Dixit #1 | Guilhermino Martins – “Finalmente!”

No sentido de recolher diversas perspectivas da recente actividade artística alternativa em Trás-os-Montes, começo aqui uma série de entrevistas a personalidades que, espero, possam revelar um pouco mais acerca da natureza destes acontecimentos. Nesta primeira conversa abordei Guilhermino Martins: músico, produtor, agitador do rock, e acima de tudo uma voz que não podia faltar nestes contributos.

Guilhermino está à frente da Blind & Lost Studios, que o próprio define como algo que se divide em três partes: uma sala de ensaios onde ensaiam diversas bandas da região; um estúdio de gravação, e uma escola de música. Estes são três espaços interligados e comunicativos, e com o tempo, os alunos podem acabar a gravar no mesmo local onde aprenderam a tocar. Guilhermino lembra os tempos da sua banda, os ThanatoSchizO, para localizar a génese do seu trabalho: “Na altura senti necessidade de desenvolver técnicas de gravação para fazer pré-produções dos nossos álbuns, e com essa necessidade acabou por se aguçar o engenho. Hoje sinto um certo prazer em partilhar com as bandas essa informação à qual eu não tive acesso quando passei pela mesma fase. Sei o que custa ter uma uma banda no interior do país”. Informa também que os estúdios são ecléticos, e não se limitam a nenhum estilo de música em especial. Os estúdios têm-se vindo a afirmar cada vez mais e, recentemente, duas bandas com a chancela da B&L assinaram uma noite de Rock no Teatro de Vila Real, que Guilhermino interpreta como resultado de uma mudança de mentalidade quer do público, quer dos responsáveis pelos espaços de espectáculos. “Acaba por ser lógico que bandas como os Venial Sin e os Big Lip tenham ali o seu espaço de afirmação”. Recorda ainda a época em que os ThanatoSchizO optaram por não tocar em Vila Real, uma ausência que durou dez anos: “Sentíamos que não valia a pena, que as condições que nos ofereciam não eram razoáveis tendo em conta a luta e os anos de carreira que nós já tínhamos, e como tal foi quase como um caminhar no deserto em relação a Vila Real. Hoje sinto que as coisas mudaram”.

E de mudança continuámos a falar, tendo em conta os concertos que nos últimos meses têm marcado a agenda transmontana, Guilhermino afirma que “a Covilhete na Mão chegou para revolucionar isto tudo, e o seus próximos eventos vão ter muito mais público. Sinto que isto se está a tornar numa bola de neve, e entre a Covilhete e a ZigurArtists de Lamego, acho que está a ser criada uma coisa importante, quase que uma entidade alternativa transmontana que vai vingar”. E os efeitos vão-se notar também no âmbito da criação musical na região, evidencia, ao dizer que “miúdos que agora têm 14, 15, 16 anos e que calham ir a estes concertos, ficam fascinados com aquilo tudo e vão querer ir para a sala de ensaio com os amigos e começar as próprias bandas”. Continua, “Eu sinto é que em Vila Real há cada vez mais, e finalmente, confesso, este finalmente é mesmo um finalmente sentido, disponibilidade para as associações de se mexerem com vontade de realizar novos eventos”. Dá o exemplo do bom trabalho do Club de Vila Real e da recém-nascida ABC da Cultura. “As pessoas já estavam um bocadão fartas sempre do mesmo, e não era um único evento de “rock” anual, e este rock deve ser colocado entre aspas, que iria colmatar essa lacuna evidente de concertos e festivais alternativos.”

Já no final da conversa, questionado sobre uma eventual “cena transmontana” Guilhermino deixa um aviso para o futuro, e dirige-o às bandas: “As bandas ainda não se consciencializaram que a melhor forma de se darem a conhecer, além dos próprios concertos, é irem aos concertos das outras bandas, é conviverem, é darem-se a conhecer através de vários meios e criar uma cena. Independentemente da quantidade de bandas que uma cena tenha, se essas bandas não conviverem, não forem aos concertos umas das outras, a coisa estagna, e garantidamente, não havendo essa entreajuda, não havendo esse sentimento de união, é certo e sabido que as coisas se vão esfumar ao fim de algum tempo.”

Publicado no jornal Notícias de Vila Real de 31-10-2012, na coluna “Em Mono”

One thought on “Dixit #1 | Guilhermino Martins – “Finalmente!”

  1. Fiquei muito satisfeito por ver algum reconhecimento a alguêm que tenta fazer mexer a cultura nesta região, pondo a sua experiência no terreno. Não peca nunca por vir tarde pois é sempre tempo de despertar as consciências daqueles que nem sempre têm forças para continuar devido à falta de oportunidade de mostrar valor. As salas são abertas a nomes “feitos” à custa de marqueting duvidoso, a arte já não se mede pela pureza mas pelas influências. É este desafio que este SENHOR Guilhermino tem pela frente, mostrar que será facil obter oportunidades através do mérito artistico.

    Romeu Sampaio(Multidão Solitária)

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