[Entrevista] Teal Triggs

Além do seu trabalho como professora na School of Communication da Royal College of Arts (Londres), e com um grande número de textos e livros publicados em diferentes media e editores, Teal Triggs é uma das vozes mais respeitadas no debate sobre tmas como a pedagogia do design, a auto-publicação ou o feminismo na disciplina. Na sua conferência nos Encontros de Design de Lisboa, a 17 de Novembro de 2016, debruçou-se sobre os novos espaços da crítica no design gráfico, numa “provocação” certeira a uma plateia de alunos e professores que não se inibiu de participar no debate. Algumas horas antes tive oportunidade de entrevistar Teal Triggs e com ela conversar brevemente sobre fanzines, juventude, ensino e como agir politicamente pelo design em tempos conturbados. 

A Teal investiga o mundo das fanzines há já bastante tempo e de facto este continua a ser um formato editorial bastante adorado pelos designers gráficos, sobretudo os mais jovens. Na sua opinião, qual é o papel deste género de publicação independente low-cost na sociedade actual?

Em termos do clima político actual — social e culturalmente — o mundo atravessa grandes mudanças e estamos a assistir a uma série de fenómenos interessantes. O papel da edição independente tornou-se incrivelmente crucial neste novo contexto e as publicações independentes estão a emergir. Como resultado disso, as pessoas no mainstream estão um pouco mais conscientes de perspectivas alternativas. Normalmente, as fanzines e revistas independentes fazem parte de uma cena underground e só as pessoas no meio é que tendem a ter acesso ou interesse em olhar para elas. Houve um período em que a tecnologia e a era do ‘boom’ do computador e do desktop publishing vieram a jogo. Isto criou uma sensação de horror, particularmente no design gráfico, com designers como David Carson a declarar “print is dead”. Isto agitou o debate; contudo, hoje em dia já acalmou completamente. Penso que temos gerações de designers que cresceram a usar a tecnologia e agora têm um fascínio por coisas impressas, pelo que a fanzine ressurgiu coincidindo com o actual clima político e toda esta mudança que eu referia. Desta forma, o papel das zines é incrivelmente significativo. Estas publicações permitem que se ouçam vozes que de outra forma não seriam ouvidas e evidenciam que existe uma grande dose de reflexão, cuidado e atenção prestada aos desafios que enfrentamos actualmente. As zines disponibilizam uma via muito importante e eficaz de disseminação; elas sugerem que outro tipo de comunicação está a ocorrer. Portanto sim, [a edição independente é] absolutamente importante.

Falava do “print is dead” e toda a agitação que se levantou na altura. De que forma é que as redes sociais vieram mudar estes meios de comunicação? Pode-se dizer que se eu tiver uma mensagem será mais fácil simplesmente publicá-la no Facebook ou no Twitter. Pensa que isto veio criar uma espécie de crise identitária para a edição independente e possivelmente torná-la em algo datado?

Não, penso que é apenas mais uma plataforma. Eu acho que as redes sociais têm uma função — existe um imediatismo em fazer a mensagem chegar aos teus leitores ou seguidores — mas não penso que isto tenha diminuído a necessidade dos produtores de fanzines em fazerem algo que tem materialidade. A mensagem contida nesses objectos tem uma espécie de validade porque podes tocá-la, senti-la e interagir com ela. É também importante a comunidade das zines que partilha as suas publicações com pessoas com os mesmos interesses. Existe um ecossistema que sustenta uma comunidade. E sim, podes fazer isso no Twitter, definitivamente existem comunidades no Facebook e em todas estas plataformas, mas há algo mais na necessidade, no desejo e no entusiasmo em ter uma conversa quando entregas fisicamente a tua fanzine a alguém e dizes “Hey, o que pensas sobre isto?” ou “Quero escrever sobre um determinado assunto, vamos juntar-nos e conversar.” Há ainda toda uma infraestrutura à volta disto, com as feiras de zines e com outros tipos de eventos que intencionalmente juntam pessoas de uma forma que não acontece necessariamente nas redes sociais. É diferente e eu penso que ambos funcionam bem juntos.

E o que é que mudou nestas comunidades com a era digital?

Penso que as comunidades cresceram com o aumento dos canais digitais; eventualmente como resultado de conseguirem alcançar outras partes do mundo que individualmente as pessoas talvez não fossem capazes de alcançar. A mesma coisa aconteceu quando a internet apareceu, de repente as zines estavam na rede. É mais um mecanismo de distribuição, por isso não se perde a oportunidade de interagir pessoalmente mas dá a outras pessoas oportunidade de ler uma fanzine, seja através de um PDF descarregável ou dizendo “Aqui estou eu, envia o dinheiro e recebes a tua zine.” Como um meio de distribuição acho que as plataformas digitais funcionam mesmo bem como outra forma de comunicação que acrescenta algo à edição impressa. O Twitter e o Facebook permitem que os produtores de zines ponham a mensagem cá fora e depois o resto do processo trata-se de veicular o conteúdo real, a substância e a interação daí resultante.

Outro aspecto que acho interessante na edição independente, especialmente depois da democratização do computador pessoal, é que permitiu a não-designers fazerem design gráfico. Pergunto-me se a Teal considera que esta exposição a novas maneiras de pensar e trabalhar é importante para os designers gráficos e se ela continua a acontecer actualmente.

Penso que em termos da recente mudança de paradigma na tecnologia informática, sim, permitiu uma maior democratização do acesso aos meios de produção para aqueles que não são designers. Diria também que isso sempre aconteceu na comunidade das fanzines e essa é a sua beleza, porque qualquer um o pode fazer. Se voltarmos ao período do punk, qualquer um podia pegar numa guitarra e fazer parte de uma banda, se a vontade estiver lá vais sempre encontrar os meios de produção para fazer acontecer. E mesmo mais para trás historicamente, com as newsletters comunitárias criadas por indivíduos que talvez não fossem considerados designers ou que eram considerados “amadores”. Portanto, acho que a democratização sempre esteve presente. O que eu acho que aconteceu com os designers — e estamos a vê-lo na Royal College of Arts, por exemplo — é esse fascínio pela dimensão táctil encontrada no processo de concepção das fanzines, e por causa de um ethos intrínseco Do it Yourself, estas publicações são produzidas rapidamente. A impressora Riso é a nova fotocopiadora, está a permitir que surjam outras formas de pensar sobre aquilo que designers ou não-designers querem comunicar, que são baratas e rápidas e dão o máximo feedback nesse ponto da produção. Penso que o processo de produção de zines ajuda os designers a reflectir e a entender melhor o que querem alcançar e comunicar com os outros. Abre um espaço experimental que se foca especificamente no que está ser comunicado, como está a ser comunicado, e a quem se dirige esta comunicação.

De volta à política. Não podemos falar de fanzines sem falar de uma atitude política na edição independente. Estamos a viver tempos interessantes, usando um eufemismo, e a política está a entrar cada vez mais em vários aspectos da nossa cultura. Vêmo-lo na arte, na escrita, no cinema… Como é que acha que os designers actualmente estão a abraçar as causas sociais no seu trabalho?

É uma boa pergunta. Acho que tem havido uma crescente consciencialização entre a geração mais jovem de designers, de uma forma que eu não tinha necessariamente visto anteriormente. Temos de ter bastante cuidado, isto são generalizações enormes, porque podemos voltar aos anos 1960 onde colectivos tais como o grupo experimental Grapus trouxeram a consciência social para o design e produziram afirmações políticas realmente fortes e impactantes. Mas o que eu vejo agora parece ser um verdadeiro desejo de comunicar com públicos fora da comunidade do design e uma forma de o fazer é através de uma maior consciência do contexto político, social e cultural em que os designers trabalham. Os designers parecem ter uma paixão e um compromisso em fazer passar certas ideias, mas também em gerar debate e discussão. E assim vêem-se exemplos como o [jornal] The Occupied Times of London, feito por alunos da London College of Communication, que interagem activamente com a linguagem gráfica de protesto. Uma das nossas alunas norte-americanas no programa MRes (Master in Research) da RCA voltou a Nova Iorque para as eleições presidenciais e tem estado activamente envolvida nos protestos de rua. Tal como outros jovens designers, ela tem estado muito empenhada em fazer a diferença usando as suas capacidades e a sua paixão para levar a cabo uma acção positiva. Eu tenho o maior respeito por esta próxima geração que está a tentar lidar com todos estes grandes problemas — e ainda assim, ao mesmo tempo, usam verdadeiramente as suas capacidades enquanto comunicadores para contribuir para a mudança e, ao fazê-lo, alcançar algo que seja realmente efectivo e com significado. Os cartazes nos protestos de rua nunca tiveram tão bom aspecto!

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© The Occupied Times of London

Também me parece importante, ao falar de fanzines, referir que os designers se vêem de alguma forma forçados a não serem apenas designers — têm de saber construir uma mensagem e ter sequer uma mensagem para transmitir. Em linha com o que estava a dizer, penso que os designers talvez estejam a olhar cada vez mais para si como cidadãos do que apenas como designers. Concorda?

Absolutamente! E isso vai de encontro ao que Jan van Toorn diz quando se refere ao designer cidadão. Também acredito que houve uma obsessão com uma estética que vimos ao longo dos anos em termos de tudo ter que ser absolutamente perfeito na perspectiva do design — habitualmente uma obsessão com o kerning e outros detalhes — mas agora parece-me que os designers estão usar a lente do design para trabalharem sobre estes desafios maiores, de forma a perceberem melhor o seu próprio posicionamento. Isto não significa necessariamente que seja tudo acerca do resultado final, mas antes sobre o processo. Dessa forma, o que dizes está certo, é esse envolvimento com o conteúdo que é agora o condutor, mais do que o envolvimento com a forma final. Novamente, isto é uma grande generalização; não serve para dizer que as formas finais não reflectem o conteúdo, mas antes que estamos a assistir a uma mudança de ênfase — onde o papel do designer surge no início do projecto e não necessariamente no fim. Os designers podem continuar a fazer algo com ‘bom aspecto’, mas agora há uma verdadeira mudança no pensamento sobre as diferentes maneiras que um designer pode encontrar para se integrar inteiramente no processo de comunicação.

Como educadora, o que espera de uma escola de design que ambicione formar uma futura geração de designers capaz de enfrentar estes problemas?

O que é que eu espero de uma escola de design…? O que é que eu espero do sítio onde trabalho! Penso que é absolutamente essencial que as escolas de arte e design mantenham um espaço livre onde os estudantes possam ser experimentais, onde possam desenvolver as suas ideias, onde possam levantar questões e problemas que talvez não sejam fáceis de levantar numa prática de design convencional ou na indústria. É uma oportunidade de olhar para trás e reflectir sobre o que é que queres fazer mas também sobre qual poderá ser a tua posição na questão mais abrangente. Acredito que, como educadores, devemos facilitar e não ditar. Os dias da abordagem dogmática à educação já não vão necessariamente ao encontro das condições em que actualmente vivemos ou da forma como estamos a fazer design para este contexto. Hoje em dia o foco devia ser mais em ajudar os alunos a perceber como podem ser mais ágeis e flexíveis na sua maneira de pensar do que em serem apenas reactivos. Em vez disso, os designers deviam assumir a liderança na procura de soluções para estes novos desafios e usar as suas capacidades de design e pensamento crítico para o fazer. Sou firmemente crente na escola de artes e na experiência ‘vivida’ que ela pode providenciar, não apenas para alimentar indústrias criativas mas também em termos do impacto que os designers podem ter no quadro geral. O design é absolutamente chave para tudo o que atravessamos neste momento.

Quais são os maiores desafios para esta nova geração de designers? E está optimista?

Estou sempre optimista, mas já lá voltamos. Em termos de desafios, lamento bastante a situação dos alunos que neste momento terminam a sua educação. Quero dizer, no Reino Unido têm agora que pagar taxas, estão em dívida, são confrontados com um contexto económico que não é estável e portanto existe uma grande incerteza em termos de carreira e da sua progressão. Ainda assim, acredito que os designers são bastante capazes de se manobrarem através destas complexidades, portanto se estiverem a fazer bem o seu trabalho e a aproveitar realmente o seu tempo e educação estarão no bom caminho. Desse ponto de vista, estou bastante optimista com estas novas gerações que estão a surgir e que são capazes de lidar com os desafios de uma forma que os contextos educativos anteriores talvez não tenham permitido. Estou esperançosa com isso. Ainda assim, tenho bastante apreensão para com a situação dos estudantes que vão atravessar grandes dificuldades no futuro. Se os estudantes forem perseverantes, não apenas irão colher os frutos e benefícios como profissionais (em qualquer dimensão do design que decidam praticar), mas também o seu impacto no futuro será significativo.

Olaria de Bisalhães: uma correcção e alguns apontamentos

Numa discussão no seguimento do meu texto anterior sobre a olaria de Bisalhães, fui encaminhado para um documento da candidatura à classificação pela UNESCO que prevê um possível programa de investimento, relativamente detalhado, no sentido da salvaguarda e promoção do ofício. Não é, portanto, verdade o que disse acerca da inexistência de uma estratégia de investimento que acompanhasse o valor anunciado. No fim do texto fica o link para o documento de candidatura. Este documento reúne também conclusões de levantamento sobre a actividade. Destaco a importância do capítulo “2. Need for urgent safeguarding”, que aponta para os motivos da decadência da actividade, e para o capítulo “3.a. Past and current efforts to safeguard the element” que descreve algumas medidas recentes. Não é ainda o estudo de levantamento desejável a que me refiro no texto anterior, pois este deve ser mais completo e aprofundado, além de prever uma recolha multimédia e de material físico, além de outros elementos que naturalmente não cabem numa candidatura. Diga-se ainda que tal levantamento prevê também uma reunião de material teórico já produzido e publicado, não se substituindo, quando ele existir, ao conhecimento adquirido por anteriores estudos e investigações. Ainda assim, os capítulos que referi antes são excelentes pontos de partida para este estudo cuja enorme relevância prevalece no estado actual do ofício, em linha com a longa história que antecede o panorama actual.

Reforço ainda que o meu cepticismo não visa desacreditar o trabalho em curso. Esta classificação da UNESCO é uma oportunidade única, talvez a última, para salvaguardar e reactivar a olaria de Bisalhães. Como tal, e dada a urgência da acção, não gostava de a ver desperdiçada. Nestes primeiros meses deve-se aproveitar a exposição do assunto para iniciar uma discussão mais alargada, que convoque uma maior variedade de pessoas e opiniões. Não é tempo perdido, é conhecimento ganho. Como já tive oportunidade de sugerir em conversa com uma das pessoas envolvidas no processo de candidatura, um bom começo seria disponibilizar este documento em língua portuguesa, num layout mais acessível e disponibilizando vias de comunicação com a CMVR, que eventualmente culminassem num grande fórum de debate e reflexão sobre este programa.

O documento de candidatura em causa pode ser lido aqui.

Olaria de Bisalhães: a roda dá mais uma volta

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® CMVR

Apesar de lhe ter sido adivinhada uma morte lenta há já vários anos, a técnica ancestral da olaria negra de Bisalhães nunca deixou de ser usada como traço identitário da região transmontana, em particular de Vila Real. Referido muitas vezes como um factor único e distintivo, o barro preto é daqueles dispositivos emocionais que pela sua simbologia sempre dispensaram grande conhecimento factual sobre a matéria. Talvez por isso não seja tanto do conhecimento popular local o facto de que se produz olaria negra em Molelos, concelho de Tondela, ou mesmo na Catalunha, para apenas referir dois exemplos. É certo que especificidades técnicas e materiais distinguem a produção da olaria em diferentes locais, mas a ideia de que só existe barro negro em Bisalhães é um mito em que muita gente não pensa realmente mas que no qual mesmo assim acredita. Além disso, a iconografia do barro preto dispensou também uma preocupação efectiva com o estado da arte, não tendo havido esforços reais para estudar, compreender e ouvir os artesãos para que posteriormente se tomassem medidas de salvaguarda de um ofício condenado pela idade avançada dos oleiros e por um apelo decrescente a este tipo de produção artesanal.

É portanto bem recebida a notícia de que o processo de confecção do barro preto de Bisalhães integra agora a lista do património cultural imaterial em necessidade de salvaguarda urgente da UNESCO. Quando as notícias sairam de Adis Adeba, onde a decisão foi anunciada, e chegaram aos ouvidos transmontanos, seguiu-se naturalmente alegria e congratulação popular e institucional. Como se décadas de negligência e desinteresse chegassem agora a um abrupto fim, o barro preto parecia salvo. Mas quando o anúncio de um fundo de 370.000 euros a investir até 2020 não se faz acompanhar de qualquer tipo de intenções programáticas concretas ou de uma visão estratégica fundamentada, não é tão certo assim que dentro de três anos a olaria de Bisalhães seja mais que uma reminiscência poética e identitária, sombra do seu passado, exactamente aquilo que é hoje.

Isto não retira qualquer crédito à iniciativa que conseguiu dar sucesso a esta candidatura, um sinal muito importante de alguma mudança de atitude que estava certamente em falta. Todos estão, naturalmente, de parabéns. Dito isto, só sem grandes euforias se pode dar o passo seguinte no caminho certo e, a julgar por sinais do passado, vejo mais razões para uma preocupação céptica do que para uma alegria incondicional. Uma política cultural deficiente ou praticamente inexistente tem sido obscurecida por um aparente aumento de eventos culturais. As duas coisas não devem ser confundidas. Terminou há algumas semanas o ano de Capital da Cultura do Eixo Atlântico em Vila Real e se, de alguma forma, no futuro nos lembrarmos que ele sequer aconteceu, será para perceber o grande fiasco que constituiu. Novamente, mais coisas a acontecer, algum dinheiro a circular, mas quando tudo acaba, nada mudou. Não houve um repensar do espaço da cultura numa cidade onde ela existe em défice, não se trabalhou no sentido de unir e consolidar os vários agentes e espaços culturais da região, que continuam a caminhar cada um para o seu lado, e não se promoveu um contacto com diferentes expressões artísticas e culturais. A maior parte destas questões, para não dizer todas, não foram sequer debatidas publicamente.

O desafio com a olaria de Bisalhães é muito maior do que o de uma Capital da Cultura onde a desilusão já era um resultado expectável. Se até 2020 o plano de acção for o mesmo, e se os responsáveis por o implementar continuarem a dar palmadinhas nas costas dessa criatura que é a cultura local auto-celebrada, esta data poderá ser lida como um fim definitivo, sem que qualquer futuro se adivinhe para a técnica e tradição aqui em causa. Mais concretamente, é essencial que não se cometa o erro de começar imediatamente a implementar projectos de incentivo à produção que reinterpretam e recontextualizam o ofício sob esse grande e perigoso guarda-chuva do design. O ponto de partida que se impõe nesta caminhada é o do levantamento no local, a documentação técnica e etnográfica realizada por uma equipa multidisciplinar. Não basta apontar para estudos académicos já existentes sobre o barro preto, a Câmara Municipal de Vila Real tem agora a obrigação de produzir “o” estudo sobre a olaria de Bisalhães que será referência futura. Como tal, não poderá estar comprometido pela ânsia de fazer, promover e vender — isso vem depois. Este processo terá ainda de se centrar nas pessoas envolvidas na produção das peças, nos seus conhecimentos, na sua experiência e nas suas propostas para o futuro. Ao contrário do que aconteceu até agora, é essencial que se deixem de lado os egos de gabinete, algo que será particularmente interessante de avaliar agora que entramos em período pré-eleitoral para as próximas eleições autárquicas.

Só depois de ser realizado um levantamento extenso e detalhado é que se poderá avaliar um plano de acção para promoção e salvaguarda do ofício, integrando as instituições culturais e a indústria local num papel de renovação. Isto não significa que a sua participação se inicie depois do levantamento, bem pelo contrário. Instituições estabelecidas, como os museus, e novos agentes, como é o caso da ‘startup’ Bisarro que se tem vindo a destacar nas produção de objectos contemporâneos em barro preto, devem ser integrados no processo de estudo para que a sua intervenção posterior possa ser consciente e consequente, nunca desligada da realidade artesanal que é, em última análise, guardiã da verdadeira herança de uma técnica ancestral cuja identidade se construiu no tempo. Mais uma vez, distanciar a produção teórica do conhecimento prático é um tiro no pé; a CMVR tem a responsabilidade de construir esta ponte.

No imediato, ficarei contente se ouvir menos conversa sobre “novos designs” e mais discussão sobre estratégia de acção. Para mim, tudo terá de começar no terreno, sem pressas e precipitações, procurando medir o pulso a este ofício e aos seus protagonistas. Quanto ao que vem a seguir, não tenho certezas, mas tenho certeza que esta abordagem ajudaria todos a ficarem mais esclarecidos. Exemplos disto não faltam, posso falar deles noutra altura. Por agora, reforço a minha provocação fundamentada — estou céptico e preocupado, mas vou esperar para ver. Obviamente, participarei sempre que houver oportunidade, plataforma e relevância em fazê-lo, como penso que devem fazer todos os que se interessam e querem garantir a sobrevivência saudável da olaria de Bisalhães. Isto lembra-me de outra certeza que tenho: a história do barro preto não se escreveu em Adis Adeba.

Quantos centros tem o mundo? [4/4]

A exposição de ideias que se segue é a terceira parte de uma leitura do discurso de David Foster Wallace aos finalistas de 2005 no Kenyon College, nos Estados Unidos, intitulado A Água É Isto. A partir daí, foi reunido um conjunto de referentes, sobretudo textuais, que se interligam numa narrativa que pretende encontrar propostas de ensino para o design. O texto aqui apresentado foi adaptado de uma versão mais longa, que foi revista e comentada por Sofia Gonçalves, e pretende funcionar como o guião para uma apresentação pública. “Quantos centros tem o mundo?” foi um projecto editorial académico desenvolvido em 2015, em parceria com Laura Araújo e João Rodrigues, e materializou-se numa publicação impressa, acompanhada de um anexo digital — algumas imagens do resultado podem ser vistas aqui.

Ler Parte I: Discurso—Apresentação Pública
Ler Parte II: Assunto — Micro-narrativas
Ler Parte III: Implicações—Existencialismo


Parte IV: Proposta—Ensino

A conferência “Design  at Works”, organizada pelo ICOGRADA em 1978, em Chicago, EUA.
A conferência “Design at Works”, organizada pelo ICOGRADA em 1978,
em Chicago, EUA.

Aproximamo-nos do fim desta exploração, e por isso vamos procurar esboçar a nossa proposta de ensino. Esperamos assim atar o nó que liga o discurso de David Foster Wallace ao design, depois de termos feito um grande desvio crítico que nos vai ajudar agora a encontrar uma possível conclusão.

[Não vamos descrever aqui um manifesto educativo, deixaremos apenas um conjunto de ideias no ar, que cada um poderá interpretar de forma crítica no contexto do que foi anteriormente dito. Vamos, no entanto, ter como ponto de partida precisamente um manifesto.]

Fundada em 1963 por Peter Kneebone, a ICOGRADA apresentou-se ao público com uma conferência em 1964, em Zurique. A ideia era organizar uma rede internacional para designers, onde estes pudessem comunicar e reflectir sobre qualquer questão. Esta organização levou a cabo diversas actividades todos os anos desde o seu aparecimento, abordando uma temática específica e levantando questões relacionadas com as mudanças em curso à volta do globo.

[Em 1978, no congresso “Design that works!”, realizado em Chicago, foram convidados Josef Müller-Brockmann, Milton Glaser e Massimo Vignelli para falarem sobre a dimensão social do design. Os participantes do seminário foram confrontados com a pergunta “Is Graphic Design a Reflection of Society or a Factor in its Evolution?”]

Em 2011 é publicado o Icograda Design Education Manifesto (uma outra versão tinha sido publicada em 2000), no qual se destaca uma preocupação em caracterizar a prática dos designers de comunicação e por outro lado salvaguardar um ensino de qualidade para os futuros designers. As principais preocupações manifestam-se na procura do pensamento crítico, da participação social e do acompanhamento do devir global.

“New opportunities and challenges confront the designer. Changes over the last decade have profoundly a ected communication design.” Design Education Manifesto (2011), ICOGRADA

Este documento sugere boas indicações para o ensino, mas podemos ainda construir sobre ele. Da leitura que fazemos do manifesto, emerge a necessidade de re-enfatizar algo que já antes referimos, o papel do designer como cidadão antes de tudo.

A nossa exploração do texto de David Foster Wallace procura exactamente retirar o design da sua esfera de exclusividade e da sua existência auto-legitimada. Na conclusão que podemos arriscar, existem dois tópicos que merecem destaque: o lugar e os valores.

Quando nos referimos ao lugar, falamos em promover a contextualização no espaço e no tempo do ensino do design. Desta forma pode ser construída uma rede global de designers aptos a partilhar conhecimentos e experiências relativos às micro-narrativas existentes. Activando a comunicação dentro desta comunidade, e abrindo-a à sociedade, o designer individual acede a uma rede que lhe permite compreender, ou pelo menos verificar, a existência de realidades paralelas, o que por um lado lhe dá uma maior humildade perante o mundo como um espaço habitado por pessoas diferentes, e por outro lhe dá as ferramentas para exercer a sua função de forma assumidamente social e, logo, mais consequente.

Fotograma de Optical Poem, de Oskar Fischinger
Fotograma de Optical Poem, de Oskar Fischinger

O diálogo é vital para que este processo possa funcionar. As ferramentas tecnológicas ao nosso dispor, actualmente e no futuro, desempenham também um papel importante, como seria expectável. A internet e o conceito de importação/exportação estão profundamente interligadas com a nossa experiência da multiplicidade de realidades. Lev Manovich, num texto intitulado precisamente de Import/Export, contextualiza este cenário tão profundamente modelado por dois comandos virtuais. No essencial, dois comandos que simplificaram os processos de comunicação globais, uma espécie de Esperanto que funcionou de facto.

[Também Jean-François Lyotard aborda o assunto em A Condição Pós-Moderna, falando de uma cultura input/output, paradigma das sociedades pós-modernas.]

“Although import/export commands appear in most modern media authoring and editing software running under GUI, at first sight they do not seem to be very important for understanding software culture. You are not authoring new media or modifying media objects or accessing information across the globe, as in web browsing. All these commands allow you to do is to move data around between different applications. In other words, they make data created in one application compatible with other applications. And that does not look so glamorous. […] It turns out that the largest part is import/export business (more than 60%). More generally, one commonly evoked characteristic of globalization is greater connectivity—places, systems, countries, organizations etc. becoming connected  in more and more ways. And connectivity can only happen if you have certain level of compatibility: between business codes and procedures, between shipping technologies, between network protocols, and so on.” Import/Export (2006), Lev Manovich

A tecnologia encurta as distâncias mas não anula os lugares, potencia-os. À semelhança de Stuart Hall, acreditamos que estes processos globalizadores não invalidam as identidades locais, apenas as tornam híbridas e imprevisíveis. O lugar no espaço e no tempo, concretizado pelo diálogo. A nossa primeira proposta orienta-se então neste sentido.

A segunda proposta restabelece uma ligação mais próxima ao discurso A Água é Isto, e refere-se à questão dos valores. Em primeiro lugar, tentamos perceber de que forma os valores propostos por David Foster Wallace — compreensão, tolerância, compaixão — podem ser também valores aplicados no design.

Como é que podemos renunciar ao pensamento por defeito para construir um discurso mais adequado através destes apontamentos de uma posição comunitária ideal? A resposta encontra-se em pontos que tocámos anteriormente, sobretudo no que diz respeito à relação com o outro, que quando bem gerida permite que aconteçam diálogos construtivos.

Torna-se essencial desconstruir progressivamente os preconceitos que minam as relações pessoais, culturais, religiosas, etc. A forma como estes valores se tornam valores de design é também muito simples: estes são problemas de todos os seres humanos, questões verdadeiramente universais. Como qualquer outro cidadão, o designer deve recorrer ao seu conhecimento adquirido, à especificidade da sua prática, para os abordar da forma mais adequada. O ensino do design não pode nunca esquecer este facto equalizador e profundamente humanizante.

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Mas quais são então os valores que o ensino do design deve ter como prioritários? Talvez seja demasiado arriscado fazer aqui uma enumeração. Como vimos, os problemas da sociedade contemporânea são incrivelmente complexos, difíceis de identificar e com implicações tão diferentes quantas as realidades que existem. Este texto dá apenas conta de uma ínfima parte dessas realidades.

A grande pergunta que orientou esta pesquisa não pode ser respondida, pelo menos não de forma esclarecedora. Não sabemos quantos centros tem o mundo. O importante é termos consciência desta ignorância. Aprender a pensar é ganhar essa consciência.

Para uma escola aprender a ensinar a pensar, é necessário discutir modelos ou o seu abandono, reinterpretar as noções de professor, aluno ou sala de aula, confrontar expectativas em todos os momentos, não temer o absurdo. Mas acima de tudo, terá de ser sempre uma escola que não deixe de perguntar o que é a água.

Quantos centros tem o mundo? [3/4]

A exposição de ideias que se segue é a terceira parte de uma leitura do discurso de David Foster Wallace aos finalistas de 2005 no Kenyon College, nos Estados Unidos, intitulado A Água É Isto. A partir daí, foi reunido um conjunto de referentes, sobretudo textuais, que se interligam numa narrativa que pretende encontrar propostas de ensino para o design. O texto aqui apresentado foi adaptado de uma versão mais longa, que foi revista e comentada por Sofia Gonçalves, e pretende funcionar como o guião para uma apresentação pública. “Quantos centros tem o mundo?” foi um projecto editorial académico desenvolvido em 2015, em parceria com Laura Araújo e João Rodrigues, e materializou-se numa publicação impressa, acompanhada de um anexo digital — algumas imagens do resultado podem ser vistas aqui.

Ler Parte I: Discurso—Apresentação Pública
Ler Parte II: Assunto — Micro-narrativas
Ler Parte IV: Proposta—Ensino


Parte III: Implicações—Existencialismo

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Sísifo, por Ticiano.

[É altura de recuperar o nosso subtítulo: “Como ensinar a perguntar o que é a água”. Esta indicação nasce de uma pergunta que despoleta esta exploração, omitida do título mas não menos importante: “Que propostas educativas podemos auferir do discurso de David Foster Wallace?” Por fim é importante referir que todo este conteúdo é analisado no âmbito da disciplina do design. As proposta que procuramos devem ser aplicadas no processo de ensino aos designers, mas não é por acaso que excluímos o design da discussão. Interessa-nos perceber primeiro quais são as grandes problemáticas universais levantadas por David Foster Wallace. Queremos entender estas questões no âmbito da cidadania e do humanismo, e só depois encontrar o papel que pode ser desempenhado pelos designers.]

Neste ponto da nossa narrativa, chegamos a uma grande encruzilhada, onde posições paradoxais parecem impedir-nos de encontrar soluções para estes problemas. As grandes crises do Pós-Modernismo conduzem a posições eminentemente niilistas, de grande questionamento e insegurança. A condição contemporânea é esta dúvida. Mas esta dúvida a que podemos chamar, sem qualquer tipo de pretensões, de existencial, é a chave para encontrar o lugar do design, por direito e por dever.

Exacerbamos aqui a procura de uma inquietação existencialista no design como forma de constante evolução — descobrir porque fazemos o que fazemos para o podermos fazer melhor. Isto deriva também, e em grande parte, da ideia de “aprender a pensar”, numa acessão de constante interrogação e incerteza.

O discurso de David Foster Wallace sugere uma problemática existencialista que não deve ser posta de parte quando se pensa o design. As irritações mundanas do supermercado têm tanto impacto nas nossas vidas como as nossas grandes ambições ou os nossos grandes medos. É precisamente aqui que não devemos olhar para o lado, menosprezando este lado obscuro da vida adulta.

O tabu deve ser quebrado, apesar de todo o desconforto causado por temas como o suicídio ou a depressão, David Foster Wallace mostra-nos que só discutindo abertamente podemos começar a compreender a dimensão humana da vida contemporânea. Ao perguntar o que é água perguntamos também porque fazemos o que fazemos e porque devemos continuar a fazê-lo. A resposta será sempre especulativa e até evasiva, o que não significa de maneira nenhuma que devemos deixar de a procurar.

“It happens that the stage sets collapse. Rising, streetcar, four hours in the office or the factory, meal, streetcar, four hours of work, meal, sleep, and Monday Tuesday Wednesday Thursday Friday and Saturday according to the same rhythm—this path is easily followed most of the time. But one day the “why” arises and everything begins in that weariness tinged with amazement. “Begins”—this is important. Weariness comes at the end of the acts of a mechanical life, but at the same time it inaugurates the impulse of consciousness. It awakens consciousness and provokes what follows. What follows is the gradual return into the chain or it is the definitive awakening. At the end of the awakening comes, in time, the consequence: suicide or recovery. In itself weariness has something sickening about it. Here, I must conclude that it is good. For everything begins with consciousness and nothing is worth anything except through it. There is nothing original about these remarks. But they are obvious; that is enough for a while, during a sketchy reconnaissance in the origins of the absurd. Mere “anxiety,” as Heidegger says, is at the source of everything.” The Myth of Sisyphus (1942), Albert Camus

Falámos antes do absurdo, como confronto de expectativas, e é num dos autores que mais escreveu sobre o tema que podemos encontrar algumas respostas que nos esclareçam um pouco mais. Confrontar a prática do design com o absurdo, como definido por Albert Camus, coloca-nos numa posição extremamente vulnerável, mas da qual surgem hipóteses sobre a pertinência do design.

[A obra O Mito de Sísifo do filósofo francês está repleta de pistas sobre que tipo de atitude podemos adoptar num panorama de (pelo menos aparente) niilismo — estas pistas são obviamente úteis na nossa actividade como designers, sempre que questionamos, duvidamos ou pomos em causa as verdades absolutas que nos são apresentadas.]

O abandono do nosso protagonismo individual pode também sugerir um afastamento do antropocentrismo? E que consequências tem isto no design? A perda progressiva daquilo que são os nossos centros (Eu, Terra, Sistema Solar, por aí em diante…) aproxima-nos da nossa real posição universal. Deixar de entender o design como uma prática auto-referenciada e auto-legitimada atribui-lhe uma nova importância, em harmonia com a realidade que o rodeia. Este reposicionamento é o efeito maior do absurdo e não deve ser ignorado.

O existencialismo de que aqui falamos não deve ser entendido de um ponto de vista académico ou filosoficamente dogmático — as escolas do pensamento não nos interessam particularmente. Não estamos à procura de um sentido para a vida. A discussão que aqui procuramos é a do Homem comum, confrontado com as crises que o assolam. Na nossa procura de uma proposta de ensino, tentamos tornar estes problemas em problemas também do design. O designer como cidadão, antes de ser outra coisa qualquer.

A palavra-chave aqui é “consciência”, só através dela o designer se pode situar — a si e à sua prática. O design, antes de ser social, tem a obrigação de ser socialmente consciente. Cabe depois ao designer tomar decisões, escolher de forma informada os problema que quer enfrentar através do seu trabalho.

[Tomemos o exemplo de Tibor Kalman. Desde cedo na sua carreira, Kalman questionou se o design, principalmente o design corporativo, não funciona apenas como uma fachada, como algo que serve para esconder o que realmente uma empresa é.]

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Capa do 4º número da revista Colors (Junho de 1993), Tibor Kalman

“Aquilo que os designers fazem torna o mundo mais simpático, interessante ou melhor?”

Esta é uma questão fulcral que Tibor Kalman coloca e que acaba por definir o seu trajeto como designer. É com a intenção de criar algo que realmente faça a diferença que aceita trabalhar para a revista Colors. Com o tempo, a revista tornou-se num ícone popular do mundo multicultural e em constante mutação, assumindo livremente a premissa das micro-narrativas e apresenta assim um olhar possível para o mundo.

No fundo, como designer, Kalman questiona algo muito pertinente: qual é realmente a função do design? Não pode haver apenas uma resposta, muito menos uma resposta certa.

Apresentamos esta figura apenas como exemplo, muitos outros designers desempenharam este papel. Transversal a todos é, normalmente, um momento de ruptura.

[Dan Friedman queimou todos os seus trabalhos antes de inventar o Modernismo Radical, Enzo Mari quase deixou de fazer design quando o chamaram de fascista por não desenhar peças mais luxuosas (a resposta foi o emblemático autoprogettazione)…]

Esta ruptura surge do confronto de expectativas, do absurdo, e para muitos designers é através dela que o sentido da prática é encontrado.

“Designers are proud of what they do. No one likes to be called unethical. But to me, most design projects were about stretching the truth or embellishing it or hiding the negative aspects of the product. In this live debate, waves of responses came back saying, Where do I get off criticizing Duffy? (I used him only as an example; I was really challenging my profession, and so this was no surprise). The point was that there was a person out there yelling into the darkness, who was saying that maybe what we do, not what you do, not what Duffy does, but maybe what we all do is not quite right. Hadn’t anyone said this before? Why was there not such a thing as criticism in our field? I’m sure there was, but everyone in that ugly hotel ballroom in that fake city in Texas seemed to be new to the idea.” Tibor Kalman on Social Responsability, entrevista por Steven Heller.

(continua na 4ª e última parte)