Por um design lento

Na linha de discussão do designer como autor, podem ser encontrados inúmeros paralelos com o trabalho jornalístico. Ellen Lupton afirma no seu texto “The Designer as Producer”, que o designer não precisa necessariamente de saber escrever fluentemente, mas apenas compreender as ferramentas da escrita de forma a poder usá-las no seu trabalho. Assim, perfila um designer multidisciplinar, que assimila processos externos ao design e os agrega no seu trabalho. O conhecimento teórico, tecnológico e prático de um designer deve ser o mais abrangente possível, equivalendo a uma ilimitação das suas possibilidades como mais do que um mero formatador dos objectos que lhe chegam às mão. É neste sentido que se pode entender um possível futuro da disciplina do design, como uma área que intervém sobre a sociedade, que assume responsabilidades perante os problemas, apresentando soluções a fundo, não se limitando a reagir passiva e casualmente a situações pontuais. Este é um debate bastante amplo, ao qual se juntam cada vez mais vozes diferentes, ideias novas e factores relevantes.

“In Beijing, the joke among hacks is that, after the drive in from the airport, you are ready to write a column; after a month, you feel the stirrings of an idea-book; but after a year, you struggle to write anything at all, because you’ve finally discovered just how much you don’t know.”

Este apontamento surge na sequência de um artigo que acabo de reler, que me despertou, originalmente, grande interesse. Não por ser um texto excelente, mas por relatar um processo único de abordagem à criação de conteúdo jornalístico, que me parece relevante para qualquer designer. “In Praise of Slow Journalism”, escrito por Even Osnos para a revista The New Yorker, descreve uma abordagem aos assuntos reportados que, como o título indicia, acontece sem pressas, tentando conhecer de forma aprofundada os problemas em questão. Se ao primeiro olhar, a superfície de um problema nos parece indicar soluções, uma análise demorada e atenta revela-nos novas condicionantes que alteram necessariamente a abordagem que entendemos como ideal. Desta forma abstracta, esquecendo a semântica própria de cada uma das áreas, é tanto um assunto do jornalismo como é do design. Trata-se de assumir processos em curso, em que o erro acontece e é corrigido em tempo real, sem necessidade de chegar rápido demais a soluções definitivas e dogmáticas. 

A ponte com Lupton traça-se precisamente na confusão entre jornalismo e design. Neste caso, a confusão não é materializada simplesmente num designer que faz jornalismo, mas antes na adopção deste processo experimental de análise. O designer que faz design, usando os métodos do jornalismo (como poderia usar os da escrita, da performance, da natureza,… ). O designer que, com a sua dimensão de observador ininterrupto, está na posição ideal para assumir este tipo de estratégias que são um antídoto para a efemeridade do design, ampliando a sua dimensão social, responsável e consequente. 

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