Quanto tempo passou desde agora?

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Nota prévia:
Este ensaio foi redigido em 2015 para o livro dos finalistas de Design de Comunicação da Faculdade-de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. O livro fazia parte de uma série de iniciativas, como uma exposição, debates e um documentário, agregadas sob o título Agora, irrepetível. Enquanto um dos finalistas desse ano, tentei neste texto captar o sentimento de uma geração, ou pelo menos dos colegas que me rodeavam. Hoje continuo-me a rever em algumas das ideias aqui expostas, noutras nem tanto. Não esperava outra coisa. Partilho o texto sem alterações, pois considero-o um documento mais útil no seu estado original do que revisto aos olhos da actualidade. O mais certo é que qualquer revisão feita agora esteja desactualizada daqui a 3 anos.

Agora, irrepetível.http://agorairrepetivel.belasartes.ulisboa.pt/
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Comentário a La Chinoise

[Este texto foi escrito a propósito de uma visualização do filme La Chinoise de Jean-Luc Godard, no 3º ano da licenciatura de Design de Comunicação na FBAUL. Partilho-o porque encontro nele algumas ideias que mais tarde vieram a ressurgir no âmbito da exposição e publicação final Agora, irrepetível.]


“A história é o objecto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogéneo e vazio, antes formando um tempo pleno de «agora».” Walter Benjamin, Teses sobre a Filosofia da História.

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Fotograma de Sans Soleil, de Chris Marker (1983)

Será possível fazer um retrato fidedigno de toda uma geração? A História tem-nos ensinado sucessivamente que as narrativas do passado estão contaminadas pelo mito. A História que ouvimos é a história que queremos ouvir. Dependendo de quando e onde nascemos, por quem fomos ensinados, a História é algo demasiado vago e etéreo para poder ser gravado. A todo o passado que observamos falta o agora, a substância do tempo a que a memória não pode aceder. Em Sans Soleil, de Chris Marker, um viajante pergunta como podemos nós realmente lembrarmo-nos do que é ter sede.

Parece imprudente falar da falta de agora da memória a propósito de um filme que se debruçou sobre os traços de uma geração enquanto ela existia de facto. Os jovens que protagonizam o filme são os interlocutores de uma mensagem que não pode ser descodificada de forma simples e imediata. Isto porque o filme-ensaio que é La Chinoise não deve ser visto como uma crítica; nem ao status quo da época, nem aos movimentos que se lhe opunham.

É-nos dito que estamos perante um filme em vias de ser feito: vemos a câmara, a claquete, os olhares cheios de dúvida, ouvimos as perguntas de Godard (e serão perguntas “autênticas” ou encenadas? aliás o que é encenado? quem é actor dentro do filme? quantos níveis de representação existem?). Alongamo-nos assim num parênteses para perguntar o que é verdade ou mentira; o que é sequer isto da verdade e da mentira num filme? O que é La Chinoise, o que pretende retratar?

Diria que pretende retratar tudo menos a geração em si, como costumamos entendê-la. La Chinoise não existe num plano de factos, mas de uma relação de enlace entre um pathos sobejamente conhecido da juventude rebelde com o ethos da insegurança, do “Como levamos a cabo uma revolução?”. Este ethos é o agora de 1967, em França. De forma audaciosa, Godard aventura-se no périplo de captar o imaterial conteúdo do tempo, condenado a ser perdido nas reconstituições da História, que verá nas imagens da revolução uma sedução poética à qual é difícil resistir. Godard serve-se destas imagens como um todo para protagonizar um programa maior: preservar na película o agora desse tempo. Se o conseguiu, é ainda mais difícil de afirmar, mas que o tenha tentado é, sem dúvida, uma ideia apaixonante.

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Fotograma de La Chinoise, de Jean-Luc Godard (1967)

Agora, irrepetível.

Tenho andado muito ocupado, mas entusiasmado, com a exposição dos finalistas de Design de Comunicação da FBAUL. Chama-se Agora, irrepetível., a primeira parte está exposta na galeria das Belas-Artes até dia 29 deste mês e a segunda parte inaugura logo no dia 30 no edifício da Trienal de Arquitectura de Lisboa. Tendo trabalhado sobretudo no livro com o mesmo nome, que também já está à venda, tenho-me dedicado recentemente à programação cultural criada à volta da exposição e que pretende fomentar discussão e reflexão, sob várias formas, à volta de um tema assumidamente político, que é a “Juventude em Marcha”.

Quanto ao projecto em si, e aos resultados que vão agora surgindo, estou muito orgulhoso pelo trabalho desenvolvido com colegas e professores. Foram muitas primeiras experiências e aprendi muito neste processo. Tive a oportunidade de escrever um texto que é talvez o maior que assinei até hoje e que está publicado no livro. Foi um grande desafio, e também uma grande sorte, terem-me confiado tantas linhas para expor algumas ideias. Mas é apenas um texto entre outros, assinados por professores da faculdade, e cuja leitura é, a meu ver, fundamental. Há ainda, claro, uma grande maioria (uma maioria boa, absoluta) de páginas dedicadas à voz dos alunos, através dos seus projectos. É nestes trabalhos que, de forma muito plural, se discutem questões urgentes relacionadas com o ensino, o meio e a geração (os três núcleos conceptuais que dividem a exposição da galeria e o meu texto).

Tem sido interessante ver e ouvir as reações das pessoas, e arrisco-me a dizer que esta exposição tem sido entendida como uma exposição sobre um tema e não sobre uma turma. Sim, é uma mostra de alunos, mas julgo que todos nos podemos orgulhar de, pelo menos em parte, conseguirmos comunicar ideias, posições e dúvidas. Muito terá falhado e falhará ainda, mas não me parece de todo descabido que se possa pensar em tudo isto como um manifesto. Esta é uma posição que eu defendo para todo o projecto.

E sem me afundar no auto-elogio colectivo (e porque também aguardo o contraditório), estendo assim o convite à meia-dúzia de leitores deste blogue a visitarem a nossa exposição, a lerem o nosso livro, a falarem connosco nos vários momentos da nossa programação. Espero em breve escrever mais sobre o assunto, directa ou indirectamente. Por enquanto, links e algumas fotos de bastidores em baixo.

https://www.facebook.com/agorairrepetivel
agorairrepetivel.belasartes.ulisboa.pt

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