Jornadas da Juventude

Lisboa, Agosto de 2023.

Hoje é a primeira de várias tardes em que um enorme palco das Jornadas Mundiais da Juventude me vai moer o juízo. Na rua já me irritei com um grupo de peregrinos que ocupava a totalidade do passeio, sem abrir caminho. “Foda-se!” O que me incomoda especialmente nestes otimistas católicos é o seu ar minado, de olhos brilhantes e pupilas dilatadas. Não sei se é mais desconcertante ver esse olhar nos novos ou nos velhos, pois cada um deles é inquietante à sua maneira.

No geral, toda a “cultura” deste evento é imensamente plástica. A música, em particular, é o expoente máximo da neutralização de toda a substância criativa e viva do objeto violado. Rock, Hip Hop, música de dança: replicam-se os mais elementares gestos, substituindo o conteúdo por uma pasta homógenea que não tem sequer um traço da orientação espiritual que é suposto ostentar. Existem bons exemplos de música religiosa, mas este não é um deles. A música cristã de grandes eventos deixou-se apanhar pela sofisticação das suas paródias, e hoje elas são praticamente inextinguíveis. Talvez para um ateu este seja o aspeto mais desconcertante de todo o evento: parece mesmo que é a gozar.

As JMJ vieram reanimar os meus mais fortes sentimentos anti-religiosos, que nos últimos anos haviam até esmorecido. Um dos motivos (e não irei listar todos aqui) é a forma como os defensores do evento (em particulare, as figuras do Estado) insistem em falar na primeira pessoa do plural, afirmando que “nós (lisboetas) aceitámos os sacrifícios” para mais tarde colher as recompensas. De que sacrifício falam? O caos na cidade, a despesa pública, a hipocrisia moral? E quem somos “nós” afinal? Nenhum de “nós” aceitou nada pois a hipótese de rejeitar nunca existiu, como nem sequer existiu a pergunta. As JMJ não foram propostas, foram impostas. Pior que o argumento em si é a aceitação cega e muda desta falácia. Não ouvi um jornalista desafiar essa ideia nas muitas vezes que ela foi avançada por um partidário do certame.

Nos últimos anos vim a crer num ressurgimento da espiritualidade religiosa. Um regresso a Deus. Por outras palavras, que os jovens iriam voltar a tender para a religião, fruto de sucessivas desilusões com a democracia, a ciência, a economia e o próprio “eu”. Deus é uma resposta óbvia numa crise espiritual, e eu acho que estamos a atravessar uma dessas. Ter as JMJ na minha cidade é uma coincidência “feliz” que acabou por trazer à minha porta esses dois assuntos que me interessam: juventude e espiritualidade. No entanto, o ressurgimento da religião entre os jovens não deve estar aqui, nesta estrutura antiquada e repulsiva. O ressurgimento, para ser jovem, terá de ter pelo menos a vaga forma, senão mesmo a intenção sincera, de uma procura pela dissidência. Uma religião radicalizada, ilustrada pela proximidade ideológica evidente entre um incel tradcath (termos da internet para “virgem católico tradicionalista”) e um talibã. Nas JMJ não há sequer um vislumbre de dissidência. Pelo contrário, estamos no divino reino da submissão total. Um grande espetáculo de números, sem dúvida. Mas não esconderão eles uma ruína que nem um Papa notavelmente moderno e intelegente pode resgatar? Para esta velha Igreja, talvez a descrença não seja a maior inimiga. Na política, o radicalismo populista de direita foi capaz de abalar o consenso democrático e pôr em causa conquistas sociais dadas como garantidas. Ainda que inspirada pelo reacionarismo histórico e poeirento do fascismo clássico, esta é uma nova política – imprevisível, delirante, muitas vezes em confronto com a própria realidade. A cruzada das religiões organizadas, em particular da Igreja Católica, defronta-se com a mesma paranóia incerta do século XXI, com uma consciência humana levada aos limites pelo acelerar da degradação das condições da vida material e espiritual. Para lá da propaganda vista em Lisboa, pode haver mesmo um retorno à Fé, mas a maneira de crer não será a mesma.