Retrato sonoro

Ainda sobre a FACA, hoje fomos à exposição “Everything we hear and many things we don’t” no Adamastor Studios, dedicada totalmente ao som. Entre as várias salas com explorações diferentes da instalação sonora, com um carácter tendencialmente autobiográfico dos artistas, destaca-se Présence, de Rudolfo Quintas, uma instalação que permite ao visitante fazer o seu retrato sonoro através da sua movimentação num espaço que funciona como uma espécie de sintetizador accionado pelo corpo e a sua posição. É uma experiência interessante quer para o visitante que se movimenta e cria o seu retrato com os auscultadores nos ouvidos, quer para o restante público que assiste a uma performance espontânea e imprevisível, especialmente enquanto não souber o que se passa ali.

Paisagem Carioca

Ontem fui ao Arquivo 237, a propósito da FACA, assistir a alguns documentários. Um deles, Paisagem Carioca, era dos que eu mais antecipava e não fiquei nada desiludido. Apesar de ter alguns problemas de edição (que não chateiam muito), é uma recolha muito interessante de perspectivas sobre a favela do Vidigal, no Rio de Janeiro. Destino escolhido por um número cada vez maior de estrangeiros que nela vêem um paraíso de rendas baixas e vida comunitária que não se encontra no “asfalto”, o Vidigal confronta-se agora com o problema da sobrevalorização do território, cada vez mais um local “cool” e consequentemente caro. Isto significa que, paralelamente a uma melhoria das condições de vida para a qual a chegada dos gringos foi preponderante, os habitantes “naturais”, maioritariamente brasileiros pobres, estão a ter de abandonar para outras favelas. O documentário ganha muito com o facto de ser extremamente consciente deste lado negativo de algo que aparentemente só poderia trazer melhorias. Por outras palavras, o filme não embala num positivismo cliché e deixa em aberto a pergunta sobre o futuro da favela.

Foi uma boa alternativa ao sem-fim de documentários e reportagens que se encontram no Youtube. Se, por um lado, Paisagem Carioca ignora (deliberadamente) o assunto do crime, a televisão brasileira parece obcecada em mostrar um mundo de decadência, drogas e violência. Não que eu esperasse outra coisa, nem que ignore o problema sério e real do narcotráfico, mas em pouco ou nada os media mainstream relacionam este problema com causas maiores como a pobreza extrema, o desinvestimento cultural ou, no geral, a política (e isto é fazer copy-paste para qualquer outro país/problema no mundo). Depois do Tropa de Elite, o standard jornalístico parece ter ficado estabelecido no plano cinematográfico dos tanques a invadir o Complexo do Alemão. Felizmente, e por um acaso igualmente feliz, o Público anda por este dias a publicar muito material sobre o Brasil, já li alguns textos e foi um novo alívio face ao sencionalismo da Globo.

Na sessão seguinte da FACA apanhei ainda o excelente Alto do Minho, um retrato explosivo das festividades populares e religiosas da região minhota, e que muito identifiquei com o que se vive em Trás-os-Montes. O filme deve muito à sonoplastia e à guitarra do Norberto Lobo (que umas horas mais tarde fui ver em concerto com João Lobo na ZDB).

Primeira visita a(o) Babilónia

20140219-174718.jpgNa terça-feira fui com amigos ao Centro Comercial Babilónia na Amadora. O mote é um exercício de grupo proposto na cadeira de Cultura Material a ser desenvolvido durante este semestre, um pouco à semelhança do Learning From Las Vegas. O Babilónia é um espaço totalmente surreal, dominado pelas lojas de telemóveis e cabeleireiros que vendem o cabelo dos seus clientes. Como o nome metafórico (se foi de propósito, até demasiado) faz adivinhar, é um local muito etnicamente variado e interessante. Também se encontram por lá algumas obras de arte curiosas, como a da imagem acima. Brevemente voltaremos lá, de preferência com menos ar de “turistas”.

Exercícios de contextualização em movimento

É de noite e viajo num autocarro entre Lisboa e Vila Real. Já passam quase duas horas desde a partida mas nem a meio do caminho vou. No iPod toca Fela Kuti, depois de já ter rodado a seleção musical por vários outros discos, aborrecendo-me sempre. Não me apetece ler, sobretudo porque vou enjoar. Provavelmente enjoarei também a escrever. Pela janela não se vê nada senão o interior reflectido do autocarro, com as suas luzes azuis estéreis que se organizam de forma alinhada e perspética, criando uma segunda dimensão espacial do veículo no qual me desloco. Do exterior vêem-se, ocasionalmente, luzes indistintas que fogem assim que as vemos. Edifícios industriais cujo anonimato se acentua com a nossa condição de imparável locomoção. Somos rápidos demais para a paisagem. Ao fundo, dentro do autocarro, um mostrador de caracteres vermelhos luminosos alterna entre a hora e a temperatura. A hora faz-nos desesperar toda a viagem — falta tanto. Apenas com o aproximar das 22:45 vou começar a apreciar a informação. Mas e a temperatura? De que nos serve? O leitor deste texto indicará, certamente, a necessidade de saber a temperatura ao sair do autocarro, e estará correcto. Mas vejo nesta informação uma segunda funcionalidade — a da contextualização. Dentro do autocarro nocturno de luzes azuis reflectidas, de caras desconhecidas e sons mecânicos ininterruptos, existimos num espaço de anonimato, de abstracção completa da realidade exterior. Quando a escuridão é total lá fora, não estamos em lado nenhum, apenas a tentar chegar a qualquer outro lugar. A temperatura constante do interior, igual durante todo o ano, durante toda a viagem, exacerba a condição intemporal e desprovida de sítio do transporte. E se o marcar da hora pouco mais nos diz sobre o que acontece fora deste ambiente hermético, o conhecimento da temperatura desperta-nos os sentidos. Preparamo-nos para um frio que sabemos que vamos sentir, imaginamos o frio que lá fora já se sente, e dessa forma estamos fora do autocarro. É uma evidência do exterior. Sem luz, sem chão, mas com frio. Contextualizamo-nos além da uniformidade repetitiva das 5 horas de viagem. Sem saber onde, garante-nos que estamos.

O que tem Milão?

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Faz agora uma semana que andava na dolce vita em Milão. De uma passagem muita rápida pela cidade da moda por excelência, e do design porque os milaneses assim insistem, guardo excelentes recordações. De Itália conhecia Roma e Florença, mas em muito pouco se pode comparar Milão a estas duas cidades. Muito mais escura, pesada e por vezes industrial, o que não é o mesmo que dizer mais feia ou desconfortável. Talvez a vista mais bela que a cidade me proporcionou foi do topo do flamejante Duomo para a brutalista Torre Velasca. Um edifício impressionante e quase absurdo, mas que nada tem de non-sense. É interessante pensar que os arquitectos, o estúdio/parceria BBPR, acreditavam que aquele seria o rumo da reconstrução da Milão pós-guerra. Um passeio pela cidade e podemos, claramente, entender que este foi um caso excepcional, que Milão se reconstruiu de outras formas, mas que guarda preciosamente este testemunho de um debate difícil. Milão maravilhou-me pelas histórias pouco românticas que conta, pelo europeísmo urbano que Roma e Florença não têm, e que aqui convive de forma harmoniosa com o passado histórico da cidade e do país.

Milão, cidade com dinheiro, indiferente à crise, onde é estranhamente agradável ver gente a gastar tanto. É uma espécie de anestesia à austeridade, constante da nossas vidas, que aqui parece inexistente. Entre a Gucci e a Prada, não importa quão mal está a Itália ou a Europa — os sacos circulam nas mãos dos turistas que atravessam várias vezes ao dia a Galleria Vittorio Emanuelle II. (Quando comentei isto com a Sofia, ela comparou-o ao prazer de ver alguém comer chocolate quando estamos de dieta. Sem nunca ter feito dieta, parece-me uma boa metáfora.)

E por fim, Milão, cidade de muitos museus, exposições, galerias, pinacotecas. Onde finalmente vi uma boa exposição do Warhol, e onde conheci um pouco melhor o mito vivo do design industrial italiano. Onde Munari nos encontra em qualquer livraria, mesmo que só à última oportunidade encontremos o livro específico que procuramos. E depois de o encontrarmos, já somos um pouco mais milaneses, um pouco mais italianos.

My first cheat sheet

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When I started elementary school I could already ready, thanks to my mom and dad, Sesame Street books and later, Disney comics. I’m not sure, tough, that I could write. Looking at this small piece of paper I would say I probably couldn’t. As much as I can remember, we were learning our “abc’s” and I was very afraid of forgetting each letter’s form. So, in my first (and one of the very few, I should mention) efforts to actually cheat in school, I made this very useful “memory aid”, which I kept with me throughout the year. It includes both lower and upper case alphabets, written in the correct calligraphic style the teacher had taught us. Still to this day I am very insecure and doubtful about my memory and keep notes and cheat sheets about everything, though now I know that to use them in tests is considered a bad thing and can get you in trouble. I like to think that this was also my very first information design work. Although time’s effects and the glass framing my dad put on the piece of paper (hence the terrible photo) don’t help with the understanding of the object itself, it is quite well organized and surprisingly functional, except for the gray pencil layer covering everything, probably added in a very boring moment, and that totally random (and awesome) podium in the bottom.

Guilherme Sousa 

Neighbours from hell

Há várias semanas que de Segunda a Sexta acordo com o barulho de obras no apartamento dos meus vizinhos de cima. Moro num prédio que já foi um hotel, pelo que, entre outras características, as paredes são particularmente finas. Como sou um noctívago irremediável, as minhas horas de sono viram-se ainda mais reduzidas; cheguei inclusive a deitar-me ao som das brocas e martelos. Nos primeiros dias o barulho era como um sinal de Satanás na terra. Ainda respondi com música nas colunas e o volume no máximo, o que apenas me atormentou ainda mais. Durante vários dias fui para as aulas mal-disposto. Todas a semanas pensava serem a última da tortura, mas até hoje (agora sem a regularidade ou o volume de antes) o périplo não acabou. Apesar de ainda não ter descoberto o lado propriamente agradável da situação, a companhia das obras tornou-se familiar e proporcionou-me alguns momentos engraçados. Há umas semas atrás saio do banho e sou presenteado com uma versão acapella da “What is Love” do Haddway (num inglês bastante dúbio). Outra vez fui recordado de que a selecção estava a jogar à hora de almoço. Talvez isto não compense o sono cortado a meio, mas pode fazer esquecer o cimento-cola que ainda suja as minhas janelas. Falo disto porque o meu prédio é habitualmente muito silencioso, à excepção do bater das portas que ecoa como um rebentamento. Mas hoje consigo ouvir gente a falar aos berros e não me sinto incomodado. É nitidamente uma discussão acesa, mas isso não me interessa. Interessa-me sentir que vivo num sítio com outras pessoas, que partilho algo com alguém que não conheço. Não sei porquê, mas foi um pensamento que me ocorreu. Talvez se isto se repetir deixarei de pensar o mesmo.