Um novo nada

Quando chega ao fim, A New Product (Ein Neues Produkt) é um filme sobre nada. Não de uma forma Seinfeldiana, onde o nada se torna assunto, mas de uma maneira incrível como os intervenientes do documentário conseguem, através de uma abstração total do discurso e das ideias, transformar o assunto em nada. Não conhecia Harun Farocki nem a sua obra, e este documentário, exibido no Doclisboa, foi o primeiro contacto que tive com ambos. O filme acompanha as reuniões de um empresa de consultoria empresarial alemã que discute novos paradigmas de organização e funcionamento do espaço de trabalho comum. A ideia parte do open space reajustável às necessidades do trabalho e da sua natureza, e visa aumentar a produtividade da empresa. Pelo meio, vai-se escondendo este objectivo com as preocupações dos trabalhadores. Ao longo desta meia-hora (sensivelmente) vemos executivos a tentarem-se colocar na pele dos seus empregados, adivinhando as sua impressões sobre o novo espaço. É um pouco o “brincar aos pobrezinhos” da cultura empresarial. Fala-se de sacrificar o habitual espaço pessoal e privado, “decorado” pelo trabalhador, pelo espaço comum cheio de novas oportunidades. Fala-se de substituir a ambição dos trabalhadores em progredir na carreira pela ambição de contribuir para o bem da empresa. É o síndrome Tom Sawyer, pelos vistos. Propõe-se o fim das recompensas monetárias em troca de recompensas em forma de férias, bens materiais ou serviços. Exalta-se a vida pessoal e familiar do trabalhador. Mas ao mesmo tempo cria-se um modelo em que a sua vida se limita ao complexo da empresa — trabalha no escritório, come na cantina, faz compras no centro comercial e jogging no ginásio, sem nunca sair, de facto, do local do trabalho. “Trabalhar – descansar – trabalhar – descansar”. Aumenta a produtividade, afirma um dos indivíduos. Pensar tudo isto é, pois claro, uma enorme diversão executiva, havendo lugar até para exercitar o famosíssimo sentido de humor germânico. Tudo neste filme me lembra do CEO da Madrigal, na série Breaking Bad, e o seu método muito neat de se suicidar. Menos o suicídio, claro. E se é possível reter algumas ideias, como as que apresentei aqui, elas surgem-nos como meras impressões incandescentes no meio da escuridão abstracta da discussão em que mergulhamos. Não é realmente importante se concordamos ou não, se é absurdo ou genial, porque torna-se quase impossível decifrar a cacofonia destas reuniões. Não sei se se lhe pode chamar retórica, egotrip, ou outra coisa qualquer. Mas separando o trigo do joio, deparamo-nos com um vácuo ideológico. E é no demonstrar deste vácuo que, na minha opinião, reside o brilhantismo do documentário. É também nele que está a verdadeira questão preocupante, se tivermos em conta que reuniões destas acontecem todas os dias, em milhares de escritórios, decidindo a vida de milhões de pessoas. 

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