Retrospectiva

Preparo-me neste momento, juntamente com os três colegas de grupo habituais, para enviar uma candidatura a um congresso internacional de Belas-Artes realizado em Istambul. A proposta é de um painel de 4 elementos, o tema é o design como activismo. A escolha do tema reflecte dois trabalhos realizados na cadeira de História e Crítica do Design II — um de grupo, onde se interligou o ensaio Design Reflexivity de Jan Van Toorn, com o Modernismo Radical de Dan Friedman e a Art Workers’ Coalition, de Nova Iorque; o outro, individual, é uma peça que escrevi sobre o Accessible Icon Project (pode ser lida aqui). Se houve ideia que cresceu em mim durante este semestre é que o design cada vez menos se pode esconder da política. Design responsável, social, comunitário — esta adjectivação pode não parecer mais do que uma coleção de lugares-comuns, mas a discussão é de extrema importância. Num contexto social em convulsão, falar da responsabilidade do designer é antes de mais falar da responsabilidade do cidadão. Ao criarmos este painel, fazendo uma escolha de tema bem vincada ideologicamente, estamos também a dar continuidade a um ambiente pelo qual somos influenciados de forma clarividente, um ambiente académico de grande especulação prática e sobretudo crítica. No já referido ensaio Design Reflexivity, Van Toorn evoca Rem Koolhaas, que afirmava que o facto de arquitectura ser, no presente tempo, impossível, era o argumento que mais o entusiasmava a dedicar-se à actividade. Van Toorn fala então do fim da enclausuramento da discussão do design na especificidade do design. O mesmo é dizer que os problemas do design já não podem ser apenas os problemas do design, mas os da sociedade, do contexto em que o design acontece. Essa resposta de extrema consciência do real deve manifestar-se numa quebra com a abstração imposta pela cultura dominante.

Neste semestre tive também o prazer de poder trocar umas palavras por e-mail com Leah Serao, uma das responsáveis do The Accessible Icon Project e perceber um pouco melhor novas estratégias inclusivas que os designers adoptam em trabalhos que se direcionam à melhoria das condições de vida da comunidade. Mais do que resultados finais fantásticos ou soluções absolutas, evidenciam-se processos entusiasmantes que chamam ao palco do design especialistas de outras áreas, mas sobretudo as pessoas a quem o design se dirige. No caso particular deste redesign do símbolo da cadeira de rodas, e sobretudo por ter uma importante existência na internet, gerou-se uma grande discussão pública, pondo muitas vezes em causa a necessidade do próprio redesign. Estas críticas, importantes num diálogo bidireccional, reforçam a vontade dos responsáveis por explicar a importância do projecto, obrigam-nos a não serem impositivos. O designer precisa então de ter uma consciência social aliada a uma “paciência” comunicativa e uma certa predisposição para lutar batalhas perdidas. O design como activismo, ou activismo pelo design, faz-se dos processos e estratégias, do questionamento anti-dogmático, de um olhar crítico sobre as escolas.

Art Worker’s Coalition chegou a sugerir que se fechassem todos os museus enquanto decorresse a guerra no Vietnam porque o Belo não pertencia aquele tempo, era até impossível. O momento hoje é de várias crises, de enorme dúvida e mesmo medo do futuro. De muitas maneiras, o design é impossível. As discussões da Faculdade de Belas-Artes são cada vez menos das Belas-Artes, o mundo e o futuro apresentam-se enormes e complexos. A inquietação levanta perguntas e as respostas andam por aí. Falo com um conhecimento muito limitado do panorama universal do design, mas sei que olhando para o lado na minha sala de aula talvez encontre alguém que se recusa a ficar indiferente à realidade do nosso tempo e que se presta a discutir o design como uma ferramenta para resolver problemas que outrora foram ignorados.

Talvez a experiência de design mais fantástica que tive até hoje aconteceu no dia 2 de Março do ano passado. Estava no centro do Marquês de Pombal, num pequeno atelier popular das Belas-Artes, inspirada nos ateliers do Maio de 68. Pelo telemóvel, o meu pai que assistia na televisão, dizia-me que os manifestantes eram centenas de milhares, enquanto eu ouvia ao meu lado um grito amplificado de que a Avenida da Liberdade estava compacta até ao Rossio. Mas nós, muito poucos perante as centenas de milhares, concentrávamo-nos em pequenos pedaços de cartão e tubos de tinta vermelha e preta. Ouvíamos as pessoas e os seus apelos e fazíamos o possível para materializá-los no tal pedaço de cartão. Sei que a maioria dos meus colegas viu com maus olhos o atelier popular do Marquês, mas os poucos que o entenderam fazem uma multidão. Ter encontrado o meu lugar nessa multidão ensinou-me tanto como qualquer cadeira da universidade. A experiência de design mais fantástica que tive até hoje foi o menos design possível. Pensando em retrospectiva, percebo então o que queria dizer Van Toorn ao referir Koolhaas, é possível que o design nas suas manifestações mais simples e despretensiosas encontre caminhos mais úteis para responder aos problemas da sociedade do que quando se glorifica num pedestal, de crystal goblet na mão.

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