Tom Dixon. O design entre o berço e o caixão

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Saiu no P2 de 20 de Janeiro, com o jornal Público, o meu artigo sobre a colaboração do IKEA com Tom Dixon, que entrevistei em Lisboa no lançamento da segunda fase da colecção Delaktig. As fotografias são de Miguel Manso. É o meu primeiro trabalho para um jornal nacional generalista e pode ser lido AQUI.

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Rua

Nessa noite choveu torrencialmente. Choveu numa tomada à qual estava ligada uma televisão. Primeiro houve faíscas, pequenas e inofensivas. Depois fumo fino que denunciou pequenas chamas; ninguém para as apagar. Depois o fumo ficou espesso e já saía pela janela, onde a chuva o eliminava. A mesma chuva que não apagava as chamas que criara. Já ardia toda a casa, mas já dormiam todos os outros moradores. Então, antes que alguém acordasse, todo o prédio ardeu, todos os moradores morreram sem dar por isso. Excepto a mulher do 3º Direito, que chegou mais tarde, acompanhada de um senhor mais velho. Excepto a mulher do 3º Esquerdo, que entretanto mudou de casa. 

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9º Esquerdo

Uns pisos abaixo gente estranha chegava a casa. Eram dez da manhã, estranhas horas. Ele conhecera esses vizinhos uma altura, após tê-los ouvido falar sobre música, o que o fez meter conversa. Inocente, não percebera que música para eles não era Miles, nem Thelonious, nem Hot Club. Falara sobre isso com os pais que não acharam piada à conversa com essas pessoas de olhos vermelhos e pupilas dilatadas. Um inocente é particularmente influenciável, sabiam-no. No entanto, a indiferença que eles haviam demonstrado para com o rapazito fizera desaparecer qualquer vontade de estabelecer uma amizade.Ainda bem, mais tempo para praticar. Precisava. Embora um grande conhecedor do Jazz, ainda mais para a sua tenra idade, não deixava de ser uma nódoa no que tocava a… tocar. Era tão mau que nunca nenhum vizinho se queixou do barulho; a pena é um sentimento que leva as pessoas a perdoar qualquer coisa. Só os pais, vizinhos mais próximos daquele saxofone que Belzebu trouxera à Terra, perdiam a pena, a paciência e a audição. Chegaram até a pensar que mais valia o puto ter-se metido nas drogas. 

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A Primeira Queca desde Há Séculos

Tinham passado grande parte do dia a apanhar uma valente pedrada de haxe. Agora estão a enfrascar-se num bar de engate rasca, todo cheio de cromados e néons. Os preços proibitivos das bebidas dão a ideia de que isto ambiciona ser um cocktailbar finaço, mas o aspecto geral da coisa fica a milhas do efeito de sofisticação pretendido. As pessoas que frequentam este lugar sabem perfeitamente ao que vêm. Contudo, a noite ainda mal começou, e a camuflagem de beber, conversar e ouvir música ainda não é, nesta fase dos acontecimentos, demasiado óbvia. O haxe e o álcool estimularam a libido pós-cavalo do Batata e do Renton até níveis transbordantes. A seus olhos, todas as mulheres ali presentes são extraordinariamente sexy. E, tal é a febre, alguns dos homens também. É-lhes impossível concentrarem a sua atenção numa determinada pessoa que poderia ser um alvo potencial, dado que o seu olhar é constantemente atraído por outras fêmeas. O simples facto de estarem aqui faz-lhes recordar há quanto tempo já não amandam uma queca.

WELSH, Irvine; “Trainspotting”, 1993, Ed. Relógio d ́Água 1996 


5/8

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Breve nota sobre o rés-do-chão

É curioso que o piso pelo qual todos os habitantes do prédio passavam obrigatoriamente fosse também aquele que mais tentavam evitar. O paradoxo instalava-se, como é óbvio, pois apenas o encarceramento, dentro ou fora do edifício, poderia dar sucesso a tais tentativas. O problema em causa era o porteiro. Ou melhor falando, as suas conversas. Ou corrigindo novamente, as não-conversas, todas elas de situação. Ninguém ali tinha paciência para simpatias forçadas e sorrisos amarelos, discussões sobre o tempo ou queixumes do estado das coisas. Não tinha, e muito menos antes de enfrentar o trânsito caótico que as suas viaturas encontrariam breves minutos após arrancarem do estacionamento. Não, de maneira nenhuma, não há tempo para isso na vida apressada de um ser urbano e sofisticado. Azar do porteiro, homem rural e rude. 

4/8

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Deixá-los Pousar!

O assunto já não é novo. Já por várias vezes, pela mão de alguns leitores, tivemos a oportunidade de aqui fazer referência à situação que se apresenta na Avenida Carvalho Araújo, ou nas suas esquinas, sempre que os autocarros de turismo param para largar ou tomar os seus passageiros. De facto constitui um escândalo, bem revelador do nosso atraso, como cidade que quer ser capital de tudo e mais alguma coisa e, afinal, não é capital de absolutamente nada, porque falha em coisas elementares, básicas. Na passada sexta-feira, à semelhança de outros dias, ao longo de todo o ano, pelas 12.35, um autocarro encontrava-se no início da Av. 1o de Maio, logo a seguir à passadeira dos peões, no sentido poente nascente, a descarregar turistas franceses. O trânsito parou durante largos minutos, porque a rotunda ficou cheia de automóveis. Cheia também ficou a Av Miguel Torga, até ao início da Av da Noruega, lá para o Seixo. Condutores a buzinar e outros desesperados. Era hora de ir buscar a mulher, os filhos, etc. Pelas 14.25, verificou-se a recolha dos mesmos turistas. Nova confusão de trânsito, com os turistas a rirem-se da cena, certamente a gozarem com a situação criada. Vila Real, uma verdadeira cidade de província, governada por provincianos, que parece que nunca saíram daqui ao menos para copiarem o que se passa lá fora. Continuem! Estão no bom caminho!

António Francisco Caseiro Marques, in Jornal Notícias de Vila Real 

3/8

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5º Direito

Subiu a escadas porque o elevador estava avariado havia semanas. No terceiro andar ainda havia caixas espalhadas. Entrou na sua casa mal iluminada, onde o sussurro das preces da sua esposa fazia parte do silêncio. O bater da porta quebrava esse som do vazio, para o desespero da senhora que tinha aguentado com os ecos de um péssimo ensaio de saxofone num dos pisos superiores e julgava agora poder-se dedicar aos salmos sem interrupções. Olhou por cima dos óculos para o homem grisalho, voltando logo à comunhão com a Virgem que a encarava piedosa. Passado tantos anos de casamento era cumprimento suficiente. Ele retribui o entusiasmo e foi directo para o escritório. E se a iluminação da casa era pobre, ou melhor, descuidada, o escritório evidenciava horas de planeamento cuidadoso. As paredes tinham de ser imaginadas, pois escondiam-se por trás de inúmeras prateleiras, às quais os focos de luz se direccionavam. Nelas, recordações. Recordações de tudo, sobretudo viagens. Viagens recentes, viagens antigas. Viagens no tempo, viagens no espaço. Espaço. O que ele mais temia era a falta de espaço no mundo. Na sua casa apenas sobreviveram à loucura coleccionista a cozinha, por razões práticas, e o quarto da esposa, por insistência religiosa no direito ao silêncio que as recordações perturbavam. Também ela tinha um problema de espaço. Existiam longe um do outro porque não havia espaço para se juntarem. Por vezes recordavam-se de quando havia, mas o espaço logo encurtava com mais uma recordação. 

2/8

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