Paisagem Carioca

Ontem fui ao Arquivo 237, a propósito da FACA, assistir a alguns documentários. Um deles, Paisagem Carioca, era dos que eu mais antecipava e não fiquei nada desiludido. Apesar de ter alguns problemas de edição (que não chateiam muito), é uma recolha muito interessante de perspectivas sobre a favela do Vidigal, no Rio de Janeiro. Destino escolhido por um número cada vez maior de estrangeiros que nela vêem um paraíso de rendas baixas e vida comunitária que não se encontra no “asfalto”, o Vidigal confronta-se agora com o problema da sobrevalorização do território, cada vez mais um local “cool” e consequentemente caro. Isto significa que, paralelamente a uma melhoria das condições de vida para a qual a chegada dos gringos foi preponderante, os habitantes “naturais”, maioritariamente brasileiros pobres, estão a ter de abandonar para outras favelas. O documentário ganha muito com o facto de ser extremamente consciente deste lado negativo de algo que aparentemente só poderia trazer melhorias. Por outras palavras, o filme não embala num positivismo cliché e deixa em aberto a pergunta sobre o futuro da favela.

Foi uma boa alternativa ao sem-fim de documentários e reportagens que se encontram no Youtube. Se, por um lado, Paisagem Carioca ignora (deliberadamente) o assunto do crime, a televisão brasileira parece obcecada em mostrar um mundo de decadência, drogas e violência. Não que eu esperasse outra coisa, nem que ignore o problema sério e real do narcotráfico, mas em pouco ou nada os media mainstream relacionam este problema com causas maiores como a pobreza extrema, o desinvestimento cultural ou, no geral, a política (e isto é fazer copy-paste para qualquer outro país/problema no mundo). Depois do Tropa de Elite, o standard jornalístico parece ter ficado estabelecido no plano cinematográfico dos tanques a invadir o Complexo do Alemão. Felizmente, e por um acaso igualmente feliz, o Público anda por este dias a publicar muito material sobre o Brasil, já li alguns textos e foi um novo alívio face ao sencionalismo da Globo.

Na sessão seguinte da FACA apanhei ainda o excelente Alto do Minho, um retrato explosivo das festividades populares e religiosas da região minhota, e que muito identifiquei com o que se vive em Trás-os-Montes. O filme deve muito à sonoplastia e à guitarra do Norberto Lobo (que umas horas mais tarde fui ver em concerto com João Lobo na ZDB).

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