Lisboa de 3 em 3 anos

A Angelina dizia que estava farta de ouvir falar na Trienal. Não o dizia com desprezo, porque aliás, a Angelina acaba por fazer parte dela (via exposição “O Efeito Instituto”, no MUDE). Como só vim estudar para Lisboa no ano passado, esta é a minha primeira Trienal de Arquitectura, a terceira a acontecer desde a primeira edição em 2007. E, de facto, há círculos em que o tema Trienal é inevitável; as Belas-Artes são um desses círculos. Ontem, numa palestra com a designer de comunicação Raquel Pinto, que integrou a equipa criadora da imagem gráfica do evento, tomei pela primeira vez contacto com o carácter questionador e experimental de uma Trienal que acontece em aberto.

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Tenho ao meu lado o guia de eventos que na capa contém um dos muitos statements que marcam a identidade da Trienal. “OS LUGARES ESTÃO PARA AS PESSOAS E VICE-VERSA”. Estas palavras de ordem surgem como respostas dadas pelo público a perguntas colocadas no site da Trienal, e que posteriormente funcionam como matéria prima de todo o material gráfico, marca identitária (quase) única, ao invés de um logótipo ou slogan fixo (à excepção do título “Close, Closer”). Este carácter democratizado da procura de possíveis respostas às questões da cidade dá à Trienal uma aura de potencial agente modificador da cidade. A sua presença invasiva, quer física quer imaterial, através da partilha de ideias e conversas, é que nos faz ficar fartos de ouvir falar em Trienal, tal como a Angelina. Mas para lá desta exaustão está a esperança de que este acontecimento exerça um efeito real sobre a cidade, sobretudo sobre as pessoas que a habitam, e que surjam soluções deste tipo de iniciativas, visto que o mesmo já não pode ser, infelizmente, esperado das esferas do poder. Há ainda três meses de Close, Closer pela frente, muitos mais meses de discussão póstuma. No texto “Muitas e Desvairadas Gentes”, de Álvaro Domingues, é alinhavada uma Lisboa com problemas de identidade, com deficiências na sua própria existência como cidade. Talvez o trabalho apresentado na FBAUL pela Raquel Pinto seja uma uma solução. A abertura da cidade e da sua discussão aos seus habitantes, que são muito mais do que aqueles que nela dormem, pode ser um caminho. Pode, provavelmente. Talvez não seja. Se há pouco falava de possíveis respostas em vez de respostas apenas, é porque a própria premissa da Trienal não é encontrar respostas mas sim colocar questões. No entanto, e voltando à democracia, quando se colocam questões a públicos tão abrangentes, é natural que alguém diga alguma coisa com sentido. Aí é só ouvir.

Guilherme Sousa

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