5º Direito

Subiu a escadas porque o elevador estava avariado havia semanas. No terceiro andar ainda havia caixas espalhadas. Entrou na sua casa mal iluminada, onde o sussurro das preces da sua esposa fazia parte do silêncio. O bater da porta quebrava esse som do vazio, para o desespero da senhora que tinha aguentado com os ecos de um péssimo ensaio de saxofone num dos pisos superiores e julgava agora poder-se dedicar aos salmos sem interrupções. Olhou por cima dos óculos para o homem grisalho, voltando logo à comunhão com a Virgem que a encarava piedosa. Passado tantos anos de casamento era cumprimento suficiente. Ele retribui o entusiasmo e foi directo para o escritório. E se a iluminação da casa era pobre, ou melhor, descuidada, o escritório evidenciava horas de planeamento cuidadoso. As paredes tinham de ser imaginadas, pois escondiam-se por trás de inúmeras prateleiras, às quais os focos de luz se direccionavam. Nelas, recordações. Recordações de tudo, sobretudo viagens. Viagens recentes, viagens antigas. Viagens no tempo, viagens no espaço. Espaço. O que ele mais temia era a falta de espaço no mundo. Na sua casa apenas sobreviveram à loucura coleccionista a cozinha, por razões práticas, e o quarto da esposa, por insistência religiosa no direito ao silêncio que as recordações perturbavam. Também ela tinha um problema de espaço. Existiam longe um do outro porque não havia espaço para se juntarem. Por vezes recordavam-se de quando havia, mas o espaço logo encurtava com mais uma recordação. 

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http://casadacasa.tumblr.com/

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