Agora, irrepetível.

Tenho andado muito ocupado, mas entusiasmado, com a exposição dos finalistas de Design de Comunicação da FBAUL. Chama-se Agora, irrepetível., a primeira parte está exposta na galeria das Belas-Artes até dia 29 deste mês e a segunda parte inaugura logo no dia 30 no edifício da Trienal de Arquitectura de Lisboa. Tendo trabalhado sobretudo no livro com o mesmo nome, que também já está à venda, tenho-me dedicado recentemente à programação cultural criada à volta da exposição e que pretende fomentar discussão e reflexão, sob várias formas, à volta de um tema assumidamente político, que é a “Juventude em Marcha”.

Quanto ao projecto em si, e aos resultados que vão agora surgindo, estou muito orgulhoso pelo trabalho desenvolvido com colegas e professores. Foram muitas primeiras experiências e aprendi muito neste processo. Tive a oportunidade de escrever um texto que é talvez o maior que assinei até hoje e que está publicado no livro. Foi um grande desafio, e também uma grande sorte, terem-me confiado tantas linhas para expor algumas ideias. Mas é apenas um texto entre outros, assinados por professores da faculdade, e cuja leitura é, a meu ver, fundamental. Há ainda, claro, uma grande maioria (uma maioria boa, absoluta) de páginas dedicadas à voz dos alunos, através dos seus projectos. É nestes trabalhos que, de forma muito plural, se discutem questões urgentes relacionadas com o ensino, o meio e a geração (os três núcleos conceptuais que dividem a exposição da galeria e o meu texto).

Tem sido interessante ver e ouvir as reações das pessoas, e arrisco-me a dizer que esta exposição tem sido entendida como uma exposição sobre um tema e não sobre uma turma. Sim, é uma mostra de alunos, mas julgo que todos nos podemos orgulhar de, pelo menos em parte, conseguirmos comunicar ideias, posições e dúvidas. Muito terá falhado e falhará ainda, mas não me parece de todo descabido que se possa pensar em tudo isto como um manifesto. Esta é uma posição que eu defendo para todo o projecto.

E sem me afundar no auto-elogio colectivo (e porque também aguardo o contraditório), estendo assim o convite à meia-dúzia de leitores deste blogue a visitarem a nossa exposição, a lerem o nosso livro, a falarem connosco nos vários momentos da nossa programação. Espero em breve escrever mais sobre o assunto, directa ou indirectamente. Por enquanto, links e algumas fotos de bastidores em baixo.

https://www.facebook.com/agorairrepetivel
agorairrepetivel.belasartes.ulisboa.pt

IMG_1093 IMG_1094 IMG_1107 IMG_1119 IMG_1125 IMG_1130 IMG_1138

design.txt

Publicação da ESAD Grenoble-Valence que reúne textos de alunos e professores desta escola superior de design francesa.
Publicação da ESAD Grenoble-Valence que reúne textos de alunos e professores desta escola superior de design francesa.

No primeiro ano do curso de Design de Comunicação nas Belas-Artes aprendi que gostava tanto de ler e escrever sobre design como de fazer design, mesmo que na realidade não lesse assim tanto e escrevesse ainda menos. Na altura isto aconteceu quando descobri os textos do Mário Moura, do Frederico Duarte (que também era meu professor) e do José Bártolo. Além de ter essa espécie de revelação do que era (e podia ser) a crítica de design, comecei-me a interessar cada vez mais pela história e pela forma como o design se cruzava com a cultura, a política, a sociedade, a filosofia, etc. As aulas do Frederico foram particularmente importantes (mesmo que eu faltasse a tantas por ficar em casa a dormir…) para que deixasse de pensar no design como um primo pobre das artes plásticas e o entendesse como uma disciplina muito mais fascinante do que tinha imaginado até então.

A crítica de design foi também uma descoberta fantástica porque me ajudou a relativizar as minhas limitações como (proto-)designer. Por um lado ajudava-me a compreender os meus falhanços e por outro convencia-me de que não era preciso esquecer completamente o design caso um dia viesse a perceber que seria um péssimo designer. Agora que olho para os meus trabalhos de uma forma um bocado mais fria, reparo continuo a gostar bastante de alguns projectos de design que fiz ao longo dos últimos 3 anos, mas gosto mais ainda de voltar aos textos que escrevi. Não acho que sejam propriamente incríveis, e muitos deles despertam-me até alguma vergonha, mas quase todos me lembram de pontos de vista interessantes que tinha na altura (muitas vezes completamente errados), do processo de pensamento que segui e sobretudo do prazer que me deu pesquisar sobre alguns assuntos e escrever alguns desses textos.

Uma coisa que fui percebendo também é que muitos dos meus colegas escreviam coisas bastante interessantes, mas raramente o faziam porque tinham uma aversão à escrita ou porque achavam que escreviam mal. Penso que, em parte, isto vem da quantidade de professores que se apanham pela frente que promovem mais o cumprimento do academês do que a exposição das ideias de cada um. Acredito que a maior parte das pessoas pode escrever um bom texto sem que isso seja um fardo, principalmente quando não tenta seguir as normas do que é supostamente um bom texto. Em alguns exercícios promovidos pelo Frederico Duarte havia resultados escritos completamente delirantes e divertidos, outros mais sérios e muito informativos, e mesmo em alguns trabalhos mais “fracos” eu ficava com a impressão de que as pessoas não escreviam textos melhores porque achavam que não eram capazes logo à partida. Muitas vezes tornavam ideias simples em divagações incompreensíveis por motivos que me pareciam estéticos. De certa maneira, era valorizar mais a forma do que o conteúdo, um conflito que aos designer não é, de todo, estranho.

Gostava de ver as cadeiras teóricas nos cursos de design a incentivarem os alunos a escreverem mais e a descobrir precisamente a melhor forma de expor as suas ideias por escrito. Faz falta ao design mais convívio entre a sátira, a ficção, o gonzo, a investigação, a reportagem, o texto académico, e por aí além. Fazem falta mais vozes, principalmente as dos estudantes. Claro que isto não é para obrigar toda a gente a ser um crítico, historiador ou jornalista, mas acredito que há muitos alunos com ideias que merecem ser partilhadas, postas no papel e lidas por muita gente. Acredito também que as escolas de design devem produzir mais output teórico e crítico, descomprometido e descomplexado das fórmulas convencionais da escrita, acabando com a ideia de que o texto é um estatuto, um achievement ou algo do género, apenas acessível a uma elite. É preciso publicar mais!

Porque é que o design é político

 

No famoso debate entre Jan van Toorn e Wim Crouwel que aconteceu na Holanda em 1972 (1), o segundo afirmava que costumava encontrar alunos que se preocupavam mais com as causa sociais associadas aos seus trabalhos do que à missão de tornar uma mensagem clara e compreensível. Quando isto acontecia, Crouwel aconselhava o aluno a abandonar a sua carreira como designer e a dedicar-se à política, podendo dessa forma chegar a posições de maior influência em relação aos tais problemas que, segundo Crouwel, não cabia ao designer resolver.

Esta é uma visão interessante, que não reflecte apenas um entendimento sobre o papel do design, mas também sobre o funcionamento de uma sociedade democrática. Vamos por partes. O debate em causa opunha duas visões diametralmente opostas sobre o que deve ser um designer. Enquanto Crouwel evitava posicionar-se como um obstáculo entre emissor e receptor, van Toorn procurava precisamente fazer essa interferência, não necessariamente para criar significados mas para que o leitor os pudesse criar a partir da forma como a mensagem era transmitida.

Crouwel defendia a especialização, afirmando que um designer não pode ter conhecimentos suficientemente aprofundados sobre todas as matérias que são tratadas nos seus projectos e como tal deve manter-se distante de uma intervenção sobre as mesmas, recorrendo a especialistas no assunto, se necessário. Van Toorn, pelo contrário, defendia precisamente uma condição mais abrangente das competências do designer, não apenas como um técnico que dá forma às ideias do outros mas como um elemento participante da própria mensagem e da cadeia de comunicação. Crouwel é objectivo, van Toorn é subjectivo. O debate tem outras implicações interessantes, como o tipo de clientes que o designer deve procurar (e se os deve procurar de todo) ou qual é o papel dos museus, mas para o efeito, esta síntese serve.

Apesar da negação de Crouwel, parece-me que a posição de qualquer um destes designers é uma posição política. No caso de van Toorn esta é uma constatação óbvia, mas para entendermos a linha de discurso de Crouwel como política é preciso dissecá-la. A ideia de especialização profissional, que se vê materializada nas “recomendações” aos alunos anteriormente referidas, é uma ideia política por si só e refere-se a uma ordem de ideias que deposita grande confiança no funcionamento do sistema social e político.

Pode parecer um discurso anti-democrático, se pensarmos que em parte incentiva um certo tipo de inacção, mas também pode ser lido como um voto de confiança no funcionamento democrático da sociedade. Os designers podem confiar nos políticos, os políticos podem confiar nos designers. Ambos não interferem na actividade dos outros não por desinteresse, mas porque reconhecem neles maior capacidade e competência para resolver os problemas específicos da sua área de conhecimento. Claro que hoje esta é uma ideia ingénua, até utópica. É o mesmo positivismo europeu da música dos Kraftwerk, uma concepção social bastante mais comum nos países da Europa do centro e norte do que nos países de sul, onde não teve muita ressonância (em Portugal, por exemplo, terá tido imediatamente a seguir à adesão à CEE, mas como sabemos durou pouco).

É importante fazer esta distinção para que não se aponte o dedo a Crouwel como um totalitário do funcionalismo gráfico que ignora os problemas que existem para lá do seu trabalho. Fazer isso parece-me injusto, ou no mínimo precipitado. Não me parece que seja tanto um ignorar dos problemas como é uma cedência de responsabilidades ou competências. É uma ideia política porque subentende uma formulação da ordem social. Ao mesmo tempo, a renúncia à participação política é, paradoxalmente, uma opção política. Uma comparação pertinente são as pessoas que se abstêm numa eleição: a sua decisão (mesmo quando é feita por desinteresse) carrega consigo uma mensagem política e como tal é importante para o debate.

Entre as visões de Crouwel e van Toorn, não é possível realmente dizer que uma delas é a correcta. Hoje em dia é, de resto, habitual assumir esta posição de tolerância das diferentes abordagens à prática dos designers, o que, em parte, contribui para que não existam debates acesos e memoráveis como este. Pessoalmente, identifico-me mais com van Toorn, mas não posso afirmar que Crouwel está errado. São visões que, além de pessoais, são bastante bem fundamentadas e que se manifestaram em corpos de trabalho distintos que moldaram o panorama do design gráfico.

Quanto à pergunta do título, não chega apenas referir-me a esta análise do discurso de Crouwel. Esta linha de pensamento é política precisamente devido à sua negação de participação política, mas o que acontece quando o design não nega nem renuncia tal participação? É neste campo intermédio que grande parte da actividade, sobretudo comercial, do design se desenvolve. Crouwel articula um pensamento excepcional quanto à objectividade funcionalista do seu trabalho, mas tal como os abstencionistas que argumentam ideologicamente a sua atitude eleitoral, este caso não reflecte o pensamento da maioria.

O design é político por se referir quase sempre a um acto de comunicação público. O designer, como mediador de mensagens, encontra-se no ponto sensível da cadeia de comunicação onde a forma e o meio são definidos e trabalhados para que determinada ideia seja comunicável. Em muitos casos, é nas mãos do designer que o privado se torna público, acrescendo assim a responsabilidade de o fazer de forma consciente. O poder de intervenção neste processo é tal que se debate, como vimos, se o designer o deve ou não fazer, e não se é capaz de o fazer. É aqui que o trabalho do designer se torna político.

Não me interessa tanto definir que atitude política deve, então, o designer assumir. Considero mais importante que se adquira a consciência de que o design não é politicamente inocente, por assim dizer. A ele associam-se empresas, governos, pessoas, cadeias de produção, ideologias políticas e económicas, e por aí além. Tudo isto acarreta, por sua vez, consequências boas e más em áreas como a governação, a economia ou o ambiente. Tal como Wim Crouwel, o designer pode renunciar criticar ou intervir na mensagem do cliente, mas não pode negar que a está a viabilizar, a legitimá-la por omissão de uma posição relativamente à mesma.

Por esta lógica, deduz-se que tudo o que é público é político, o que me parece razoável. O English Dictionary da Penguin apresenta como primeira definição de political: “relating to government or public affairs.” (relativo a assuntos governamentais ou públicos). Isto vai de encontro à ideia defendida anteriormente de que toda a matéria pública é também matéria política. É importante perceber isto para que a democracia funcione em todos os espaços da nossa sociedade, para que nos interessemos e estejamos informados sobre as decisões que, em maior ou menor escala, orientam as nossas vidas. E aqui sim, oponho-me a Crouwel, não na especificidade do design, mas nessa noção de especialização que conduz a uma sociedade fechada, seguindo o lema de “cada macaco no seu galho”, limitando a participação e opinião política a um número reduzido de indivíduos que define o status quo.

Crouwel está certo ao defender que o designer não pode resolver todos os problemas do mundo, mas isso não significa que não possa contribuir para a procura de uma resposta. Ter uma consciência política é, na verdade, essencial para que os designers percebam o raio de acção da sua plataforma e não cederem à narrativa TED Talk de que o mundo se muda um gadget de cada vez. Como cidadãos, acima de tudo, os designers precisam desta consciência para orientarem a sua participação pública e política. O design não é esta participação, mas é uma parte importante dela.


  1. Baseei o exemplo principal deste texto na leitura do livro The Debate, a primeira transcrição do debate entre Wim Crouwel e Jan van Toorn publicada em inglês. Os temas e ideias do debate que eu aqui refiro de passagem são expostos e bem contextualizados neste livro. O Design Observer publicou quatro excertos do livro a propósito do seu lançamento:
  2. Excerto 1
    Excerto 2
    Excerto 3
    Excerto 4

Doing it for the $$$

Há quem ache que um designer só pode trabalhar por gosto àquilo que faz, o que torna legítimo assumir que ele o fará de graça. Recusar, por vezes, parece uma heresia. Onde é que já se viu, trabalhar por dinheiro? O que interessa é a “paixão”, a “experiência” e o afinar da “arte.” Com a crise acentuou-se esta linha de pensamento, mas por motivos ainda mais maliciosos. Na ignorância generalizada do público em relação à profissão de designer, encontrou-se uma forma de promover o trabalho mal ou não-remunerado sem grandes constrangimentos sociais.

O pior disto tudo é que os próprios designers jovens estão a cair na armadilha e a começar a acreditar que é mau pedir dinheiro pelo seu esforço. Por vezes encaram a empresa de qualquer badameco que inventou a pólvora como uma causa e não como um trabalho. É o tipo de conversa fiada daquelas ofertas de emprego que não dizem nada sobre o trabalho em si ou sobre as condições do contrato mas que descrevem muito bem e com sentido de humor muito apurado o espírito de camaradagem da equipa, onde toda a gente se trata por “tu” e são todos muito fixes e criativos e inspiradores. Sei de fonte segura que até na Menina Design Group faziam torneios de futebol.

Há situações em que o trabalho não-remunerado é aceitável, mas não me lembro de nenhuma em que a iniciativa não tenha de partir do próprio designer. Ou melhor, se alguém tem de me explicar porque é que eu devia aceitar trabalhar de graça num determinado projecto, então a resposta vai ser sempre não. Na verdade não tenho um grande problema em que me peçam para trabalhar de graça, mas sim que esperem à partida que eu aceite. Na maior parte dos casos não vou aceitar, mas é importante saber que a pessoa do outro lado está consciente do que pede e não parte do princípio que eu estou disposto a dedicar-me a algo nesses termos. Mas isto já é a diferença entre um convite e uma oferta, ou entre um projecto pontual e um emprego. Todo o discurso dos estágios e semelhantes “ofertas” serve para exercer pressão sobre jovens recém-licenciados de forma a aceitarem algo que, em condições normais, não aceitariam porque não teriam qualquer interesse nisso. Isto é exploração. É aí que os designers devem de assumir a sua responsabilidade: tentar educar quem não sabe e denunciar aqueles que sabem mas ignoram.

B is for…

Ando a ler um dos livros sobre design que se tornou num dos meus preferidos. Chama-se B is for Bauhaus e é uma espécie de clássico que reúne uma série de pequenos textos de Deyan Sudjic, o director do Design Museum de Londres, e que por ordem alfabética aborda uma série de assuntos do mundo moderno, oscilando entre os temas clássicos do design e da arquitectura até questões mais ligada à cultura pop. A maior parte dos capítulos são uma espécie de cruzamento entre as opiniões e experiências do autor com uma visão um bocado revista cor-de-rosa sobre os bastidores do mundo do design. Por exemplo, quando Sudjic fala do museu Guggenheim não se poupa a detalhes nos supostos romances, intrigas e traições que fizeram a história de um legado museológico que hoje em dia é mais conhecido por edifícios icónicos (Nova Iorque e Bilbao) do que pela sua identidade curatorial. Os textos dedicados a personalidades, como é o caso de Philippe Starck ou Le Corbusier, tendem muitas vezes a alongar-se nas questões pessoais e até íntimas, mas Sudjic fá-lo de uma maneira interessante, acabando sempre por revelar muita da política por trás das histórias que estamos fartos de ouvir. Conhecem-se acasos e mesquinhices que ajudam a ter uma perspectiva muito mais mundana sobre uma história saturada de mitos. Talvez seja uma das leituras mais leves sobre o assunto mas, num tom pessoal e divertido, faz-nos pensar mais sobre o design como um elemento participante do mundo moderno do que como uma disciplina isolada e distante do comum dos mortais, mesmo quando evidencia as diferenças entre um qualquer designer ou arquitecto super-estrela dos restantes comuns mortais.

Oportunidade perdida

1970376_830763003653043_8370630255021374592_n

Quando ontem me perguntaram a minha opinião sobre o novo logotipo para a cidade de Vila Real, Capital da Cultura do Eixo Atlântico em 2016, ainda não o tinha visto. Procurei-o e não foi fácil encontrá-lo, por ainda ter sido pouco divulgado, e (surpresa, surpresa) é algo extraordinariamente mau. No entanto, por pior que fosse, nunca iria ser mau o suficiente para que muita gente tirasse as devidas conclusões. Vou, por isso, tentar deixar a minha opinião sobre o significado de um desleixe tão grande. Faço-o partindo do pressuposto que é do interesse público haver esta discussão, e que todos têm igual legitimidade para nela participar, sem medo de estar a desrespeitar o trabalho e o esforço de ninguém. Não se trata disso; nunca se trata disso, ao contrário do que por vezes nos querem fazer crer.

Começo pela primeira pergunta que muita gente deve levantar, pelo menos para si próprio, quando alguém se refere a este assunto. Perante o anúncio de que Vila Real e Matosinhos vão ser capitais da cultura do Eixo Atlântico em 2016, que sentido faz reclamar com o logotipo? Não se deve enaltecer a boa notícia antes de criticar questões estéticas ou de gosto?

Quem pratica, lê, escreve ou se interessa sobre e por design, pode achar redutor fazer uma pergunta destas. Eu certamente acho. Mas parando para pensar melhor, devemos perceber que é dever destas pessoas que se interessam por design responder a esta pergunta. Sim, faz todo o sentido falarmos do logotipo, se ele nos incita a isso. Pode ser por ser muito bom, mas na maior parte dos casos é porque é muito mau. Acredito que esta razão é suficiente para justificar que alguém fale exactamente daquilo que queira falar, independentemente do que os outros achem suposto ser mais importante ou urgente.

No entanto, neste caso específico do logotipo da Capital da Cultura—e num sentido mais abrangente, em qualquer situação em que o design seja o assunto—existem outros motivos. O mais forte é precisamente o facto de um logotipo não ser apenas uma questão estética ou de gosto. É a cara de todo um projecto, é muitas vezes a sua primeira manifestação formal e acompanha-o em todos os momentos. Acima de tudo, um logotipo é a identidade (ou a tentativa de a representar) do sujeito a que se refere. Não podemos esquecer esta palavra, pois se a identidade de um projecto está em causa, o assunto não pode ser ignorado.

O design é uma disciplina com uma relação complexa com a crítica. A generalidade das pessoas olha para a crítica como algo negativo, talvez pela carga de significado mal interpretado que a própria palavra tem. Ainda assim, reconhece-se a crítica de cinema, de arte ou de literatura como algo mais ou menos “normal” e aceitável. Pelo contrário, a crítica de design, como discurso recente, não reúne muitos adeptos ou sequer conhecedores, e mesmo entre os designers, criticar não é um acto consensual. Diria, no entanto, que o papel da crítica no design tem uma importância que não se esgota no olhar posterior sobre algo—na teorização, chamemos-lhe assim—mas também contamina a prática, sugerindo novas formas de criar. O design crítico é um território pantanoso, mas muito habitado, onde gosto e estética não são factores decisivos. Raramente a crítica de design se debruça apenas sobre a especificidade do design.

O designer e crítico Michael Bierut escreveu, em 2006, um texto intitulado “Warning: May Contain Non-Design Content”. O texto pode muito bem ilustrar, e até substituir, muito do que eu tento aqui explicar, e aproveito a última frase como contributo para a discussão em causa: “Not everything is design. But design is about everything. So do yourself a favor: be ready for anything.” O logotipo de uma empresa ou, neste caso, de uma iniciativa institucional, não é apenas uma imagem que dispensa as pessoas de ler o nome da mesma. A sua carga simbólica (ou a ausência dela) é uma afirmação sobre o conteúdo. Um mau logotipo não simboliza uma má empresa, mas um logotipo desleixado dá-nos algumas indicações. A sua dimensão de objecto cultural tornado público coloca desafios de significado que não permitem que um logotipo, ou para este efeito, qualquer objecto de design, seja apenas um problema visual. O design existe e acontece em contexto com o tempo, o lugar, a política, a sociedade, etc. O design não pode ser ignorante do seu contexto, não pode viver da falsa inocência de ambicionar ser apenas bonito ou agradável.

Acho que isto fundamenta minimamente o motivo de o logotipo para “Vila Real: Capital da Cultura do Eixo Atlântico 2016” me causar tanta inquietação e de isso me fazer criticar a identidade gráfica antes de elogiar o acontecimento. Não me parece que isto ponha em causa tudo o que é, à partida, positivo num projecto destes. É claro que Vila Real e Matosinhos beneficiam de ser capitais da cultura, é claro que isto é uma coisa boa para toda a gente. Isto não significa que não haja coisas a serem mal feitas, e que ao serem mal feitas prejudicam muito do que será, eventualmente, excelente.

Para a ideia que gostava de passar aqui, pouco importa quem desenhou o logotipo. Na verdade, não me interessa criticá-lo exclusivamente como um exemplo de mau design, mas como um exemplo da total falta de pensamento estratégico habitual destas iniciativas institucionais no que toca ao design de comunicação. Acho que seria de esperar, num projecto dedicado à cultura, que houvesse algum cuidado com a imagem. Ainda assim, o que vemos à partida é um logotipo mau—péssimo—cuja falta de qualidade não se esgota naquilo a que muitos chamam de “avaliação subjectiva de gosto”, mas que nos dá indicações mais profundas sobre este Ano da Cultura. Desde logo, há uma ausência clara de algo a que se possa chamar um projecto de design. Foi feito um logotipo e pronto.

Esta marca gráfica que é, a partir de agora, a representação de Vila Real como capital da cultura, tenta ser tudo ao mesmo tempo e consegue não ser nada. Ignorando o facto de o logotipo ser mal desenhado, desequilibrado, desinspirado e bastante…feio—mesmo ignorando tudo isso—ainda há uma análise mais fria, do simbolismo da imagem, que não deixa de desiludir. Percebo que o tema do acontecimento ande à volta do vinho e do Douro, mas era mesmo preciso ter a cultura toda mergulhada num copo de tinto? Talvez fosse hora de mostrar que Vila Real pode ser uma cidade atractiva por diferentes razões: pelas corridas, pelo vinho, pela cultura… Em vez disso, optou-se por manter a antiga e nada ambiciosa identidade de uma região parada no tempo, onde tudo o que acontece deriva de uma actividade predominante que é a razão única para a existência desse lugar. Verdade seja dita, isto vai além do logotipo, e é já um problema político, mas estes são também problemas de design.

Chamaram-me a atenção para uma das notícias que anuncia a escolha de Vila Real e Matosinhos como capitais da cultura, e de como a mesma é uma descrição detalhada do logotipo. Lê-se assim: “100 eventos de teatro, música, cinema, dança e literatura que vão ter como mote principal o vinho e o Douro” (Lusa). O que é que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Poderia haver algo mais óbvio e imediato? Quem é que na cadeia de responsabilidades foi o primeiro a sentir-se satisfeito e orgulhoso com este logotipo?

Acima de tudo, este logotipo é uma oportunidade perdida. Mais uma. Para qualquer designer, ver um Ano da Cultura assim representado, é o mesmo que ouvir que esse ano não está pensado para si nem para a sua actividade. O design fica de fora, logo desde o início. Mais uma vez, as entidades responsáveis demonstram a sua total incapacidade de reconhecer o design como parte essencial e vital dos seus projectos. Já nem peço que se dedique programação ao design, mas ao menos que haja algum cuidado na criação da identidade do Ano da Cultura. Será pedir demasiado? Não me espantaria nada que no decorrer desta celebração se viesse falar de design, ou seja, dos concursos de cadeiras, da indústria mobiliária, das novas e entusiasmantes possibilidades que a disciplina representa (no fundo, aquilo que pode ser encontrado nas extraordinariamente banais introduções de Jorge Barreto Xavier ou de António Pires de Lima ao site do Ano do Design Português.) Pão e circo. No final do dia, nada muda com este logotipo, poucos esperariam sequer uma surpresa agradável. A sina parece estar escrita, o futuro continua a reger-se por critérios de mediocridade.

Design de vez em quando

Sei que isto já vem com atraso, mas tenho andado demasiado ocupado para me chatear com estas coisas. Hoje, finalmente, arranjei uns minutos para dar conta que os media portugueses preencheram a sua checkbox quinzenal relativa a artigos sobre design. Tudo por causa do cartaz dos Rolling Stones, projectado pelo estúdio Strongside Designs, a propósito da passagem da banda por Portugal. Não importa que a coisa seja feia, mal desenhada e, no geral, a síntese do gosto parolo das tias e tios que formam, de larga modo, a maior parte do público que paga para ver os Stones, muito ao estilo gabinete de curiosidades da música rock. Importa que tenha sido um português a fazer, e como a banda até é conhecida, exalta-se o orgulho nacional porque afinal até temos tão bons artistas. É mais um dos casos imensamente redutores da comunicação social a falar de design como nota de rodapé, mais como um apontamento na linha do discurso, para alemão ver, do quão bom povo nós somos. Agora é esperar mais três meses ou até que alguém se lembre que este, pelos vistos, é o ano do design. Entretanto, o resto dos designers fazem sabe-se lá bem o quê…

O museu 2.0

Sobre o debate de como abrir os museus à sociedade, pergunto-me se não se chegou a um ponto em que os museus pouco mais têm a fazer no assunto. Não que se tenha encontrado uma solução perfeita e se deva parar a procura, mas num sentido de inversão de papéis. Talvez o mais necessário seja apenas que os museus cedam ao público plataformas para que estes possam reinterpretar e reconstruir o museu em si. Existem mil e uma maneiras de desvirtuar esta espécie de chavão, com iniciativas que são apenas fogo de vista e não contribuem para um real questionamento da autoridade da instituição. O que importa procurar é um nível de convivência com o público que estabeleça uma proposta narrativa de partida, mas sempre disponível e aberta a análises críticas de públicos mais ou menos especializados. As exposições devem deixar de ser vistas para serem descontruidas e recontextualizadas, criando redes de interacção com os mais inesperados momentos e artefactos históricos e culturais. Este processo não só contribui para o entendimento do museu e do seu conteúdo, como pode criar novos conhecimentos, perspectivas inéditas que de outra forma estariam perdidas ou confinadas à divulgação em meios particulares reduzidos.

(Escrevo isto depois de ter assistido ao debate no MUDE com o tema “Como aproximar os acervos de design das pessoas?” Aí discutiram-se várias e boas ideias sobre este assunto, bem como exemplos práticos que sugerem caminhos específicos. Um destes casos é o projecto Zeitgeist, realizado na cadeira de História e Crítica do Design II leccionada pelo professor Frederico Duarte na FBAUL. Juntamente com a Laura Araújo, a Maria Dominguez e o Tiago Moura, participei neste trabalho com a proposta Design and Reflexivity, que é um dos trabalhos a integrar a primeira exposição online do MUDE, de visita obrigatória aqui.)

Abrir os olhos

O princípio ético que move a mais recente campanha de comunicação do Metro de Lisboa é altamente duvidoso. Ninguém põe em causa que a fraude seja uma coisa má, mas ninguém na empresa terá pensado nas razões que dão origem às fraudes? Ninguém terá pensado que muita gente não paga o passe porque 35 euros e não sei quantos cêntimos por mês pode ser demais numa frágil estrutura familiar a nível económico, cada vez mais comum em Portugal? E as várias deslealdades cometidas para com os trabalhadores e antigos trabalhadores, algo naqueles grandes olhos azuis reflecte essa realidade? Como se não se chegasse uma má mensagem, e vindo do Metro de Lisboa, há também um péssimo design, apresentado de uma péssima forma. Este genial press release fala de “teaser”, “buzz” e “claim”, entre outras formas tão vagas de tentar explicar o inexplicável que apenas tornam mais irrisório todo este fail de campanha. Escusado será dizer que o feedback dos utilizadores foi mais do que negativo, podendo-se tudo reduzir à velha, óbvia e gasta máxima: “quem tem telhados de vidro não atira pedras aos vizinhos.” Alguém precisa de sair do escritório e perceber que a degradação do serviço vem de uma péssima administração e política do mesmo, não dos utilizadores ou dos trabalhadores, como muitas vezes nos querem fazer acreditar, amiúde virando uns contra os outros.