. E, de facto, há círculos em que o tema Trienal é inevitável; as Belas-Artes são um desses círculos. Ontem, numa palestra com a designer de comunicação Raquel Pinto, que integrou a equipa criadora da imagem gráfica do evento, tomei pela primeira vez contacto com o carácter questionador e experimental de uma Trienal que acontece em aberto.

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Tenho ao meu lado o guia de eventos que na capa contém um dos muitos statements que marcam a identidade da Trienal. “OS LUGARES ESTÃO PARA AS PESSOAS E VICE-VERSA”. Estas palavras de ordem surgem como respostas dadas pelo público a perguntas colocadas no site da Trienal, e que posteriormente funcionam como matéria prima de todo o material gráfico, marca identitária (quase) única, ao invés de um logótipo ou slogan fixo (à excepção do título “Close, Closer”). Este carácter democratizado da procura de possíveis respostas às questões da cidade dá à Trienal uma aura de potencial agente modificador da cidade. A sua presença invasiva, quer física quer imaterial, através da partilha de ideias e conversas, é que nos faz ficar fartos de ouvir falar em Trienal, tal como a Angelina. Mas para lá desta exaustão está a esperança de que este acontecimento exerça um efeito real sobre a cidade, sobretudo sobre as pessoas que a habitam, e que surjam soluções deste tipo de iniciativas, visto que o mesmo já não pode ser, infelizmente, esperado das esferas do poder. Há ainda três meses de Close, Closer pela frente, muitos mais meses de discussão póstuma. No texto “Muitas e Desvairadas Gentes”, de Álvaro Domingues, é alinhavada uma Lisboa com problemas de identidade, com deficiências na sua própria existência como cidade. Talvez o trabalho apresentado na FBAUL pela Raquel Pinto seja uma uma solução. A abertura da cidade e da sua discussão aos seus habitantes, que são muito mais do que aqueles que nela dormem, pode ser um caminho. Pode, provavelmente. Talvez não seja. Se há pouco falava de possíveis respostas em vez de respostas apenas, é porque a própria premissa da Trienal não é encontrar respostas mas sim colocar questões. No entanto, e voltando à democracia, quando se colocam questões a públicos tão abrangentes, é natural que alguém diga alguma coisa com sentido. Aí é só ouvir.

Guilherme Sousa

Design vernacular

Hoje vagueava pelo arquivo do Design Observer onde me deparei com um excelente artigo da autoria de Jessica Helfand intitulado “Civilian Typography: The Power and The Fury“. Neste texto de 2006 a autora explora o poder das mensagens escritas por ‘não-designers’, sobretudo a força do apelo, o grito de desespero: “When all else fails, the pen isn’t just mightier than the sword: it is the sword.” O ponto de partida é dado pelo furacão Katrina e as várias mensagens escritas nos frigoríficos abandonados na cidade, retratados no livro do fotógrafo Tom Varisco, Spoiled. No entanto, mais adiante no artigo, é contada a história do flyer de um embalsamador e a sua metamorfose súbita de um papel branco com a mensagem escrita a caneta sob a guarda de um logótipo fotocopiado, para um papel cor-de-rosa com o texto composto a computador. Isto captou-me a atenção. Sem que o flyer original fosse uma obra-prima, era sem dúvida uma impressão digital daquele pequeno negócio. O espírito desenrascado e D.I.Y não é apenas uma curiosidade estética mas uma narrativa estabelecida entre o objecto e o serviço que ele vende. Quando a folha é formatada, tornando-se igual a tantas outras, ela perde toda esta ligação. A pessoa que faz esta composição, fá-la de maneira igual àquelas que vão aparecer ao seu lado. A caligrafia, boa ou má (se se pode fazer a distinção), é tão pessoal que criará sempre objectos únicos; esses jeitos que qualquer pessoa tem ao escrever perdem-se quando se muda para um meio computarizado se não houver habilidade técnica para o dominar, como é o caso. O espírito é o mesmo, passar a mensagem da forma mais rápida e barato, vender o produto. Todas estas questões são indiferentes a quem imprimiu as folhas, e provavelmente serão também ao público-alvo. Mas pelo caminho perde-se um pedacinho de autenticidade de um sítio e de um tempo. Isto lembrou-me de uma loja que vi no Porto na semana passada, quando me desloquei lá a propósito do ENED. Falo do Sapateiro Fácil, um estabelecimento situado perto da Faculdade de Belas-Artes. Deixo aqui as fotos, que falarão melhor do que qualquer descrição. Não me atraiu apenas o carácter pitoresco da sinalização, mas também, e sobretudo, o pequeno stencil que se encontra na parede deste edifício  com o nome do estabelecimento. Poderá ser arriscado tentar adivinhar o processo por trás da existência deste stencil, mas algo é certo: o Sapateiro Fácil é um ícone (se pequeno ou grande não o sei) da cidade do Porto. E é-o certamente não pela qualidade do seu serviço (que não se põe em causa) mas pela sua aparência que transparece o mesmo espírito desenrascado e honesto do primeiro flyer do embalsamador norte-americano. Sei que já divago muito, e talvez fazendo pouco sentido, mas este raciocínio levou-me a pensar numa outra questão, ligada ao designer e à sua profissão.

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Numa altura em que os redesignsrebrandings parecem ser a solução para todas as crises, questiono-me o quão intrusivo seria aprimorar a imagem deste sapateiro. Não será que a tipografia mataria toda a aura da loja? E será que isso interessa? A quem? Alguém voltaria a pintar o nome da loja naquela parede? Levantaram-se uma série de questões às quais não sei responder, mas exaltou-se um fascínio por este design vernacular, realmente marginal e alternativo, que é design sem o ser. E se pensarmos bem, quantas vezes os não-designer, os D.I.Y por necessidade e não por moda, não fazem um melhor trabalho do que um profissional. Vou continuar a pensar nisto.