Robinson Crusoe, o melhor designer de sempre

The Life and Strange Surprizing Adventures of Robinson Crusoe, of York, Mariner: Who lived Eight and Twenty Years, all alone in an un-inhabited Island on the Coast of America, near the Mouth of the Great River of Oroonoque; Having been cast on Shore by Shipwreck, wherein all the Men perished but himself.” — É este o título completo da icontornável obra literária que Daniel Defoe publicou em 1719, mais conhecida como simplesmente Robinson Crusoe. Após ler o livro, a longitude deste título faz todo o sentido, e abreviá-lo parece mesmo ser um crime. A narrativa que segue o mal (ou bem?) aventurado inglês Robinson Kreutznaer é igualmente longa, mas especialmente densa (não há qualquer tipo de pausa na leitura, como capítulos). Aliás, esta densidade torna-o longo, deliciosamente longo, diga-se. Apesar de se poder dividir em certos acontecimentos episódicos, existe uma linha que não é quebrada da primeira à última página, e que concretiza o carácter mais fascinante deste livro. Nada na história de Crusoe é inconsequente, e o que testemunhamos é o desenvolver da própria condição humana, numa exploração inédita do Homem retornado às suas raízes primordiais. A narrativa é aliás constituída de inúmeros presságios de acontecimentos futuros; a religião, à qual Robinson se vai tornando mais sensível, até se lhe tornar um fiel súbdito (um súbdito lúcido e racional), é um instrumento de viagem no tempo. Nas Escrituras, o aventureiro encontra paralelos à sua situação, e todo o seu fado parecia estar já previsto nas palavras de quem as escreveu.

Capa da edição de 2012 da Penguin, com uma fantástica ilustração de Neil Gower.

É no âmbito desta continuidade temporal de causa-efeito, que Robinson Crusoe se torna num dos maiores designers de sempre. Sim, porque a ilha tropical onde ele tragicamente desembarca é um problema a ser resolvido, talvez aquilo que no mundo da comunicação seria considerado um caso em necessidade de um redesign. Com uma visão pragmática de um Erik Spiekerman da sobrevivência, o protagonista leva a cabo uma série de experiências, uma espécie de testes de tipografia do mundo natural, que resultam no apuramento das suas soluções. A cada ano que passa, Robinson vive melhor: produz mais, dorme mais abrigado, não adoece tão facilmente. Robinson cria utensílios, explora o (seu) mundo, e acima de tudo, escreve. Tal como um designer. E como no design, quando os problemas parecem estar resolvidos, novos problemas surgem. Como uma tabela de horários rodoviários à qual se acrescenta mais uma linha de transportes à última hora, à ilha de Robinson acrescentam-se, por exemplo, novos habitantes. Robinson precisa, então, de aprimorar todo o seu sistema, aperfeiçoar a grelha da composição, para responder ao novo paradigma que lhe é apresentado. Lembre-se ainda a frustração de Robinson ao criar objectos funcionais mas evidentemente feios, o que demonstra que, apesar da sua incapacidade de a pôr em prática, Robinson possui o que se chamaria de uma sensibilidade estética algo apurada. Acima de tudo, é interessante ver como Robinson cria respostas eficientes aos entraves que lhe são colocados, através do seu conhecimento do mundo que deixou acidentalmente, exercitando a memória do passado, articulada com a interpretação da sua realidade presente.

No início deste ano, o meu primeiro no curso de Design de Comunicação, a minha professora de Projecto dizia-me que um designer é designer em tudo, programando todos os passos de qualquer actividade, projectando. Isto ao referir-se a um dossier de pesquisa que eu lhe apresentava e que gentilmente classificou como “muito engenheiro.” Talvez esta tenha sido das lições mais importantes que aprendi neste ano, pois a partir daí comecei não apenas a tentar ser designer em tudo, mas a procurar design em tudo. Foi assim que encontrei em Robinson Crusoe um dos meus designers preferidos. A única coisa que o denuncia é o cumprimento dos horários… Raios, agora nada disto faz sentido!

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