A geração depois do fim

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Frame de Starship Troopers, Paul Verhoeven (1997).

“I’ve seen the future, brother: It is murder.”
The Future, Leonard Cohen (1992)

Há uma cena particularmente inquietante no filme Starship Troopers (1997) de Paul Verhoeven, na qual o protagonista Johnny Rico informa os pais de que se acabara de alistar no exército. A decisão, que quase certamente significava a sua morte, é simplesmente incompreensível para eles. Os jovens desta Buena Aires distópica são educados com um fervor nacionalista que glorifica a guerra e a expansão imperialista — uma motivação mais forte que o medo. Os pais que os tentam desencaminhar deste destino são retratados como traidores. Claro que Starship Troopers é uma sátira embrulhada nos maiores clichês estilísticos e ideológicos de Hollywood, algo que foi maioritariamente incompreendido aquando da sua estreia. Verhoeven pergunta como seria um filme de ficção científica produzido por uma sociedade fascista e apresenta em bruto um produto incrivelmente semelhante às grandes produções norte-americanas do pós-11 de Setembro. Tudo no filme é demasiado óbvio: há planos directamente copiados da obra de Leni Riefenstahl e a certa altura o actor Neil Patrick Harris aparece vestido com uma farda das SS alemãs. [1] As críticas, no entanto, debruçavam-se sobre o valor de produção, a qualidade do guião ou o talento dos actores (eles próprios desconhecedores das intenções do realizador). A enorme suástica metafórica carimbada em cada frame passou, e para muita gente continua a passar, totalmente despercebida.

A naturalidade banal com que o fascismo é encarado neste filme é o que o torna tão insuspeito. A crença cega de Johnny Rico no dever da guerra soa tão inacreditável aos seus pais como a carta que Magda Goebbels enviou ao seu filho Harald Quandt antes de se suicidar, explicando que não valia a pena viver num mundo sem o Führer ou o nacional-socialismo. [2] É o mal absurdo e real de Trump nos Estados Unidos ou do nome Hugo Boss, um dos principais produtores das fardas das SS [3], estampado no frasco de perfume que uso diariamente. A obra de Verhoeven, marcada também por Robocop (1987) ou Showgirls (1995), é das mais prescientes das últimas décadas. Starship Troopers apresenta uma profunda compreensão da infindável estupidez do fascismo total e de como ela se torna num apelo poderoso aos piores instintos do ser humano. Quando essa estupidez coincide com governos e movimentos autoritários emergentes, políticas discriminatórias e repressivas, catástrofes climatéricas implacáveis, guerras infindáveis ou o brutal desequilíbrio na distribuição da riqueza — fenómenos que pouco incomodam o resto do mundo que deles se pode alhear — temos então motivos para alerta.

Outrora, o futuro da democracia e da liberdade residiu numa memória histórica que foi sendo gradualmente descuidada, revisitada com má vontade e em última análise esquecida. Mais recentemente, o sector tecnológico começou a olhar para si como um último reduto de esperança na sobrevivência do ser humano livre. Em Silicon Valley, nos EUA, o projecto capitalista investiu de novo na ideia da sua auto-regulação, apresentando-se agora como agente subversivo de um sistema que pretende salvaguardar. É uma enorme pescadinha de rabo na boca, um conceito incoerente dissecado perante o grande público numa série de escândalos recentes. Google, Facebook e Twitter são questionados pelo seu tratamento de dados privados e ingerências anti-democráticas, Elon Musk perde gradualmente a cabeça em tempo real na internet e o co-fundador da Web Summit, Paddy Cosgrave, dá duas voltas à espinha entre convites e desconvites a Marine Le Pen. Comum a todos: o conforto no convívio com, e apoio a, movimentos repressivos de extrema-direita. O sonho liberal de um resgate tecnológico à moda de um blockbuster sci-fi vai derretendo como um gelado ao Sol quando confrontado com o poder do populismo etno-nacionalista. Marte não está assim tão perto e o corpo de Peter Thiel congelado à espera da imortalidade não nos traz grande conforto. [4] Mas claro que nada disto faz sentido desde o início: Silicon Valley é indissociável do poder, representa as suas faces mais obscuras, e só o grande desespero do abismo poderia levar-nos a pensar que pôr o futuro nas suas mãos era uma boa ideia.

O progresso tecnológico, bandeira máxima da razão contemporânea, só poderia desvendar o seu programa depois de conquistar pacificamente a geração que a pode sustentar. Não é raro ver os telejornais apresentar uma peça jornalística sobre a relação dos millenials com a tecnologia. Fala-se dos perigos, das possibilidades, dos novos talentos e das promessas de futuro… Mas o progresso é tão veloz que estas peças são sempre tentativas falhadas, evidências claras da total falta de compreensão que divide gerações. Além disso, reservam uma crítica tecnológica para efeitos menores de um aparelho ideológico que age numa escala bem mais alargada. A cultura online é hoje absolutamente massiva e move-se a um ritmo imparável. É impossível compreendê-la sem fazer parte dela, até para pessoas jovens e activas na rede como eu. Por isso acredito que não há maneira de imaginarmos sequer como o futuro imediato se vai desenrolar. Não sabemos tirar o pulso a quem somos. Herdámos o fim da História quando já a pata estava enfiada na poça de ataraxia neo-liberal de Tatcher e Reagan — uma era que foi tudo menos um ponto final. A vitória do capitalismo com a queda da União Soviética foi pírrica e simbolizou apenas o fim de uma narrativa que serviu de pouco perante os problemas graves que o globo enfrentaria nos anos seguintes, deixando para os vindouros a responsabilidade de segurar o castelo de cartas.

Ainda assim, enquanto geração, a nossa defesa acaba no diagnóstico. Para toda a genuína revolta e vontade de mudar, para todas as tentativas de propor modelos mais justos, parece haver uma cruel corrente contrária igualmente potente. E é claro que nós, geração, também não percebemos ainda a real dimensão do que se está a passar. Isso terá de mudar em breve, pois tudo se precipita rapidamente. Os alarmes não soam porque o fascismo não voltou sob a forma de 1984 nem de Admirável Mundo Novo, mas sim servida como a estupidez mergulhada em gorduras saturadas de Starship Troopers. Não se propagou pela imprensa do Estado ou por velhos académicos, mas penetrou no incontrolável solo fértil da cultura de massas. Não há razão nenhuma para acreditar que as injustiças do passado não serão perpetuadas por nós — nada nos distingue como melhores. Os filhos que herdaram o imenso poder e riqueza dos seus pais estão hoje em posições privilegiadas para silenciar os restantes e são os primeiros a contestar qualquer definição do Mal que os identifique como o inimigo.

Dizem-nos que não podemos gastar as palavras, que lhes sugamos o significado e anulamos o seu poder. Há quem não goste que se diga “fascismo” e reserve o adjectivo para parcelas hermeticamente seladas da História, reduzidas a erros pontuais para que ninguém se atreva a pensar que são a norma. Ainda assim, mesmo que nos queiramos cingir a uma definição convencional de fascismo enquanto violência colonial aplicada domesticamente através da perseguição de bodes expiatórios, vemos que tal acontece abertamente perante os nossos olhos. Como os nazis perseguiram os judeus, o governo norte-americano persegue os migrantes da América Central e do Sul, vários líderes europeus assumem querer esvaziar o continente de qualquer presença muçulmana e nas Filipinas Rodrigo Duterte compara-se a Hitler enquanto ordena o assassinato de centenas de traficantes e utilizadores de droga. Aconteceu tudo como antes: ambições imperialistas, guerras inúteis e uma recusa geral em aceitar que o sistema capitalista não permite a libertação deste ciclo. O status quo esteve sempre mais confortável a apoiar reacções de extrema-direita do que a dissolver o sistema económico que gera toda esta violência — foi assim que o fascismo desmontou, no século XX, toda a força do movimento proletário descontente com as circunstâncias económicas do pós-guerra. É assim que o está a fazer agora: com dinheiro, poder e repressão — e uma resposta fácil a problemas complexos.

O convite original que me fizeram para este texto pedia que escrevesse acerca do que mudou nos 3 anos desde a última vez que o fiz, para a exposição de finalistas Agora, irrepetível. [5] Fi-lo outras vezes entretanto e revejo-me em muito pouco do que escrevi. Quando se escreve sobre a geração é fácil acabar a dar conselhos que ninguém pediu ou a lamentar as nossas próprias inseguranças. Por isso não correspondi a esse pedido — porque sinto que não tenho assim tanto a dizer, porque não me considero sequer de uma geração diferente dos finalistas deste ano e porque me parece que os discursos da geração são um escape reaccionário a discussões concretas sobre política e poder. Mas há algo a apontar. As circunstâncias do nosso universo próximo podem ter melhorado em alguns aspectos e piorado noutros, com uma sensação tendencialmente positiva. Mas não é possível estar tranquilo quando vemos que à nossa volta tudo está a ruir e o autoritarismo violento ressurgiu em locais e de maneiras impensáveis. É preciso ser muito ingénuo para achar que o nosso país nunca cometeria o mesmo erro. A última vez que o cometeu não foi assim há tanto tempo. Derrotar o fascismo do século XXI, em todas as suas formas. É esta a maior urgência da minha geração, que no fundo é toda a gente que está viva ao mesmo tempo que eu. Toda a ansiedade geracional — ou se lhe preferirem assim chamar, esta crise de identidade — acontece porque percebemos no fundo que os desafios que se adivinham são excepcionais. Acredito, no entanto, no poder desta crise. Talvez ela carregue a inquietação necessária para uma verdadeira ruptura. É essencial que sirva para deixar de procurar o valor de uma geração na comparação com as anteriores, pois isso serve apenas aqueles que querem pouco que as coisas mudem. Não estamos confinados à escolha binária de ser o filho que parte para a morte ou o pai que esconde a culpa atrás da repulsa — temos a responsabilidade de abandonar velhos dogmas para evitar horrores do passado. O futuro não é garantido, mas podemos conquistá-lo.


[1] How we made Starship Troopers em The Guardian. Paul Verhoeven, 22-01-2018. [disponível em: https://www.theguardian.com/culture/2018/jan/22/how-we-made-starship-troopers-paul-verhoeven-nazis-leni-riefenstahl]
[2] Letter from Magda Goebbels to Harald Quandt. Magda Goebbels, 1945. [disponível em: http://www.worldfuturefund.org/Reports/lastletter.htm]
[3] Fashion at War: Crafting the Nazi Brand. Alexa Karolinski e John Walter, 2017. [disponível em: https://m2m.tv/watch/fashion-at-war-crafting-the-nazi-brand/films]
[4] The Men Who Want to Live Forever em The New York Times. Dara Horn, 25-01-2018. [disponível em: https://www.nytimes.com/2018/01/25/opinion/sunday/silicon-valley-immortality.html]
[5] Quanto tempo passou desde agora? em “Agora, irrepetível. A juventude, o design e a sua prática”. Edição FBAUL/Sofia Gonçalves, 2015. [disponível em: https://biomorphism.wordpress.com/2018/03/24/quanto-tempo-passou-desde-agora/]

Este texto foi redigido para o jornal da exposição Crise de Identidade, organizada pelos finalistas de Design de Comunicação da FBAUL em 2018.

Quanto tempo passou desde agora?

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Nota prévia:
Este ensaio foi redigido em 2015 para o livro dos finalistas de Design de Comunicação da Faculdade-de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. O livro fazia parte de uma série de iniciativas, como uma exposição, debates e um documentário, agregadas sob o título Agora, irrepetível. Enquanto um dos finalistas desse ano, tentei neste texto captar o sentimento de uma geração, ou pelo menos dos colegas que me rodeavam. Hoje continuo-me a rever em algumas das ideias aqui expostas, noutras nem tanto. Não esperava outra coisa. Partilho o texto sem alterações, pois considero-o um documento mais útil no seu estado original do que revisto aos olhos da actualidade. O mais certo é que qualquer revisão feita agora esteja desactualizada daqui a 3 anos.

Agora, irrepetível.http://agorairrepetivel.belasartes.ulisboa.pt/
Comprar o livro: http://loja.belasartes.ulisboa.pt/agora-irrepet%C3%ADvel-2

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O limite da paciência

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“If you want to be important — wonderful. If you want to be recognized — wonderful. If you want to be great — wonderful. But recognize that he who is greatest among you shall be your servant. That’s a new definition of greatness.”

Estas palavras foram proferidas por Martin Luther King Jr. a 4 de fevereiro de 1968, num sermão conhecido como “The Drum Major Instinct”, por sua vez uma adaptação de uma homília escrita por J. Wallace Hamilton em 1958. São também elas que, na voz do próprio Martin Luther King Jr., dão o pano de fundo para o anúncio televisivo às novas carrinhas Dodge Ram, emitido na última edição do Super Bowl, o maior evento desportivo e mediático da televisão norte-americana. A reacção negativa à utilização deste discurso para vender automóveis fez-se sentir imediatamente. A desconexão completa entre as palavras de MLK e as imagens evocativas do ideal americano, incluindo a habitual homenagem às tropas (MLK era um anti-militarista convicto) e o slogan final “Built to serve”, extravasava a hipocrisia que normalmente é tolerada nestas situações, levando o anúncio para o campo do absurdo involuntário e do insulto.

Será ingénuo olhar para esta hipocrisia absurda como uma coisa nova. O mundo publicitário há muito que é conhecido pela forma como subverte mensagens radicais para vender qualquer tipo de produto ou serviço. No entanto, este anúncio reflecte uma excepcional aceleração da realidade às mãos de quem tenta desesperadamente colar com fita adesiva os pedaços de um mundo ideal que ruiu perante os nossos olhos. Os eventos políticos dos últimos anos — entre eles o “Brexit” e a eleição de Donald Trump — provaram o quão fácil é dar um passo civilizacional atrás, incluindo em países que se orgulhavam de guiar o resto do mundo no caminho do progresso. Normalizou-se uma incredulidade com a maldade emergente, a incompetência dos líderes mundiais e a vampirização do capitalismo tardio. Nada de novo, se pensarmos que continuamos a dormir bem à noite com a fome no mundo, a destruição do ambiente ou a gigantesca acumulação de riqueza nos bolsos de 1% da população.

Talvez pareça um exemplo rebuscado, mas trago para aqui o anúncio da Dodge porque ele é um espasmo moribundo desse discurso que já não consegue lidar com as suas próprias premissas fraudulentas. O discurso dominante que durante décadas ignorou as franjas de uma sociedade fragmentada e agora se vê cercado pelas mesmas. Por outras palavras, houve muita gente a perder a paciência. Infelizmente, temos hoje que nos consciencializar que a alternativa posta em prática é muitas vezes maquiavélica e violenta, especialmente para aqueles que historicamente têm menos defesas contra essa mesma violência. Um grupo muito grande de pessoas para quem se calhar o mundo já era tão mau que este retrocesso não tem qualquer significado maior. Nesse sentido, talvez o mais provável é que não estejamos sequer perante uma alternativa, mas antes uma concretização da forma pior de um sistema que nunca procurou realmente o bem comum. A verdade é que um discurso nacionalista e xenófobo na Polónia faz pouca diferença à família no Iémen que há anos vê a morte chegar dos céus sem aviso nem razão.

Vemo-nos então num estado de choque perpétuo com a piada de mau gosto que é este mundo cheio de contradições. O grande desafio da geração que começa agora a tomar as rédeas do poder é ser capaz de as reconhecer, de abandonar de vez o pensamento mágico instituído num qualquer progresso que ninguém vê e ao mesmo tempo imaginar uma alternativa mais justa. E é preciso perceber que o tempo urge. Por isso mesmo há que enfrentar com convicção as questões inquietantes deste paradigma absurdo. É preciso voltar ao grau zero e ouvir as vozes indignadas que sempre falaram na surdina. Uma batalha que se faz em casa, na fábrica, no campo, na cidade, na escola. Uma batalha obrigatoriamente interseccional, para a qual não há fórmulas universais, nenhuma resposta definitiva que eu, ou alguém, possa aqui debitar. E por isso também devemos evitar o perigo de banalizar o momento com ideias demasiado abstractas que nunca se traduzem em acção. A pergunta que se coloca é a de sempre: o que fazer

Pensemos no espaço que habitamos…

Uma escola de artes como esta encontra-se demasiadas vezes encalhada na possibilidade da sua participação. Nem sempre é claro como é que um artista ou um designer pode contribuir com o seu trabalho para a definição desta alternativa. E embora haja pensamento útil sobre esta mesma questão, é mais uma vez difícil sintetizá-lo em respostas que ajudem qualquer pessoa que esteja a ler este texto. Conhecemos determinados princípios éticos e servimo-nos do bom senso, mas no final do dia cada indivíduo acaba por encontrar a sua forma específica de trabalhar para a comunidade que o rodeia. Ainda assim, acredito que há uma responsabilidade primeira e fácil de assumir. É essencial que os estudantes construam no espaço da escola o modelo que querem ver aplicado no mundo. Não é mais suportável aceitar uma escola pública negligenciada, onde os alunos têm cada vez menos condições de trabalho e os docentes e funcionários se vêem em situações profissionais cada vez mais precárias. Se por vezes sentimos que algo está mal, que a Academia se desliga do mundo à sua volta, recolhendo a uma posição de conforto distante, é porque isso é verdade. E não precisamos sequer de começar a falar de ideologia para perceber esta desresponsabilização política. Que voz têm tido as nossas universidades no debate por uma habitação a preço justo, especialmente em grandes cidades como Lisboa? Quantas vezes ouviram um presidente ou reitor a defender os seus alunos e as suas famílias, sobre quem se abate um custo de vida insuportável, já para não falar das propinas? Se a tendência do encarecimento continuar, quanto mais tempo esperam eles que os alunos aceitem pacificamente estes sacrifícios? Numa escola como esta não é sequer assim tão difícil criar comunidade e agir colectivamente, não é difícil chegar aos ouvidos do “poder” e não é difícil agir directamente.

Na tentativa de participar politicamente através do nosso trabalho sem olhar às condições que lhe dão origem, corremos cada vez mais o risco de acabar a vender carrinhas de alta cilindrada como quem quer mudar o mundo. Andamos constantemente a procurar formas de individualmente nos posicionarmos e por vezes esquecemo-nos que só numa união solidária e determinada podemos realmente fazer a diferença. As Belas-Artes nunca tiveram problemas em reflectir sobre si próprias, de repensar infinitamente as suas posições filosóficas e culturais. Não terão então, certamente, dificuldade alguma em identificar os problemas concretos e materiais que afectam as pessoas que constituem as Belas-Artes. Para lá das especificidades de cada disciplina que se ensina e aprende nesta casa, urge combater pelo que é comum. Porque não há razões para acreditar que o ensino público esteja seguro, nem o direito à habitação, ao trabalho ou à alimentação. Muito menos à felicidade. Quando essas necessidades se transformarem definitivamente em insuficiências, poucos terão paciência para ser artistas ou designers. Por isso é melhor perder já a paciência com as promessas adiadas da austeridade. Perder a paciência com um discurso que pinta o diabo a quatro aos estágios não-remunerados enquanto sustenta um sistema que deles depende. Perder a paciência com as intermináveis alusões às rupturas históricas por vozes profundamente conservadoras que se opõem à mínima mudança. Perder a paciência com a discriminação que tanta gente ainda sofre à nossa volta. Perder a paciência com quem continua a criticar a escola de artes como um espaço elitista e alheado da realidade — sendo que há apenas uma forma de o fazer: provando através das suas acções que de facto não o é.


Texto escrito para o número 3 da revista Cisterna, com o tema “Limites”, uma publicação da Associação de Estudante da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa.

Olaria de Bisalhães: uma correcção e alguns apontamentos

Numa discussão no seguimento do meu texto anterior sobre a olaria de Bisalhães, fui encaminhado para um documento da candidatura à classificação pela UNESCO que prevê um possível programa de investimento, relativamente detalhado, no sentido da salvaguarda e promoção do ofício. Não é, portanto, verdade o que disse acerca da inexistência de uma estratégia de investimento que acompanhasse o valor anunciado. No fim do texto fica o link para o documento de candidatura. Este documento reúne também conclusões de levantamento sobre a actividade. Destaco a importância do capítulo “2. Need for urgent safeguarding”, que aponta para os motivos da decadência da actividade, e para o capítulo “3.a. Past and current efforts to safeguard the element” que descreve algumas medidas recentes. Não é ainda o estudo de levantamento desejável a que me refiro no texto anterior, pois este deve ser mais completo e aprofundado, além de prever uma recolha multimédia e de material físico, além de outros elementos que naturalmente não cabem numa candidatura. Diga-se ainda que tal levantamento prevê também uma reunião de material teórico já produzido e publicado, não se substituindo, quando ele existir, ao conhecimento adquirido por anteriores estudos e investigações. Ainda assim, os capítulos que referi antes são excelentes pontos de partida para este estudo cuja enorme relevância prevalece no estado actual do ofício, em linha com a longa história que antecede o panorama actual.

Reforço ainda que o meu cepticismo não visa desacreditar o trabalho em curso. Esta classificação da UNESCO é uma oportunidade única, talvez a última, para salvaguardar e reactivar a olaria de Bisalhães. Como tal, e dada a urgência da acção, não gostava de a ver desperdiçada. Nestes primeiros meses deve-se aproveitar a exposição do assunto para iniciar uma discussão mais alargada, que convoque uma maior variedade de pessoas e opiniões. Não é tempo perdido, é conhecimento ganho. Como já tive oportunidade de sugerir em conversa com uma das pessoas envolvidas no processo de candidatura, um bom começo seria disponibilizar este documento em língua portuguesa, num layout mais acessível e disponibilizando vias de comunicação com a CMVR, que eventualmente culminassem num grande fórum de debate e reflexão sobre este programa.

O documento de candidatura em causa pode ser lido aqui.

Olaria de Bisalhães: a roda dá mais uma volta

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® CMVR

Apesar de lhe ter sido adivinhada uma morte lenta há já vários anos, a técnica ancestral da olaria negra de Bisalhães nunca deixou de ser usada como traço identitário da região transmontana, em particular de Vila Real. Referido muitas vezes como um factor único e distintivo, o barro preto é daqueles dispositivos emocionais que pela sua simbologia sempre dispensaram grande conhecimento factual sobre a matéria. Talvez por isso não seja tanto do conhecimento popular local o facto de que se produz olaria negra em Molelos, concelho de Tondela, ou mesmo na Catalunha, para apenas referir dois exemplos. É certo que especificidades técnicas e materiais distinguem a produção da olaria em diferentes locais, mas a ideia de que só existe barro negro em Bisalhães é um mito em que muita gente não pensa realmente mas que no qual mesmo assim acredita. Além disso, a iconografia do barro preto dispensou também uma preocupação efectiva com o estado da arte, não tendo havido esforços reais para estudar, compreender e ouvir os artesãos para que posteriormente se tomassem medidas de salvaguarda de um ofício condenado pela idade avançada dos oleiros e por um apelo decrescente a este tipo de produção artesanal.

É portanto bem recebida a notícia de que o processo de confecção do barro preto de Bisalhães integra agora a lista do património cultural imaterial em necessidade de salvaguarda urgente da UNESCO. Quando as notícias sairam de Adis Adeba, onde a decisão foi anunciada, e chegaram aos ouvidos transmontanos, seguiu-se naturalmente alegria e congratulação popular e institucional. Como se décadas de negligência e desinteresse chegassem agora a um abrupto fim, o barro preto parecia salvo. Mas quando o anúncio de um fundo de 370.000 euros a investir até 2020 não se faz acompanhar de qualquer tipo de intenções programáticas concretas ou de uma visão estratégica fundamentada, não é tão certo assim que dentro de três anos a olaria de Bisalhães seja mais que uma reminiscência poética e identitária, sombra do seu passado, exactamente aquilo que é hoje.

Isto não retira qualquer crédito à iniciativa que conseguiu dar sucesso a esta candidatura, um sinal muito importante de alguma mudança de atitude que estava certamente em falta. Todos estão, naturalmente, de parabéns. Dito isto, só sem grandes euforias se pode dar o passo seguinte no caminho certo e, a julgar por sinais do passado, vejo mais razões para uma preocupação céptica do que para uma alegria incondicional. Uma política cultural deficiente ou praticamente inexistente tem sido obscurecida por um aparente aumento de eventos culturais. As duas coisas não devem ser confundidas. Terminou há algumas semanas o ano de Capital da Cultura do Eixo Atlântico em Vila Real e se, de alguma forma, no futuro nos lembrarmos que ele sequer aconteceu, será para perceber o grande fiasco que constituiu. Novamente, mais coisas a acontecer, algum dinheiro a circular, mas quando tudo acaba, nada mudou. Não houve um repensar do espaço da cultura numa cidade onde ela existe em défice, não se trabalhou no sentido de unir e consolidar os vários agentes e espaços culturais da região, que continuam a caminhar cada um para o seu lado, e não se promoveu um contacto com diferentes expressões artísticas e culturais. A maior parte destas questões, para não dizer todas, não foram sequer debatidas publicamente.

O desafio com a olaria de Bisalhães é muito maior do que o de uma Capital da Cultura onde a desilusão já era um resultado expectável. Se até 2020 o plano de acção for o mesmo, e se os responsáveis por o implementar continuarem a dar palmadinhas nas costas dessa criatura que é a cultura local auto-celebrada, esta data poderá ser lida como um fim definitivo, sem que qualquer futuro se adivinhe para a técnica e tradição aqui em causa. Mais concretamente, é essencial que não se cometa o erro de começar imediatamente a implementar projectos de incentivo à produção que reinterpretam e recontextualizam o ofício sob esse grande e perigoso guarda-chuva do design. O ponto de partida que se impõe nesta caminhada é o do levantamento no local, a documentação técnica e etnográfica realizada por uma equipa multidisciplinar. Não basta apontar para estudos académicos já existentes sobre o barro preto, a Câmara Municipal de Vila Real tem agora a obrigação de produzir “o” estudo sobre a olaria de Bisalhães que será referência futura. Como tal, não poderá estar comprometido pela ânsia de fazer, promover e vender — isso vem depois. Este processo terá ainda de se centrar nas pessoas envolvidas na produção das peças, nos seus conhecimentos, na sua experiência e nas suas propostas para o futuro. Ao contrário do que aconteceu até agora, é essencial que se deixem de lado os egos de gabinete, algo que será particularmente interessante de avaliar agora que entramos em período pré-eleitoral para as próximas eleições autárquicas.

Só depois de ser realizado um levantamento extenso e detalhado é que se poderá avaliar um plano de acção para promoção e salvaguarda do ofício, integrando as instituições culturais e a indústria local num papel de renovação. Isto não significa que a sua participação se inicie depois do levantamento, bem pelo contrário. Instituições estabelecidas, como os museus, e novos agentes, como é o caso da ‘startup’ Bisarro que se tem vindo a destacar nas produção de objectos contemporâneos em barro preto, devem ser integrados no processo de estudo para que a sua intervenção posterior possa ser consciente e consequente, nunca desligada da realidade artesanal que é, em última análise, guardiã da verdadeira herança de uma técnica ancestral cuja identidade se construiu no tempo. Mais uma vez, distanciar a produção teórica do conhecimento prático é um tiro no pé; a CMVR tem a responsabilidade de construir esta ponte.

No imediato, ficarei contente se ouvir menos conversa sobre “novos designs” e mais discussão sobre estratégia de acção. Para mim, tudo terá de começar no terreno, sem pressas e precipitações, procurando medir o pulso a este ofício e aos seus protagonistas. Quanto ao que vem a seguir, não tenho certezas, mas tenho certeza que esta abordagem ajudaria todos a ficarem mais esclarecidos. Exemplos disto não faltam, posso falar deles noutra altura. Por agora, reforço a minha provocação fundamentada — estou céptico e preocupado, mas vou esperar para ver. Obviamente, participarei sempre que houver oportunidade, plataforma e relevância em fazê-lo, como penso que devem fazer todos os que se interessam e querem garantir a sobrevivência saudável da olaria de Bisalhães. Isto lembra-me de outra certeza que tenho: a história do barro preto não se escreveu em Adis Adeba.

Quantos centros tem o mundo? [4/4]

A exposição de ideias que se segue é a terceira parte de uma leitura do discurso de David Foster Wallace aos finalistas de 2005 no Kenyon College, nos Estados Unidos, intitulado A Água É Isto. A partir daí, foi reunido um conjunto de referentes, sobretudo textuais, que se interligam numa narrativa que pretende encontrar propostas de ensino para o design. O texto aqui apresentado foi adaptado de uma versão mais longa, que foi revista e comentada por Sofia Gonçalves, e pretende funcionar como o guião para uma apresentação pública. “Quantos centros tem o mundo?” foi um projecto editorial académico desenvolvido em 2015, em parceria com Laura Araújo e João Rodrigues, e materializou-se numa publicação impressa, acompanhada de um anexo digital — algumas imagens do resultado podem ser vistas aqui.

Ler Parte I: Discurso—Apresentação Pública
Ler Parte II: Assunto — Micro-narrativas
Ler Parte III: Implicações—Existencialismo


Parte IV: Proposta—Ensino

A conferência “Design  at Works”, organizada pelo ICOGRADA em 1978, em Chicago, EUA.
A conferência “Design at Works”, organizada pelo ICOGRADA em 1978,
em Chicago, EUA.

Aproximamo-nos do fim desta exploração, e por isso vamos procurar esboçar a nossa proposta de ensino. Esperamos assim atar o nó que liga o discurso de David Foster Wallace ao design, depois de termos feito um grande desvio crítico que nos vai ajudar agora a encontrar uma possível conclusão.

[Não vamos descrever aqui um manifesto educativo, deixaremos apenas um conjunto de ideias no ar, que cada um poderá interpretar de forma crítica no contexto do que foi anteriormente dito. Vamos, no entanto, ter como ponto de partida precisamente um manifesto.]

Fundada em 1963 por Peter Kneebone, a ICOGRADA apresentou-se ao público com uma conferência em 1964, em Zurique. A ideia era organizar uma rede internacional para designers, onde estes pudessem comunicar e reflectir sobre qualquer questão. Esta organização levou a cabo diversas actividades todos os anos desde o seu aparecimento, abordando uma temática específica e levantando questões relacionadas com as mudanças em curso à volta do globo.

[Em 1978, no congresso “Design that works!”, realizado em Chicago, foram convidados Josef Müller-Brockmann, Milton Glaser e Massimo Vignelli para falarem sobre a dimensão social do design. Os participantes do seminário foram confrontados com a pergunta “Is Graphic Design a Reflection of Society or a Factor in its Evolution?”]

Em 2011 é publicado o Icograda Design Education Manifesto (uma outra versão tinha sido publicada em 2000), no qual se destaca uma preocupação em caracterizar a prática dos designers de comunicação e por outro lado salvaguardar um ensino de qualidade para os futuros designers. As principais preocupações manifestam-se na procura do pensamento crítico, da participação social e do acompanhamento do devir global.

“New opportunities and challenges confront the designer. Changes over the last decade have profoundly a ected communication design.” Design Education Manifesto (2011), ICOGRADA

Este documento sugere boas indicações para o ensino, mas podemos ainda construir sobre ele. Da leitura que fazemos do manifesto, emerge a necessidade de re-enfatizar algo que já antes referimos, o papel do designer como cidadão antes de tudo.

A nossa exploração do texto de David Foster Wallace procura exactamente retirar o design da sua esfera de exclusividade e da sua existência auto-legitimada. Na conclusão que podemos arriscar, existem dois tópicos que merecem destaque: o lugar e os valores.

Quando nos referimos ao lugar, falamos em promover a contextualização no espaço e no tempo do ensino do design. Desta forma pode ser construída uma rede global de designers aptos a partilhar conhecimentos e experiências relativos às micro-narrativas existentes. Activando a comunicação dentro desta comunidade, e abrindo-a à sociedade, o designer individual acede a uma rede que lhe permite compreender, ou pelo menos verificar, a existência de realidades paralelas, o que por um lado lhe dá uma maior humildade perante o mundo como um espaço habitado por pessoas diferentes, e por outro lhe dá as ferramentas para exercer a sua função de forma assumidamente social e, logo, mais consequente.

Fotograma de Optical Poem, de Oskar Fischinger
Fotograma de Optical Poem, de Oskar Fischinger

O diálogo é vital para que este processo possa funcionar. As ferramentas tecnológicas ao nosso dispor, actualmente e no futuro, desempenham também um papel importante, como seria expectável. A internet e o conceito de importação/exportação estão profundamente interligadas com a nossa experiência da multiplicidade de realidades. Lev Manovich, num texto intitulado precisamente de Import/Export, contextualiza este cenário tão profundamente modelado por dois comandos virtuais. No essencial, dois comandos que simplificaram os processos de comunicação globais, uma espécie de Esperanto que funcionou de facto.

[Também Jean-François Lyotard aborda o assunto em A Condição Pós-Moderna, falando de uma cultura input/output, paradigma das sociedades pós-modernas.]

“Although import/export commands appear in most modern media authoring and editing software running under GUI, at first sight they do not seem to be very important for understanding software culture. You are not authoring new media or modifying media objects or accessing information across the globe, as in web browsing. All these commands allow you to do is to move data around between different applications. In other words, they make data created in one application compatible with other applications. And that does not look so glamorous. […] It turns out that the largest part is import/export business (more than 60%). More generally, one commonly evoked characteristic of globalization is greater connectivity—places, systems, countries, organizations etc. becoming connected  in more and more ways. And connectivity can only happen if you have certain level of compatibility: between business codes and procedures, between shipping technologies, between network protocols, and so on.” Import/Export (2006), Lev Manovich

A tecnologia encurta as distâncias mas não anula os lugares, potencia-os. À semelhança de Stuart Hall, acreditamos que estes processos globalizadores não invalidam as identidades locais, apenas as tornam híbridas e imprevisíveis. O lugar no espaço e no tempo, concretizado pelo diálogo. A nossa primeira proposta orienta-se então neste sentido.

A segunda proposta restabelece uma ligação mais próxima ao discurso A Água é Isto, e refere-se à questão dos valores. Em primeiro lugar, tentamos perceber de que forma os valores propostos por David Foster Wallace — compreensão, tolerância, compaixão — podem ser também valores aplicados no design.

Como é que podemos renunciar ao pensamento por defeito para construir um discurso mais adequado através destes apontamentos de uma posição comunitária ideal? A resposta encontra-se em pontos que tocámos anteriormente, sobretudo no que diz respeito à relação com o outro, que quando bem gerida permite que aconteçam diálogos construtivos.

Torna-se essencial desconstruir progressivamente os preconceitos que minam as relações pessoais, culturais, religiosas, etc. A forma como estes valores se tornam valores de design é também muito simples: estes são problemas de todos os seres humanos, questões verdadeiramente universais. Como qualquer outro cidadão, o designer deve recorrer ao seu conhecimento adquirido, à especificidade da sua prática, para os abordar da forma mais adequada. O ensino do design não pode nunca esquecer este facto equalizador e profundamente humanizante.

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Mas quais são então os valores que o ensino do design deve ter como prioritários? Talvez seja demasiado arriscado fazer aqui uma enumeração. Como vimos, os problemas da sociedade contemporânea são incrivelmente complexos, difíceis de identificar e com implicações tão diferentes quantas as realidades que existem. Este texto dá apenas conta de uma ínfima parte dessas realidades.

A grande pergunta que orientou esta pesquisa não pode ser respondida, pelo menos não de forma esclarecedora. Não sabemos quantos centros tem o mundo. O importante é termos consciência desta ignorância. Aprender a pensar é ganhar essa consciência.

Para uma escola aprender a ensinar a pensar, é necessário discutir modelos ou o seu abandono, reinterpretar as noções de professor, aluno ou sala de aula, confrontar expectativas em todos os momentos, não temer o absurdo. Mas acima de tudo, terá de ser sempre uma escola que não deixe de perguntar o que é a água.

Quantos centros tem o mundo? [3/4]

A exposição de ideias que se segue é a terceira parte de uma leitura do discurso de David Foster Wallace aos finalistas de 2005 no Kenyon College, nos Estados Unidos, intitulado A Água É Isto. A partir daí, foi reunido um conjunto de referentes, sobretudo textuais, que se interligam numa narrativa que pretende encontrar propostas de ensino para o design. O texto aqui apresentado foi adaptado de uma versão mais longa, que foi revista e comentada por Sofia Gonçalves, e pretende funcionar como o guião para uma apresentação pública. “Quantos centros tem o mundo?” foi um projecto editorial académico desenvolvido em 2015, em parceria com Laura Araújo e João Rodrigues, e materializou-se numa publicação impressa, acompanhada de um anexo digital — algumas imagens do resultado podem ser vistas aqui.

Ler Parte I: Discurso—Apresentação Pública
Ler Parte II: Assunto — Micro-narrativas
Ler Parte IV: Proposta—Ensino


Parte III: Implicações—Existencialismo

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Sísifo, por Ticiano.

[É altura de recuperar o nosso subtítulo: “Como ensinar a perguntar o que é a água”. Esta indicação nasce de uma pergunta que despoleta esta exploração, omitida do título mas não menos importante: “Que propostas educativas podemos auferir do discurso de David Foster Wallace?” Por fim é importante referir que todo este conteúdo é analisado no âmbito da disciplina do design. As proposta que procuramos devem ser aplicadas no processo de ensino aos designers, mas não é por acaso que excluímos o design da discussão. Interessa-nos perceber primeiro quais são as grandes problemáticas universais levantadas por David Foster Wallace. Queremos entender estas questões no âmbito da cidadania e do humanismo, e só depois encontrar o papel que pode ser desempenhado pelos designers.]

Neste ponto da nossa narrativa, chegamos a uma grande encruzilhada, onde posições paradoxais parecem impedir-nos de encontrar soluções para estes problemas. As grandes crises do Pós-Modernismo conduzem a posições eminentemente niilistas, de grande questionamento e insegurança. A condição contemporânea é esta dúvida. Mas esta dúvida a que podemos chamar, sem qualquer tipo de pretensões, de existencial, é a chave para encontrar o lugar do design, por direito e por dever.

Exacerbamos aqui a procura de uma inquietação existencialista no design como forma de constante evolução — descobrir porque fazemos o que fazemos para o podermos fazer melhor. Isto deriva também, e em grande parte, da ideia de “aprender a pensar”, numa acessão de constante interrogação e incerteza.

O discurso de David Foster Wallace sugere uma problemática existencialista que não deve ser posta de parte quando se pensa o design. As irritações mundanas do supermercado têm tanto impacto nas nossas vidas como as nossas grandes ambições ou os nossos grandes medos. É precisamente aqui que não devemos olhar para o lado, menosprezando este lado obscuro da vida adulta.

O tabu deve ser quebrado, apesar de todo o desconforto causado por temas como o suicídio ou a depressão, David Foster Wallace mostra-nos que só discutindo abertamente podemos começar a compreender a dimensão humana da vida contemporânea. Ao perguntar o que é água perguntamos também porque fazemos o que fazemos e porque devemos continuar a fazê-lo. A resposta será sempre especulativa e até evasiva, o que não significa de maneira nenhuma que devemos deixar de a procurar.

“It happens that the stage sets collapse. Rising, streetcar, four hours in the office or the factory, meal, streetcar, four hours of work, meal, sleep, and Monday Tuesday Wednesday Thursday Friday and Saturday according to the same rhythm—this path is easily followed most of the time. But one day the “why” arises and everything begins in that weariness tinged with amazement. “Begins”—this is important. Weariness comes at the end of the acts of a mechanical life, but at the same time it inaugurates the impulse of consciousness. It awakens consciousness and provokes what follows. What follows is the gradual return into the chain or it is the definitive awakening. At the end of the awakening comes, in time, the consequence: suicide or recovery. In itself weariness has something sickening about it. Here, I must conclude that it is good. For everything begins with consciousness and nothing is worth anything except through it. There is nothing original about these remarks. But they are obvious; that is enough for a while, during a sketchy reconnaissance in the origins of the absurd. Mere “anxiety,” as Heidegger says, is at the source of everything.” The Myth of Sisyphus (1942), Albert Camus

Falámos antes do absurdo, como confronto de expectativas, e é num dos autores que mais escreveu sobre o tema que podemos encontrar algumas respostas que nos esclareçam um pouco mais. Confrontar a prática do design com o absurdo, como definido por Albert Camus, coloca-nos numa posição extremamente vulnerável, mas da qual surgem hipóteses sobre a pertinência do design.

[A obra O Mito de Sísifo do filósofo francês está repleta de pistas sobre que tipo de atitude podemos adoptar num panorama de (pelo menos aparente) niilismo — estas pistas são obviamente úteis na nossa actividade como designers, sempre que questionamos, duvidamos ou pomos em causa as verdades absolutas que nos são apresentadas.]

O abandono do nosso protagonismo individual pode também sugerir um afastamento do antropocentrismo? E que consequências tem isto no design? A perda progressiva daquilo que são os nossos centros (Eu, Terra, Sistema Solar, por aí em diante…) aproxima-nos da nossa real posição universal. Deixar de entender o design como uma prática auto-referenciada e auto-legitimada atribui-lhe uma nova importância, em harmonia com a realidade que o rodeia. Este reposicionamento é o efeito maior do absurdo e não deve ser ignorado.

O existencialismo de que aqui falamos não deve ser entendido de um ponto de vista académico ou filosoficamente dogmático — as escolas do pensamento não nos interessam particularmente. Não estamos à procura de um sentido para a vida. A discussão que aqui procuramos é a do Homem comum, confrontado com as crises que o assolam. Na nossa procura de uma proposta de ensino, tentamos tornar estes problemas em problemas também do design. O designer como cidadão, antes de ser outra coisa qualquer.

A palavra-chave aqui é “consciência”, só através dela o designer se pode situar — a si e à sua prática. O design, antes de ser social, tem a obrigação de ser socialmente consciente. Cabe depois ao designer tomar decisões, escolher de forma informada os problema que quer enfrentar através do seu trabalho.

[Tomemos o exemplo de Tibor Kalman. Desde cedo na sua carreira, Kalman questionou se o design, principalmente o design corporativo, não funciona apenas como uma fachada, como algo que serve para esconder o que realmente uma empresa é.]

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Capa do 4º número da revista Colors (Junho de 1993), Tibor Kalman

“Aquilo que os designers fazem torna o mundo mais simpático, interessante ou melhor?”

Esta é uma questão fulcral que Tibor Kalman coloca e que acaba por definir o seu trajeto como designer. É com a intenção de criar algo que realmente faça a diferença que aceita trabalhar para a revista Colors. Com o tempo, a revista tornou-se num ícone popular do mundo multicultural e em constante mutação, assumindo livremente a premissa das micro-narrativas e apresenta assim um olhar possível para o mundo.

No fundo, como designer, Kalman questiona algo muito pertinente: qual é realmente a função do design? Não pode haver apenas uma resposta, muito menos uma resposta certa.

Apresentamos esta figura apenas como exemplo, muitos outros designers desempenharam este papel. Transversal a todos é, normalmente, um momento de ruptura.

[Dan Friedman queimou todos os seus trabalhos antes de inventar o Modernismo Radical, Enzo Mari quase deixou de fazer design quando o chamaram de fascista por não desenhar peças mais luxuosas (a resposta foi o emblemático autoprogettazione)…]

Esta ruptura surge do confronto de expectativas, do absurdo, e para muitos designers é através dela que o sentido da prática é encontrado.

“Designers are proud of what they do. No one likes to be called unethical. But to me, most design projects were about stretching the truth or embellishing it or hiding the negative aspects of the product. In this live debate, waves of responses came back saying, Where do I get off criticizing Duffy? (I used him only as an example; I was really challenging my profession, and so this was no surprise). The point was that there was a person out there yelling into the darkness, who was saying that maybe what we do, not what you do, not what Duffy does, but maybe what we all do is not quite right. Hadn’t anyone said this before? Why was there not such a thing as criticism in our field? I’m sure there was, but everyone in that ugly hotel ballroom in that fake city in Texas seemed to be new to the idea.” Tibor Kalman on Social Responsability, entrevista por Steven Heller.

(continua na 4ª e última parte)