Reflexões Pindéricas Sobre “Tabu”

Quando as luzes da sala se apagam e a tela se ilumina com os primeiros frames projectados de “Tabu”, Miguel Gomes coloca-nos em lugar incerto. Imagem e narração contam a história de um aventureiro, mas a ligação entre si é ténue; a história, possivelmente, não é a mesma. Um homem, uma mulher e um crocodilo. África.

Tabu (2012), Miguel Gomes

O prólogo termina e entramos na primeira parte do imaginário deste filme, “Paraíso Perdido”, capítulo que na obra homónima do mestre Murnau aparece em segundo lugar. Estamos em Lisboa, na actualidade. Seguimos a relação entre Pilar, Aurora e Santa. Pilar, mulher de meia-idade, vive uma solidão que o acaso não quer desfazer; Aurora, idosa e senil, viciada no jogo, julga-se refém da sua criada africana Santa, mulher fria que cumpre as suas ordens sem perguntas e lê “Robinson Crusoe”. E se a narrativa acompanha as personagens de Santa e sobretudo Pilar nesta fase, a sua presença, além de alegórica a cenas posteriores, serve como estrutura à história de Aurora, que se nos revela com a sua morte e a entrada em cena de Gian Luca Ventura, a voz que narra o silêncio da segunda parte, “Paraíso”.

Tabu (2012), Miguel Gomes

Numa África distante, um amor proibido desenrola-se entre Aurora, casada e grávida, e Gian Luca, aventureiro, viajante galã. A relação com a obra de 1931 de F.W. Murnau ganha aqui grande destaque, com uma paixão errada sob o Sol tropical dos mares do Sul. A voz de Gian Luca vai-nos guiando pela história desta paixão, êxitos e contratempos de dois fugitivos no coração de África. No entanto, o realizador Miguel Gomes consegue fazer muito mais do que contar uma bonita história de amor. Antes, convida-nos a uma das mais fantásticas viagens audiovisuais e emocionais que o cinema português já conheceu.

Tabu (2012), Miguel Gomes

“Tabu” é um filme nostálgico acima de tudo. É delicodoce até se tornar amargo, e no fim deixa-nos com saudades de uma história que não é nossa. É uma ode incrivelmente bela a um cinema que se julga perdido na decadência “hollywoodesca” que o realizador dispensa. A troca da ordem dos capítulos em relação ao filme de Murnau nasce daí, da vontade de diferenciar as duas obras: uma cuja génese se encontra na juventude do cinema, a outra que é um escape ao ruído cinematográfico saturado que chegou com o final do século passado. Pilar é outro elo de ligação ao cinema, e nesse ponto de vista é uma personagem quase metafísica, consciente da sua existência num ecrã; no primeiro plano da primeira parte ela fita-nos como nós a fitamos a ela, mais tarde chorará. O formato quadrado remete para uma época prévia à televisão. Diga-se que estamos perante uma obra de excelência a nível de fotografia e sonoplastia, essenciais na criação de todo este maravilhoso imaginário da realidade passada. O contributo de Joana Sá, com “Variações Pindéricas Sobre a Insensatez”, lembrança de Jobim, exprime musicalmente de forma genial a história que à nossa frente se desenrola. Em entrevista ao jornal francês “Le Monde”, Miguel Gomes afirmava que “A relação entre ficção e colonialismo é, de facto, crucial neste filme…entre Hollywoood e a África Colonial.” É pois, também, a descrição de um enorme amor a África que ressoa dentro de nós, portugueses, e talvez daí essa nostalgia de um passado que, muitos, não vivemos. O realizador nunca tinha estado em África antes deste filme, pelo que o continente que nos apresenta é essa amálgama de memórias recolhidas em arquivos (repare-se no marido de Aurora, que filma essa mesma África) e o imaginário que construiu dele, como todos o fazemos, idílico e aventureiro, fantástico por demais. E neste plano maravilhoso e belo move-se “Tabu”, cria em nós uma empatia inexplicável, nas coisas mais simples como o momento em que Santa come a última gamba oferecida por Pilar, acende o cigarro e soletra as palavras das aventura de Crusoe; ou nos momentos de maior emoção, como quando uma Aurora jovem chora desesperadamente a partida de Gian Luca ao som de “Be My Baby” das Ronettes, quando nos lembramos que ao som da mesma música chorava Pilar ao pé do seu “amigo pintor”, um arrepio, físico ou metafórico, percorre-nos. São assim as obras-primas.

Tabu (1931), F.W. Murnau

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