Exercícios de contextualização em movimento

É de noite e viajo num autocarro entre Lisboa e Vila Real. Já passam quase duas horas desde a partida mas nem a meio do caminho vou. No iPod toca Fela Kuti, depois de já ter rodado a seleção musical por vários outros discos, aborrecendo-me sempre. Não me apetece ler, sobretudo porque vou enjoar. Provavelmente enjoarei também a escrever. Pela janela não se vê nada senão o interior reflectido do autocarro, com as suas luzes azuis estéreis que se organizam de forma alinhada e perspética, criando uma segunda dimensão espacial do veículo no qual me desloco. Do exterior vêem-se, ocasionalmente, luzes indistintas que fogem assim que as vemos. Edifícios industriais cujo anonimato se acentua com a nossa condição de imparável locomoção. Somos rápidos demais para a paisagem. Ao fundo, dentro do autocarro, um mostrador de caracteres vermelhos luminosos alterna entre a hora e a temperatura. A hora faz-nos desesperar toda a viagem — falta tanto. Apenas com o aproximar das 22:45 vou começar a apreciar a informação. Mas e a temperatura? De que nos serve? O leitor deste texto indicará, certamente, a necessidade de saber a temperatura ao sair do autocarro, e estará correcto. Mas vejo nesta informação uma segunda funcionalidade — a da contextualização. Dentro do autocarro nocturno de luzes azuis reflectidas, de caras desconhecidas e sons mecânicos ininterruptos, existimos num espaço de anonimato, de abstracção completa da realidade exterior. Quando a escuridão é total lá fora, não estamos em lado nenhum, apenas a tentar chegar a qualquer outro lugar. A temperatura constante do interior, igual durante todo o ano, durante toda a viagem, exacerba a condição intemporal e desprovida de sítio do transporte. E se o marcar da hora pouco mais nos diz sobre o que acontece fora deste ambiente hermético, o conhecimento da temperatura desperta-nos os sentidos. Preparamo-nos para um frio que sabemos que vamos sentir, imaginamos o frio que lá fora já se sente, e dessa forma estamos fora do autocarro. É uma evidência do exterior. Sem luz, sem chão, mas com frio. Contextualizamo-nos além da uniformidade repetitiva das 5 horas de viagem. Sem saber onde, garante-nos que estamos.

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