Design vernacular

Hoje vagueava pelo arquivo do Design Observer onde me deparei com um excelente artigo da autoria de Jessica Helfand intitulado “Civilian Typography: The Power and The Fury“. Neste texto de 2006 a autora explora o poder das mensagens escritas por ‘não-designers’, sobretudo a força do apelo, o grito de desespero: “When all else fails, the pen isn’t just mightier than the sword: it is the sword.” O ponto de partida é dado pelo furacão Katrina e as várias mensagens escritas nos frigoríficos abandonados na cidade, retratados no livro do fotógrafo Tom Varisco, Spoiled. No entanto, mais adiante no artigo, é contada a história do flyer de um embalsamador e a sua metamorfose súbita de um papel branco com a mensagem escrita a caneta sob a guarda de um logótipo fotocopiado, para um papel cor-de-rosa com o texto composto a computador. Isto captou-me a atenção. Sem que o flyer original fosse uma obra-prima, era sem dúvida uma impressão digital daquele pequeno negócio. O espírito desenrascado e D.I.Y não é apenas uma curiosidade estética mas uma narrativa estabelecida entre o objecto e o serviço que ele vende. Quando a folha é formatada, tornando-se igual a tantas outras, ela perde toda esta ligação. A pessoa que faz esta composição, fá-la de maneira igual àquelas que vão aparecer ao seu lado. A caligrafia, boa ou má (se se pode fazer a distinção), é tão pessoal que criará sempre objectos únicos; esses jeitos que qualquer pessoa tem ao escrever perdem-se quando se muda para um meio computarizado se não houver habilidade técnica para o dominar, como é o caso. O espírito é o mesmo, passar a mensagem da forma mais rápida e barato, vender o produto. Todas estas questões são indiferentes a quem imprimiu as folhas, e provavelmente serão também ao público-alvo. Mas pelo caminho perde-se um pedacinho de autenticidade de um sítio e de um tempo. Isto lembrou-me de uma loja que vi no Porto na semana passada, quando me desloquei lá a propósito do ENED. Falo do Sapateiro Fácil, um estabelecimento situado perto da Faculdade de Belas-Artes. Deixo aqui as fotos, que falarão melhor do que qualquer descrição. Não me atraiu apenas o carácter pitoresco da sinalização, mas também, e sobretudo, o pequeno stencil que se encontra na parede deste edifício  com o nome do estabelecimento. Poderá ser arriscado tentar adivinhar o processo por trás da existência deste stencil, mas algo é certo: o Sapateiro Fácil é um ícone (se pequeno ou grande não o sei) da cidade do Porto. E é-o certamente não pela qualidade do seu serviço (que não se põe em causa) mas pela sua aparência que transparece o mesmo espírito desenrascado e honesto do primeiro flyer do embalsamador norte-americano. Sei que já divago muito, e talvez fazendo pouco sentido, mas este raciocínio levou-me a pensar numa outra questão, ligada ao designer e à sua profissão.

ImagemImagem

Numa altura em que os redesignsrebrandings parecem ser a solução para todas as crises, questiono-me o quão intrusivo seria aprimorar a imagem deste sapateiro. Não será que a tipografia mataria toda a aura da loja? E será que isso interessa? A quem? Alguém voltaria a pintar o nome da loja naquela parede? Levantaram-se uma série de questões às quais não sei responder, mas exaltou-se um fascínio por este design vernacular, realmente marginal e alternativo, que é design sem o ser. E se pensarmos bem, quantas vezes os não-designer, os D.I.Y por necessidade e não por moda, não fazem um melhor trabalho do que um profissional. Vou continuar a pensar nisto.

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