3º Esquerdo

Ela nunca pensou que se pudesse sentir tão sozinha. Feria-a no orgulho admiti-lo; se a vergonha a acanhava diante dos demais, corroía-a quando só. Por isso abandonou o pensamento. Acendeu um cigarro para se aperceber que não tinha cinzeiro. Entrou em todos os compartimentos à procura, no caminho infestando a casa com o fumo. Esquecia- se que não tinha um; rasgou um pedaço de cartão de uma caixa e improvisou. O cheiro de casa nova – neste caso nada mais que uma estranha efeméride da anterior dona, uma mistura de lixívia e ambientadores baratos que abafavam os odores dos animais domésticos – não era propriamente reconfortante, mas acabar com ele marcava a tomada de posse no apartamento. Começava a ser a sua casa e isso não a fazia sentir bem. Mudava tanto de sítio que decidira não pertencer a lado nenhum. Talvez ignorasse o quão utópica é essa ideia, pois pertencemos sempre a algum lugar. Ela simplesmente optava por não pensar no assunto. E assim resolvia o problema da pertença como resolveu o da solidão: adiando o pensamento. Estaria errada? Condenamos quem adia e fazemos heróis dos que esquecem, esses corajosos que ousam entrar na profundeza da psique e defrontar os males com o duro ataque de apagar. Louvamos o definitivo e finito acto do esquecimento. Mas o que é adiar, adiar, adiar até à morte? Enfim, ela preferia a frieza de mais uma casa nova ao calor de um lar antigo. 

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http://casadacasa.tumblr.com/

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