Comentário a La Chinoise

[Este texto foi escrito a propósito de uma visualização do filme La Chinoise de Jean-Luc Godard, no 3º ano da licenciatura de Design de Comunicação na FBAUL. Partilho-o porque encontro nele algumas ideias que mais tarde vieram a ressurgir no âmbito da exposição e publicação final Agora, irrepetível.]


“A história é o objecto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogéneo e vazio, antes formando um tempo pleno de «agora».” Walter Benjamin, Teses sobre a Filosofia da História.

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Fotograma de Sans Soleil, de Chris Marker (1983)

Será possível fazer um retrato fidedigno de toda uma geração? A História tem-nos ensinado sucessivamente que as narrativas do passado estão contaminadas pelo mito. A História que ouvimos é a história que queremos ouvir. Dependendo de quando e onde nascemos, por quem fomos ensinados, a História é algo demasiado vago e etéreo para poder ser gravado. A todo o passado que observamos falta o agora, a substância do tempo a que a memória não pode aceder. Em Sans Soleil, de Chris Marker, um viajante pergunta como podemos nós realmente lembrarmo-nos do que é ter sede.

Parece imprudente falar da falta de agora da memória a propósito de um filme que se debruçou sobre os traços de uma geração enquanto ela existia de facto. Os jovens que protagonizam o filme são os interlocutores de uma mensagem que não pode ser descodificada de forma simples e imediata. Isto porque o filme-ensaio que é La Chinoise não deve ser visto como uma crítica; nem ao status quo da época, nem aos movimentos que se lhe opunham.

É-nos dito que estamos perante um filme em vias de ser feito: vemos a câmara, a claquete, os olhares cheios de dúvida, ouvimos as perguntas de Godard (e serão perguntas “autênticas” ou encenadas? aliás o que é encenado? quem é actor dentro do filme? quantos níveis de representação existem?). Alongamo-nos assim num parênteses para perguntar o que é verdade ou mentira; o que é sequer isto da verdade e da mentira num filme? O que é La Chinoise, o que pretende retratar?

Diria que pretende retratar tudo menos a geração em si, como costumamos entendê-la. La Chinoise não existe num plano de factos, mas de uma relação de enlace entre um pathos sobejamente conhecido da juventude rebelde com o ethos da insegurança, do “Como levamos a cabo uma revolução?”. Este ethos é o agora de 1967, em França. De forma audaciosa, Godard aventura-se no périplo de captar o imaterial conteúdo do tempo, condenado a ser perdido nas reconstituições da História, que verá nas imagens da revolução uma sedução poética à qual é difícil resistir. Godard serve-se destas imagens como um todo para protagonizar um programa maior: preservar na película o agora desse tempo. Se o conseguiu, é ainda mais difícil de afirmar, mas que o tenha tentado é, sem dúvida, uma ideia apaixonante.

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Fotograma de La Chinoise, de Jean-Luc Godard (1967)

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