Doing it for the $$$

Há quem ache que um designer só pode trabalhar por gosto àquilo que faz, o que torna legítimo assumir que ele o fará de graça. Recusar, por vezes, parece uma heresia. Onde é que já se viu, trabalhar por dinheiro? O que interessa é a “paixão”, a “experiência” e o afinar da “arte.” Com a crise acentuou-se esta linha de pensamento, mas por motivos ainda mais maliciosos. Na ignorância generalizada do público em relação à profissão de designer, encontrou-se uma forma de promover o trabalho mal ou não-remunerado sem grandes constrangimentos sociais.

O pior disto tudo é que os próprios designers jovens estão a cair na armadilha e a começar a acreditar que é mau pedir dinheiro pelo seu esforço. Por vezes encaram a empresa de qualquer badameco que inventou a pólvora como uma causa e não como um trabalho. É o tipo de conversa fiada daquelas ofertas de emprego que não dizem nada sobre o trabalho em si ou sobre as condições do contrato mas que descrevem muito bem e com sentido de humor muito apurado o espírito de camaradagem da equipa, onde toda a gente se trata por “tu” e são todos muito fixes e criativos e inspiradores. Sei de fonte segura que até na Menina Design Group faziam torneios de futebol.

Há situações em que o trabalho não-remunerado é aceitável, mas não me lembro de nenhuma em que a iniciativa não tenha de partir do próprio designer. Ou melhor, se alguém tem de me explicar porque é que eu devia aceitar trabalhar de graça num determinado projecto, então a resposta vai ser sempre não. Na verdade não tenho um grande problema em que me peçam para trabalhar de graça, mas sim que esperem à partida que eu aceite. Na maior parte dos casos não vou aceitar, mas é importante saber que a pessoa do outro lado está consciente do que pede e não parte do princípio que eu estou disposto a dedicar-me a algo nesses termos. Mas isto já é a diferença entre um convite e uma oferta, ou entre um projecto pontual e um emprego. Todo o discurso dos estágios e semelhantes “ofertas” serve para exercer pressão sobre jovens recém-licenciados de forma a aceitarem algo que, em condições normais, não aceitariam porque não teriam qualquer interesse nisso. Isto é exploração. É aí que os designers devem de assumir a sua responsabilidade: tentar educar quem não sabe e denunciar aqueles que sabem mas ignoram.

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