Tolerância

Não queria escrever muito sobre o atentado ao Charlie Hebdo. Não por achar que não tenho direito a uma opinião, mas porque já tanto foi dito e escrito que não me parece que possa acrescentar algo de relevante à discussão (embora isto seja altamente discutível). Escrevo apenas porque recentemente li várias vezes e escrevi sobre um ensaio de Karen Armstrong intitulado “Podemos nós viver sem o outro?” É uma leitura muito interessante sobre a falta de diálogo entre as religiões e a intolerância generalizada que leva ao chamado choque de civilizações. Quando se refere à crise dos cartoons de 2006 na Dinamarca, Armstrong realça que nenhum dos lados se esforçou por encontrar um lugar-comum para gerar diálogo. Em vez disso, extremaram-se as posições e tornou-se impossível haver compreensão parte-a-parte entre duas cultura com noções sociais tão diametralmente opostas. Não sei se concordo necessariamente com as implicações desta ideia, algo que tem vindo a ser frisado nos últimos dias em relação à suposta falta de bom-senso dos cartoonistas do Charlie Hebdo. Se a liberdade de expressão é um valor enraizado na sociedade ocidental, pedir que o mesmo seja moderado pelo medo de ofender é algo mais legítimo do que pedir ao outro lado que não se sinta ofendido? Parece-me que este caminho leva a discussão para uma regressão infinita, sem qualquer tipo de esclarecimento possível.

Voltando a Armstrong, não descarto a sua posição. Aquilo que veio a surgir após o atentado, e talvez a mais grave de todas as consequências, foram a trincheiras em que tanta gente se fechou. A trincheira da islamofobia, a trincheira da censura moral, a trincheira do medo, a trincheira dos que rapidamente se levantaram a gritar “hipocrisia!”… O ardor com que estas posições têm vindo a ser defendidas demonstra, para mim, como este atentado atingiu profundamente o estilo de vida ocidental. As nossas maiores ansiedades foram expostas, a Europa uniu-se em respeito pelas vítimas mas rapidamente se voltou a dividir nas interpretações, muitas vezes precipitadas, daquilo que foi, e ninguém o pode negar, um acto horrendo e desumano. Custa-me perceber como alguém pode acusar toda uma cultura religiosa por um atentado ou por uma aparente destruição dos pilares ocidentais. Só uma agenda pré-fabricada pode fazer esta leitura (Le Penn é o melhor exemplo). Mas custa-me igualmente ver como muita gente não se esforça por perceber porque é que este atentado despertou tanta solidariedade em pessoas muitas vezes insensíveis aos massacres noutro locais mais distantes. Só quem não quer é que não percebe que a proximidade desempenha um papel importante, bem como o facto de este ter sido um ataque cirúrgico para calar alguém. O facto de isto me assustar, e o facto de me revoltar e me mostrar solidário, não faz de mim nem um islamofóbico xenófobo nem um hipócrita insensível. Nem a mim nem a ninguém. No rescaldo do horror, abriram-se ainda mais trincheiras. Todos clamam por tolerância, mas esta parece ter morrido um pouco no atentado de Paris.

Muito mais havia para dizer, talvez noutro texto.

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