Cinema contra o Estado

Numa palestra dada na FBAUL a propósito do Doclisboa, o realizador sérvio Želimir Žilnik fez uma retrospectiva da sua carreira cinematográfica, focando-se nos seus métodos de trabalho na produção de documentários na antiga Jugoslávia. A conversa acabou por se tornar numa fantástica exposição de ideias sobre a relação do cinema com o Estado, a política e a sociedade. Há uma abordagem transversal nos filmes de Žilnik à crítica do socialismo primário e dos estados onde as promessas se transformaram em decepção, sob a forma de pobreza, miséria e opressão.

A forma de fazer filmes adaptava-se necessariamente a esta realidade, fosse pela ausência de recursos, pelas difíceis condições sociais ou pela censura que durante muitos anos proibiu vários filmes de serem exibidos — não apenas na Jugoslávia, mas também na Alemanha, por exemplo. Žilnik explicou que abdicou cedo dos apoios do Estado não apenas por causa da censura, mas porque o processo burocrático excessivamente demorado o impedia de filmar e editar com rapidez, sem perder nunca a actualidade dos seus temas.

Mostrando vários documentários, ou excertos dos mesmos, da sua extensa obra, com especial atenção à turbulenta década de 1960, foi traçando um perfil de um realizador que se insere na história. Em June Turmoil está lá, nas manifestações estudantis de Belgrado em 1968, num filme que se torna documento e memória de um acontecimento histórico. No meio de toda a convulsão, conta Žilnik, a realidade superava a imaginação possível de qualquer guião, como nas discussões acesas sobre se a universidade se devia chamar “Karl Marx” ou antes “Karl Marx Red”.

Mas se houve peça que sintetizou melhor esta relação tensa entre o cinema, o Estado e o contexto social, foi sem dúvida Black Film (1971). Numa altura em que os realizadores eram acusados de querem substituir os políticos sem apresentarem qualquer tipo de solução para os problemas, Žilnik foi aos limites. Encontrou um grupo de homens sem-abrigo na rua e levou-os para o seu apartamento, onde passaram várias noites com ele, a sua mulher e o seu filho. De seguida foi para a rua perguntar a várias pessoas e instituições o que devia fazer com eles. Como seria de esperar, não havia respostas. Assim desmontou o argumento fácil de que para criticar é preciso fazer melhor (uma anulação do próprio papel da crítica), desmascarando a hipocrisia daqueles que apenas pretendiam silenciar as vozes dissidentes.

Para Žilnik, o cinema documental não é apenas político e social, mas também um comentário fundamental sobre a condição humana ao nível existencial. Este entendimento parece-me em linha com o carácter de filme-ensaio de algumas peças mostradas*, bem como com a ideia de semi-ficção que o realizador referiu. Quando o mau da fita não pode ser filmado, ele pode ser representado. Ou então olhemos para Early Works (1969), uma espécie de retiro jovem do socialismo ensaiado longe da sociedade burguesa, em tudo comparável ao de La Chinoise, de Goddard. E tudo isto não acontece na procura de uma identidade ou linguagem artística, mas por uma vontade apaixonante de participar, de denunciar e mudar o contexto sobre o qual se trabalha. Ser simpático com o sujeito do filme, com quem devemos ter empatia e em quem devemos confiar, mas nunca ser simpático com o público, nem com o Estado, nem com a censura.

A certa altura, Žilnik afirmou que aprendera duas coisas ao longo da sua carreira: que a vida não é simples e está cheia de problemas para toda a gente; que os problemas dos artistas não são os piores problemas do mundo.


* posso apenas falar dos filmes que foram mostrados, pois desconhecia a obra de Žilnik previamente a esta palestra.

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