O limite da paciência

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“If you want to be important — wonderful. If you want to be recognized — wonderful. If you want to be great — wonderful. But recognize that he who is greatest among you shall be your servant. That’s a new definition of greatness.”

Estas palavras foram proferidas por Martin Luther King Jr. a 4 de fevereiro de 1968, num sermão conhecido como “The Drum Major Instinct”, por sua vez uma adaptação de uma homília escrita por J. Wallace Hamilton em 1958. São também elas que, na voz do próprio Martin Luther King Jr., dão o pano de fundo para o anúncio televisivo às novas carrinhas Dodge Ram, emitido na última edição do Super Bowl, o maior evento desportivo e mediático da televisão norte-americana. A reacção negativa à utilização deste discurso para vender automóveis fez-se sentir imediatamente. A desconexão completa entre as palavras de MLK e as imagens evocativas do ideal americano, incluindo a habitual homenagem às tropas (MLK era um anti-militarista convicto) e o slogan final “Built to serve”, extravasava a hipocrisia que normalmente é tolerada nestas situações, levando o anúncio para o campo do absurdo involuntário e do insulto.

Será ingénuo olhar para esta hipocrisia absurda como uma coisa nova. O mundo publicitário há muito que é conhecido pela forma como subverte mensagens radicais para vender qualquer tipo de produto ou serviço. No entanto, este anúncio reflecte uma excepcional aceleração da realidade às mãos de quem tenta desesperadamente colar com fita adesiva os pedaços de um mundo ideal que ruiu perante os nossos olhos. Os eventos políticos dos últimos anos — entre eles o “Brexit” e a eleição de Donald Trump — provaram o quão fácil é dar um passo civilizacional atrás, incluindo em países que se orgulhavam de guiar o resto do mundo no caminho do progresso. Normalizou-se uma incredulidade com a maldade emergente, a incompetência dos líderes mundiais e a vampirização do capitalismo tardio. Nada de novo, se pensarmos que continuamos a dormir bem à noite com a fome no mundo, a destruição do ambiente ou a gigantesca acumulação de riqueza nos bolsos de 1% da população.

Talvez pareça um exemplo rebuscado, mas trago para aqui o anúncio da Dodge porque ele é um espasmo moribundo desse discurso que já não consegue lidar com as suas próprias premissas fraudulentas. O discurso dominante que durante décadas ignorou as franjas de uma sociedade fragmentada e agora se vê cercado pelas mesmas. Por outras palavras, houve muita gente a perder a paciência. Infelizmente, temos hoje que nos consciencializar que a alternativa posta em prática é muitas vezes maquiavélica e violenta, especialmente para aqueles que historicamente têm menos defesas contra essa mesma violência. Um grupo muito grande de pessoas para quem se calhar o mundo já era tão mau que este retrocesso não tem qualquer significado maior. Nesse sentido, talvez o mais provável é que não estejamos sequer perante uma alternativa, mas antes uma concretização da forma pior de um sistema que nunca procurou realmente o bem comum. A verdade é que um discurso nacionalista e xenófobo na Polónia faz pouca diferença à família no Iémen que há anos vê a morte chegar dos céus sem aviso nem razão.

Vemo-nos então num estado de choque perpétuo com a piada de mau gosto que é este mundo cheio de contradições. O grande desafio da geração que começa agora a tomar as rédeas do poder é ser capaz de as reconhecer, de abandonar de vez o pensamento mágico instituído num qualquer progresso que ninguém vê e ao mesmo tempo imaginar uma alternativa mais justa. E é preciso perceber que o tempo urge. Por isso mesmo há que enfrentar com convicção as questões inquietantes deste paradigma absurdo. É preciso voltar ao grau zero e ouvir as vozes indignadas que sempre falaram na surdina. Uma batalha que se faz em casa, na fábrica, no campo, na cidade, na escola. Uma batalha obrigatoriamente interseccional, para a qual não há fórmulas universais, nenhuma resposta definitiva que eu, ou alguém, possa aqui debitar. E por isso também devemos evitar o perigo de banalizar o momento com ideias demasiado abstractas que nunca se traduzem em acção. A pergunta que se coloca é a de sempre: o que fazer

Pensemos no espaço que habitamos…

Uma escola de artes como esta encontra-se demasiadas vezes encalhada na possibilidade da sua participação. Nem sempre é claro como é que um artista ou um designer pode contribuir com o seu trabalho para a definição desta alternativa. E embora haja pensamento útil sobre esta mesma questão, é mais uma vez difícil sintetizá-lo em respostas que ajudem qualquer pessoa que esteja a ler este texto. Conhecemos determinados princípios éticos e servimo-nos do bom senso, mas no final do dia cada indivíduo acaba por encontrar a sua forma específica de trabalhar para a comunidade que o rodeia. Ainda assim, acredito que há uma responsabilidade primeira e fácil de assumir. É essencial que os estudantes construam no espaço da escola o modelo que querem ver aplicado no mundo. Não é mais suportável aceitar uma escola pública negligenciada, onde os alunos têm cada vez menos condições de trabalho e os docentes e funcionários se vêem em situações profissionais cada vez mais precárias. Se por vezes sentimos que algo está mal, que a Academia se desliga do mundo à sua volta, recolhendo a uma posição de conforto distante, é porque isso é verdade. E não precisamos sequer de começar a falar de ideologia para perceber esta desresponsabilização política. Que voz têm tido as nossas universidades no debate por uma habitação a preço justo, especialmente em grandes cidades como Lisboa? Quantas vezes ouviram um presidente ou reitor a defender os seus alunos e as suas famílias, sobre quem se abate um custo de vida insuportável, já para não falar das propinas? Se a tendência do encarecimento continuar, quanto mais tempo esperam eles que os alunos aceitem pacificamente estes sacrifícios? Numa escola como esta não é sequer assim tão difícil criar comunidade e agir colectivamente, não é difícil chegar aos ouvidos do “poder” e não é difícil agir directamente.

Na tentativa de participar politicamente através do nosso trabalho sem olhar às condições que lhe dão origem, corremos cada vez mais o risco de acabar a vender carrinhas de alta cilindrada como quem quer mudar o mundo. Andamos constantemente a procurar formas de individualmente nos posicionarmos e por vezes esquecemo-nos que só numa união solidária e determinada podemos realmente fazer a diferença. As Belas-Artes nunca tiveram problemas em reflectir sobre si próprias, de repensar infinitamente as suas posições filosóficas e culturais. Não terão então, certamente, dificuldade alguma em identificar os problemas concretos e materiais que afectam as pessoas que constituem as Belas-Artes. Para lá das especificidades de cada disciplina que se ensina e aprende nesta casa, urge combater pelo que é comum. Porque não há razões para acreditar que o ensino público esteja seguro, nem o direito à habitação, ao trabalho ou à alimentação. Muito menos à felicidade. Quando essas necessidades se transformarem definitivamente em insuficiências, poucos terão paciência para ser artistas ou designers. Por isso é melhor perder já a paciência com as promessas adiadas da austeridade. Perder a paciência com um discurso que pinta o diabo a quatro aos estágios não-remunerados enquanto sustenta um sistema que deles depende. Perder a paciência com as intermináveis alusões às rupturas históricas por vozes profundamente conservadoras que se opõem à mínima mudança. Perder a paciência com a discriminação que tanta gente ainda sofre à nossa volta. Perder a paciência com quem continua a criticar a escola de artes como um espaço elitista e alheado da realidade — sendo que há apenas uma forma de o fazer: provando através das suas acções que de facto não o é.


Texto escrito para o número 3 da revista Cisterna, com o tema “Limites”, uma publicação da Associação de Estudante da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa.

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