Dixit #3 – Nuno Biónico: “Porque não?”

Há em Bragança uma promotora independente que há já cinco anos desenvolve um trabalho importantíssimo na realização de concertos de música alternativa fora dos grandes centros, o seu nome é Dedos Biónicos. Por trás da Dedos está o Nuno Biónico, ele que começou tudo com um simples blog na Internet e tem hoje nas mãos uma das mais respeitadas e acarinhadas entidades do meio musical independente. Recentemente, o Nuno começou a organizar concertos em Vila Real; depois de um ano de celebração em Bragança, com eventos como o Spirifest ou a “festa” de quinto aniversário da Dedos, encontrou no Club de Vila Real um novo espaço para o Rock. No final de Dezembro levou a esta casa duas bandas espanholas de um rock fervilhante e experimental, os Djalminha e os Extinsion de los Insectos. Nessa noite sentei-me à conversa com ele para tentar perceber como se aguenta uma promotora em Bragança durante cinco anos, e o porquê de a trazer até Vila Real, entre outros assuntos. Começamos por falar da génese da Dedos Biónicos, e o Nuno explica-me como tudo começou devagar, numa iniciativa proposta por outras promotoras independentes da cidade do Porto. “Conheci as pessoas nos concertos a que ia e perguntaram-me se não queria descentralizar estes eventos. Ao início achei a ideia um bocado estúpida. Mas ficou um bicho a morder o crânio.” Eventualmente a ideia tomou forma, e após uma primeira tentativa mal sucedida, Bragança começava a ter os seu concertos de música alternativa, com “bandas de gente conhecida”, como por exemplo os Lobster, no segundo evento organizado pela Dedos. Diz-me que o início corre sempre bem, porque as coisas são novidade, o burburinho é muito. “Prolongar isto por cinco anos já é mais complicado. Foi uma insistência pessoal da promotora. A rede de contactos alargou-se, as propostas vão-se concentrando, e tu como adepto da cena queres mantê-la viva. Então fazes um forcing porque é como um vício, é como o álcool ou a droga para muitos.” E se Bragança pelo seu isolamento geográfico e social em relação ao resto do país, parece ser um sítio pouco aconselhável para se construir uma estrutura sólida de eventos de música alternativa, o Nuno explica-me como na verdade, e tal como Vila Real, é um sítio estratégico, por se encontrar num ponto de passagem de Madrid para o Porto. “E há muitas bandas que querem passar por cá não só por essa posição estratégica, mas porque sabem que vão encontrar promotores que já estão ligados à cena e que os sabem receber. Está tudo conjugado para que aconteçam bons concertos em Bragança e Vila Real.” – diz ainda. E porquê Vila Real, porquê expandir o projecto da Dedos à capital de distrito vizinha? “Porque não?” – pergunta o Nuno. “Já havia um contacto com pessoas de vila real há uns anos, mas obviamente que teve também a ver com este florescer no qual a Covilhete na Mão teve um papel muito importante, trouxeram o borburinho de fazer algo em Vila Real”. Explica-me como esta mudança de ares pode ser equiparada à descentralização que pretendia quando começou a organizar eventos em Bragança; o público varia e podem ser explorados novos espaços, como o Club, ao qual vai deixando inúmeros elogios. Tudo isto é impossível, explica-me, sem o contacto entre as pessoas do meio, algo que foi falado várias vezes durante a nossa conversa. “A Dedos Biónicos vale-se da colaboração de todas as promotoras portuguesas. Embora seja de Bragança, não tem lá uma sede física e fixa. Se puder fazer algo numa aldeia qualquer também faço.” E de repente volta a surgir o “porque não?” – “Um concerto na aldeia da minha mãe?”. É este o espírito da Dedos Biónicos, quebrar as rotinas e criar espaços para o rock. Mas disse-me também algo que soou como uma surpresa: “Os concertos em 2012 foram muito menos do que em anos passados, e no entanto não se nota devido a estas novas promotoras que têm nascido. 2013 vai ser pior.” Para ele há um excesso de qualidade musical no país, e não chega a haver promotores suficientes para acolher estas novas bandas. Isto conjuga-se com uma outra crise: “Não sei se tem a ver com os factores económicos, mas para mim é mais uma crise de mentalidade das pessoas, uma crise cultural. O pessoal está muito agarrado às novas tecnologias, às redes sociais, etc., e há muito pouca gente a abordar a música com consciência e com gosto.” Explica-me então que a importância das promotoras está na descoberta de novos valores e tendências. Acrescenta – “O público é que já não está tão atento a isto, e as promotoras e bandas têm de ser auto-suficientes e sobreviver dos seus nichos, que não são apenas o público em si mas um grupo de gente conhecida e amiga que gira em volta delas. É o regresso do DIY. É importante não desistir, porque se isso acontecer as bandas deixam de ter onde tocar.” Face a isto, pergunto-lhe sobre o futuro, e aí, a resposta é muito mais optimista e o panorama entusiasmante. O futuro está lá, só é necessário ser persistente e trabalhar pouco a pouco, sem segundas intenções. É preciso chamar o público e educá-lo para esta cultura alternativa. Mesmo que o futuro seja incerto. Lembra os Black Bombaim, cujo disco “Titans” roda na sala ao lado, que começaram a tocar em pequenos sítios, em pequenos concertos, mas que sem esse suporte nunca teriam chegado onde estão E então diz-me uma frase que resume na perfeição esta “cena” que tenho acompanhado e tentado, por mais escasso que possa ser o esforço, registar neste espaço: “É tudo gente sonhadora, teres cinco pessoas num concerto já é um futuro. Há um fervilhar de gente com boas intenções e com vontade.” Não o poderia explicar melhor. Para quem quiser presenciar um evento da Dedos Biónicos em Vila Real, pode já marcar na agenda o dia 13 de Fevereiro, em que o Club recebe Chris Brokaw, um dos membros da mítica banda Codeine. Se virem por lá o Nuno dêem-lhe um grande abraço.

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