Primeira visita a(o) Babilónia

20140219-174718.jpgNa terça-feira fui com amigos ao Centro Comercial Babilónia na Amadora. O mote é um exercício de grupo proposto na cadeira de Cultura Material a ser desenvolvido durante este semestre, um pouco à semelhança do Learning From Las Vegas. O Babilónia é um espaço totalmente surreal, dominado pelas lojas de telemóveis e cabeleireiros que vendem o cabelo dos seus clientes. Como o nome metafórico (se foi de propósito, até demasiado) faz adivinhar, é um local muito etnicamente variado e interessante. Também se encontram por lá algumas obras de arte curiosas, como a da imagem acima. Brevemente voltaremos lá, de preferência com menos ar de “turistas”.

Sobre “Inextinguishable Fire”, de Harun Farocki

(Nota: Este texto foi adaptado de um paper redigido para a cadeira de Cultura Visual da FBAUL)

Inextinguishable Fire — divisão do trabalho e alienação

Harun Farocki é um realizador alemão nascido na República Checa a 9 de Janeiro de 1944. Estudou na Duetsche Film- und Fernsehakademie Beriln entre 1966 e 1968, e mais tarde deu aulas na University of California, Berkley entre 1993 e 1999. Na sua vasta produção como cineasta constam mais de noventa filmes por ele realizados, editados, produzidos e/ou escritos.

Em 1969, Farocki estreia o seu segundo filme, “Inextiguishable Fire”, uma curta-metragem documental que se coloca abertamente numa posição de protesto à produção de napalm, por parte dos Estados Unidos da América, para utilização na Guerra do Vietnam. O filme inicia com um indivíduo, friamente colocado perante a câmara (esta frieza é uma constante no filme), a ler o relato de uma vítima vietnamita do napalm. Terminada esta leitura, afirma que não é possível mostrar aos espectadores os efeitos do napalm, pois perante as imagens, estes sentir-se-ão feridos nos seus sentimentos, como se neles tivesse sido utilizado napalm. De seguida, verbaliza uma frase que serve como mote para o resto do filme: “Se os espectadores não quiserem ter nada a ver com os efeitos do napalm, então é importante determinar o que eles já têm a ver com as razões do seu uso.” Fora do ecrã, outro narrador afirma, após uma demonstração breve do uso de napalm “O napalm tem de ser contestado onde é produzido, nas fábricas.” (Farocki, 1969). O filme desenvolve-se numa lógica de ilustração da actividade da empresa, com várias cenas a repetirem-se, com apenas ligeiras alterações nos diálogos ou na mise en scène que servem para acentuar certos pontos que o realizador pretende transmitir. Num destes casos de repetição, a fábrica é comparada com um conjunto de blocos de construção. Na primeira cena, um cientista assegura que com ela se pode montar o mundo inteiro. Na repetição, quando lhe perguntam o que monta com o referido bloco, o mesmo cientista admite produzir napalm. Mais tarde, numa alusão a esta passagem, surge o director da empresa a confessar-se, da seguinte forma, à sua secretária:

Não estou a defender a guerra. Mas estou convencido que o nosso envolvimento no Vietnam foi justificado. Também estou convencido que o napalm é uma boa arma que ajuda a salvar vidas humanas. O Departamento de Estado deu-nos milhões para o desenvolvimento futuro de napalm. Alguns sectores do público, bem como alguns dos nosso trabalhadores, não percebem isso. Uma corporação química é como um conjunto de blocos de construção. Deixamos a cada trabalhador um bloco para ele trabalhar. Depois juntamos os blocos para construir o que o cliente nos pede. A cada trabalhador será dada uma tarefa discreta, principalmente por razões de confidencialidade. Aqui está uma lista das tarefas discretas. Certifique-se que são distribuídas. (Farocki, 1969)

O filme mostra trabalhadores da empresa a verem imagens numa televisão das atrocidades cometidas no Vietnam. Uns perguntam-se se aquilo deve continuar, outros perguntam-se se têm mesmo de ver aquilo, lembrando o segmento inicial em que o narrador explica que é impossível mostrar a alguém os efeitos do napalm, sem quem esta pessoa se sinta ferida, indiciando talvez que também nós, espectadores, estamos a ser feridos pela visualização do filme. Um título surge no ecrã, lendo assim:

“Após uma visualização dos crimes cometidos em Hiroshima e no Vietnam, muitos cientistas e técnicos aperceberam-se que o seu contributo para a destruição fora criminoso. DEMASIADO TARDE.” (Farocki, 1969).

Assim é introduzida a temática da divisão do trabalho, seguindo-se a já referida confissão do director da empresa. Farocki coloca-o da seguinte forma, num outro título:

Devido à intensificação da divisão do trabalho, muitos técnicos e cientistas já não conseguem reconhecer a contribuição que fizeram para as armas de destruição. Em relação aos crimes no Vietnam, sentem-se como espectadores. (Farocki, 1969)

A divisão do trabalho acontece quando, numa linha de produção, diferentes trabalhadores se especificam e dedicam totalmente à execução de apenas uma tarefa. Com a ascensão do capitalismo e do mundo industrializado, este método tornou-se cada vez mais comum, sobretudo devido à sua rentabilidade. Numa das analogias mais conhecidas feitas relativamente à divisão do trabalho, conhecida como a “fábrica de alfinetes”, Adam Smith apontou as vantagens deste método:

O grande aumento da quantidade de trabalho que, em consequência da divisão do trabalho, o mesmo número de pessoas é capaz de executar deve-se a três circunstâncias: primeira, o aumento da destreza de cada um dos trabalhadores; segunda, a possibilidade de poupar o tempo que habitualmente se perdia ao passar de uma tarefa a outra; e, finalmente, a invenção de um grande número de máquinas que facilitam e reduzem o trabalho, e tornam um só homem capaz de realizar o trabalho de muitos. (Smith, 1776, p.79-83)

Noutro ponto da mesma obra, Smith critica, por sua vez, a divisão do trabalho, afirmando que esta materializa o Homem,  levando a uma “mutilação mental”. (Smith, 1776) Este ponto de vista sobre um tema largamente discutido na história da humanidade (sobre ele, um dos pensadores mais relevantes foi mesmo Platão), leva-nos a considerar a teoria de Karl Mark da alienação pelo trabalho, que inclusive estabelece uma possível relação entre estas duas perspectivas de Smith (positiva e negativa) que acabámos de analisar, quando diz que “O trabalhador torna-se tanto mais pobre quanto mais riqueza produz” (Marx, 1844, p.159). Apesar de Marx ter sido um crítico de Smith, bem como de outros economistas considerados burgueses, e de reflectir sobretudo sobre a divisão social do trabalho (um tema diferente do aqui abordado) a sua teoria da alienação pode ser enquadrada com a temática do filme e do pensamento de Smith. Quando Marx afirma que o trabalho aliena a natureza do homem e o homem de si mesmo (Marx, 1944, p.164), podemos entender que na natureza do homem existe uma necessidade crítica, ética e moral que é anulada. A exploração de Farocki em “Inextinguishable Fire” mostra precisamente como a divisão do trabalho é um meio de alienação do trabalhador, que pela repetição do gesto produtivo ultra-especializado o trabalhador perde a capacidade se inserir num contexto mais abrangente, onde poderia julgar as consequências das suas acções. Mais ainda, Farocki deixa de certa forma implícito que as empresas utilizam a divisão de trabalho de forma deliberada para evitar o questionamento acerca dos verdadeiros fins da sua produção. Para descrever a ambiguidade da Dow, a empresa retratada em “Inextinguishable Fire”, Farocki expõe as dúvidas dos seus trabalhadores. A fábrica produz insecticidas que ajudam humanidade, mas também produz herbicidas que destroem as colheitas. Numa frase algo semelhante à de Karl Marx, citada atrás, é-nos dito que “A perda para os oprimidos é o ganho para os opressores.” (Farocki, 1969). Quando, na sequência final do filme, um trabalhador e um estudante se mostram incertos sobre qual é a produção da empresa onde trabalham — se aspiradores, se metralhadoras — um terceiro indivíduo, um engenheiro, explica o seguinte:

Sou um engenheiro e trabalho numa corporação dedicada à electricidade. Os trabalhadores pensam que produzimos aspiradores. Os estudantes pensam que produzimos metralhadoras. Este aspirador pode-se transformar numa arma útil. Esta metralhadora pode-se transformar num objecto doméstico útil. O que produzimos depende dos trabalhadores, estudantes e engenheiros. (Farocki, 1969)

Ao dizer que aquilo que a empresa produz depende de trabalhadores, estudantes e engenheiros, poderá estar a enunciar precisamente a ambiguidade que se referiu antes. No entanto, este final enigmático pode ter outra mensagem implícita, a de uma possível resposta.

Resposta possível — a proposta de Farocki

Ao demonstrar que o que um empresa produz depende de inúmeras pessoas em inúmeros cargos, Farocki sugere que existem assim muitos agentes que podem impedir estas empresas de trabalhar para a destruição e fazê-las começar a trabalhar para o bem da humanidade. Quando no início do filme se afirma que o napalm deve ser protestado nas fábricas, podemos então acrescentar “no interior das fábricas”. O filme não é, no entanto, demasiado optimista, e deixa esta possibilidade apenas como isso, e não como uma fórmula cujo efeito benigno é garantido. Em momento algum, as personagens do filme vencem a dúvida; a dúvida é, no entanto, o primeiro passo libertador da alienação.

A este propósito, pode ser lembrado Tomás Maldonado quando fala sobre o designer industrial, sendo, no contexto deste trabalho, a opinião extrapolada para o universo de todos os trabalhadores industriais:

(…) para um designer industrial, a não ser que viva mergulhado num estado de sonambulismo profissional, são iniludíveis algumas perguntas. Por exemplo, deverá interrogar-se em que medida aquilo que está a acontecer no mundo dos produtos pode alterar os métodos e os objectivos da sua actividade projectista. Vendo bem, por detrás desta pergunta, existe outra, que respeita a incidência real dos novos produtos sobre o ambiente, sobre a nossa vida quotidiana, sobre as nossas relações de comunicação interpessoal, sobre a nossa percepção exterior. (Maldonado, 1976)

Em “Inextinguishable Fire” somos apresentados a trabalhadores que operam no referido “estado de sonambulismo profissional”, acordando de seguida para a interrogação. Farocki deixa em aberto o tipo de acção que deve ser tomada, mas demonstra que existe espaço para uma resposta. De facto, talvez possamos entender que a interrogação já é em si uma resposta.

Podemos ver que Farocki criou, de certa forma, um manifesto incerto contra a divisão do trabalho com fins destrutivos, bem como um protesto à guerra no Vietnam. Diz-se incerto pelo facto já referido de não apresentar uma proposta definitiva de reacção, mas antes sugerindo possibilidades implícitas, quase implosivas, do sistema criticado. Uma viagem até ao presente e podemos perceber a actualidade da crítica de Farocki. Muito mais poderia ser (e já foi, inclusive) dito sobre o assunto, mas “Inextinguishable Fire” continua a ser uma excelente peça documental e política que abre a discussão sobre as verdadeiras intenções das grande s empresas industriais.

Referências
FAROCKI, Harun. [Registo Vídeo] Inextinguishable Fire. (1969) Alemanha. Disponível em <URL: http://youtu.be/6JBbgWSBTdA>
MALDONADO, Tomás. Design Industrial. (1976/2012). Lisboa. Edições 70.
MARX, Karl. Manuscritos Económicos Filosóficos. (1944/1993). Lisboa. Edições 70
SMITH, Adam. A Riqueza das Nações — Volume I. (1776/2001). Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian

Imagens
• Épinglier (Pin-Maker) I, L’Encyclopédie (1760s)
• Still de Inextinguishable Fire, de Harun Farocki

“Da dúvida à incerteza” — Exposição de trabalhos de DCMP + DCI

Durante a semana passada organizei, juntamente com alguns colegas da minha turma, uma exposição de trabalhos do primeiro ano do curso de Design de Comunicação, mais especificamente realizados nas cadeiras de DCMP e DCI (aka “cadeiras de projecto”). Esta exposição inseria-se na Design Welcome Week, uma nova iniciativa na FBAUL que visa preparar os novos alunos, e não só, para o percurso que têm à frente. Foi uma boa maneira de começar o ano, porque ninguém que tenha estado envolvido pôde ceder à lentidão característica dos recomeços. Aderi à ideia, colocada pela professora Cândida Ruivo (uma das professoras das cadeiras referidas), com algum cepticismo e não sabia o que esperar do resultado final, visto estarem envolvidas tantas pessoas com ideias diferentes. No entanto, e olhando para trás em jeito de rescaldo, posso dizer que fiquei surpreendido e mais que feliz pela direcção que a exposição tomou e pelo resultado que produziu. Toda a gente trabalhou em sintonia, numa confluência de ideias e visões muito interessante que transformou a exposição numa verdadeira retrospectiva sobre um ano de trabalho, cheio de percursos individuais e colectivos, que se manifestaram sob a mensagem do título desta exposição. 

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Guilherme Sousa

Rua

Nessa noite choveu torrencialmente. Choveu numa tomada à qual estava ligada uma televisão. Primeiro houve faíscas, pequenas e inofensivas. Depois fumo fino que denunciou pequenas chamas; ninguém para as apagar. Depois o fumo ficou espesso e já saía pela janela, onde a chuva o eliminava. A mesma chuva que não apagava as chamas que criara. Já ardia toda a casa, mas já dormiam todos os outros moradores. Então, antes que alguém acordasse, todo o prédio ardeu, todos os moradores morreram sem dar por isso. Excepto a mulher do 3º Direito, que chegou mais tarde, acompanhada de um senhor mais velho. Excepto a mulher do 3º Esquerdo, que entretanto mudou de casa. 

8/8

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9º Esquerdo

Uns pisos abaixo gente estranha chegava a casa. Eram dez da manhã, estranhas horas. Ele conhecera esses vizinhos uma altura, após tê-los ouvido falar sobre música, o que o fez meter conversa. Inocente, não percebera que música para eles não era Miles, nem Thelonious, nem Hot Club. Falara sobre isso com os pais que não acharam piada à conversa com essas pessoas de olhos vermelhos e pupilas dilatadas. Um inocente é particularmente influenciável, sabiam-no. No entanto, a indiferença que eles haviam demonstrado para com o rapazito fizera desaparecer qualquer vontade de estabelecer uma amizade.Ainda bem, mais tempo para praticar. Precisava. Embora um grande conhecedor do Jazz, ainda mais para a sua tenra idade, não deixava de ser uma nódoa no que tocava a… tocar. Era tão mau que nunca nenhum vizinho se queixou do barulho; a pena é um sentimento que leva as pessoas a perdoar qualquer coisa. Só os pais, vizinhos mais próximos daquele saxofone que Belzebu trouxera à Terra, perdiam a pena, a paciência e a audição. Chegaram até a pensar que mais valia o puto ter-se metido nas drogas. 

6/8

casadacasa.tumblr.com