Oportunidade perdida

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Quando ontem me perguntaram a minha opinião sobre o novo logotipo para a cidade de Vila Real, Capital da Cultura do Eixo Atlântico em 2016, ainda não o tinha visto. Procurei-o e não foi fácil encontrá-lo, por ainda ter sido pouco divulgado, e (surpresa, surpresa) é algo extraordinariamente mau. No entanto, por pior que fosse, nunca iria ser mau o suficiente para que muita gente tirasse as devidas conclusões. Vou, por isso, tentar deixar a minha opinião sobre o significado de um desleixe tão grande. Faço-o partindo do pressuposto que é do interesse público haver esta discussão, e que todos têm igual legitimidade para nela participar, sem medo de estar a desrespeitar o trabalho e o esforço de ninguém. Não se trata disso; nunca se trata disso, ao contrário do que por vezes nos querem fazer crer.

Começo pela primeira pergunta que muita gente deve levantar, pelo menos para si próprio, quando alguém se refere a este assunto. Perante o anúncio de que Vila Real e Matosinhos vão ser capitais da cultura do Eixo Atlântico em 2016, que sentido faz reclamar com o logotipo? Não se deve enaltecer a boa notícia antes de criticar questões estéticas ou de gosto?

Quem pratica, lê, escreve ou se interessa sobre e por design, pode achar redutor fazer uma pergunta destas. Eu certamente acho. Mas parando para pensar melhor, devemos perceber que é dever destas pessoas que se interessam por design responder a esta pergunta. Sim, faz todo o sentido falarmos do logotipo, se ele nos incita a isso. Pode ser por ser muito bom, mas na maior parte dos casos é porque é muito mau. Acredito que esta razão é suficiente para justificar que alguém fale exactamente daquilo que queira falar, independentemente do que os outros achem suposto ser mais importante ou urgente.

No entanto, neste caso específico do logotipo da Capital da Cultura—e num sentido mais abrangente, em qualquer situação em que o design seja o assunto—existem outros motivos. O mais forte é precisamente o facto de um logotipo não ser apenas uma questão estética ou de gosto. É a cara de todo um projecto, é muitas vezes a sua primeira manifestação formal e acompanha-o em todos os momentos. Acima de tudo, um logotipo é a identidade (ou a tentativa de a representar) do sujeito a que se refere. Não podemos esquecer esta palavra, pois se a identidade de um projecto está em causa, o assunto não pode ser ignorado.

O design é uma disciplina com uma relação complexa com a crítica. A generalidade das pessoas olha para a crítica como algo negativo, talvez pela carga de significado mal interpretado que a própria palavra tem. Ainda assim, reconhece-se a crítica de cinema, de arte ou de literatura como algo mais ou menos “normal” e aceitável. Pelo contrário, a crítica de design, como discurso recente, não reúne muitos adeptos ou sequer conhecedores, e mesmo entre os designers, criticar não é um acto consensual. Diria, no entanto, que o papel da crítica no design tem uma importância que não se esgota no olhar posterior sobre algo—na teorização, chamemos-lhe assim—mas também contamina a prática, sugerindo novas formas de criar. O design crítico é um território pantanoso, mas muito habitado, onde gosto e estética não são factores decisivos. Raramente a crítica de design se debruça apenas sobre a especificidade do design.

O designer e crítico Michael Bierut escreveu, em 2006, um texto intitulado “Warning: May Contain Non-Design Content”. O texto pode muito bem ilustrar, e até substituir, muito do que eu tento aqui explicar, e aproveito a última frase como contributo para a discussão em causa: “Not everything is design. But design is about everything. So do yourself a favor: be ready for anything.” O logotipo de uma empresa ou, neste caso, de uma iniciativa institucional, não é apenas uma imagem que dispensa as pessoas de ler o nome da mesma. A sua carga simbólica (ou a ausência dela) é uma afirmação sobre o conteúdo. Um mau logotipo não simboliza uma má empresa, mas um logotipo desleixado dá-nos algumas indicações. A sua dimensão de objecto cultural tornado público coloca desafios de significado que não permitem que um logotipo, ou para este efeito, qualquer objecto de design, seja apenas um problema visual. O design existe e acontece em contexto com o tempo, o lugar, a política, a sociedade, etc. O design não pode ser ignorante do seu contexto, não pode viver da falsa inocência de ambicionar ser apenas bonito ou agradável.

Acho que isto fundamenta minimamente o motivo de o logotipo para “Vila Real: Capital da Cultura do Eixo Atlântico 2016” me causar tanta inquietação e de isso me fazer criticar a identidade gráfica antes de elogiar o acontecimento. Não me parece que isto ponha em causa tudo o que é, à partida, positivo num projecto destes. É claro que Vila Real e Matosinhos beneficiam de ser capitais da cultura, é claro que isto é uma coisa boa para toda a gente. Isto não significa que não haja coisas a serem mal feitas, e que ao serem mal feitas prejudicam muito do que será, eventualmente, excelente.

Para a ideia que gostava de passar aqui, pouco importa quem desenhou o logotipo. Na verdade, não me interessa criticá-lo exclusivamente como um exemplo de mau design, mas como um exemplo da total falta de pensamento estratégico habitual destas iniciativas institucionais no que toca ao design de comunicação. Acho que seria de esperar, num projecto dedicado à cultura, que houvesse algum cuidado com a imagem. Ainda assim, o que vemos à partida é um logotipo mau—péssimo—cuja falta de qualidade não se esgota naquilo a que muitos chamam de “avaliação subjectiva de gosto”, mas que nos dá indicações mais profundas sobre este Ano da Cultura. Desde logo, há uma ausência clara de algo a que se possa chamar um projecto de design. Foi feito um logotipo e pronto.

Esta marca gráfica que é, a partir de agora, a representação de Vila Real como capital da cultura, tenta ser tudo ao mesmo tempo e consegue não ser nada. Ignorando o facto de o logotipo ser mal desenhado, desequilibrado, desinspirado e bastante…feio—mesmo ignorando tudo isso—ainda há uma análise mais fria, do simbolismo da imagem, que não deixa de desiludir. Percebo que o tema do acontecimento ande à volta do vinho e do Douro, mas era mesmo preciso ter a cultura toda mergulhada num copo de tinto? Talvez fosse hora de mostrar que Vila Real pode ser uma cidade atractiva por diferentes razões: pelas corridas, pelo vinho, pela cultura… Em vez disso, optou-se por manter a antiga e nada ambiciosa identidade de uma região parada no tempo, onde tudo o que acontece deriva de uma actividade predominante que é a razão única para a existência desse lugar. Verdade seja dita, isto vai além do logotipo, e é já um problema político, mas estes são também problemas de design.

Chamaram-me a atenção para uma das notícias que anuncia a escolha de Vila Real e Matosinhos como capitais da cultura, e de como a mesma é uma descrição detalhada do logotipo. Lê-se assim: “100 eventos de teatro, música, cinema, dança e literatura que vão ter como mote principal o vinho e o Douro” (Lusa). O que é que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Poderia haver algo mais óbvio e imediato? Quem é que na cadeia de responsabilidades foi o primeiro a sentir-se satisfeito e orgulhoso com este logotipo?

Acima de tudo, este logotipo é uma oportunidade perdida. Mais uma. Para qualquer designer, ver um Ano da Cultura assim representado, é o mesmo que ouvir que esse ano não está pensado para si nem para a sua actividade. O design fica de fora, logo desde o início. Mais uma vez, as entidades responsáveis demonstram a sua total incapacidade de reconhecer o design como parte essencial e vital dos seus projectos. Já nem peço que se dedique programação ao design, mas ao menos que haja algum cuidado na criação da identidade do Ano da Cultura. Será pedir demasiado? Não me espantaria nada que no decorrer desta celebração se viesse falar de design, ou seja, dos concursos de cadeiras, da indústria mobiliária, das novas e entusiasmantes possibilidades que a disciplina representa (no fundo, aquilo que pode ser encontrado nas extraordinariamente banais introduções de Jorge Barreto Xavier ou de António Pires de Lima ao site do Ano do Design Português.) Pão e circo. No final do dia, nada muda com este logotipo, poucos esperariam sequer uma surpresa agradável. A sina parece estar escrita, o futuro continua a reger-se por critérios de mediocridade.

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