A única homenagem

Para os da minha geração são escassas a recordações de o 11 de Setembro ser um dia normal. Ontem, enquanto assistíamos a um excelente documentário do Canal História, o meu pai perguntava-me se eu me lembrava do que aconteceu naquele dia, ou melhor, de ver acontecer, ao que que eu respondi afirmativamente. Na altura em que eu estava prestes a começar o meu segundo ano na escola primária, olhei para uma televisão, talvez em minha casa talvez em casa dos meus avós, e vi aquelas imagens que na altura não eram horríveis para mim. Pensar hoje neste dia não é uma questão de me lembrar ou não, mas sim daquilo de que me lembro. Eu não sabia o que era terrorismo, quantas crianças de sete anos o saberiam? Estamos habituados a ouvir comparações do atentado com um filme, porque não podia ser real, aquilo simplesmente não acontecia! E eu lembro-me perfeitamente de que a primeira coisa que me veio à cabeça foi o filme “A Torre do Inferno”, o meu favorito da altura. Se os adultos ficavam chocados com o que viam, eu, como muitos da minha idade, simplesmente não conseguíamos digerir o que acontecia ali quando sabíamos que não era um filme. Não senti perigo, medo, horror, nada disto. Apenas confusão. E confusão é tudo aquilo que eu posso garantir ter sentido naquele dia. A pergunta que o meu pai me fez levou-me a pensar um pouco mais após eu responder que “sim”. Em onze anos de geração 9/11, quantas memórias que eu tenho desse dia não foram construídas pela presença constante que ele teve nas nossas vidas desde então? Já foi dito vezes suficientes que aquele foi o dia que mudou o Mundo, mas até que ponto temos noção do quão presente ele está em nós? Já muita gente falou mais e melhor sobre isto do que eu, por isso não me alongo aqui, mas nada foi e nunca mais nada será o mesmo depois do 11 de Setembro. Eu cresci nesta geração, do medo, e nunca ninguém me vai conseguir tirar isso. Sem entrar em picuinhices, a verdade é que aquele atentado é uma cicatriz em todos nós, sem termos sequer que pensar nele.

E todos os anos sentimos necessidade de falar nisto. Por mais cabeça fria que tenhamos durante o resto do ano, neste dia as emoções que perduram ou que entretanto nasceram precisam de ser libertadas. E assim há quem escreva, como eu, mesmo sabendo que tanto já foi escrito. Há os especiais durante toda a semana na televisão e as pesquisas no Youtube aumentam. Ouvem-se as chamadas agoniadas, vêm-se os tributos aos “falling men”, revêm-se os noticiários daquele dia. Vezes e vezes sem conta, pelo mundo fora. As imagens estão cravadas na nossa cabeça, já conhecemos todos os vídeos caseiros, as fotos chocantes, a histórias comoventes dos polícias, bombeiros, empresários. E mesmo assim clicamos para ver outra vez. Em onze anos, as homenagens não passaram disto. Voyerismo de que somos todos culpados. A vontade de ver, da sermos chocados outra vez e de não termos realmente que pensar no assunto. Porque pensar no 11 de Setembro de verdade é pensar neste tempo todo que passou. É pensar no Iraque, no Afeganistão, nas ruas de Nova Iorque cheias de gente a celebrar o assassinato de um homem. Não é uma questão de fazer juízos de valor, por que esses são feitos como sempre foram. É “apenas” interiorizar tudo, com calma, sem espectáculos; e isso é mais difícil, muito mais difícil do que se possa pensar.

Recentemente foi “redescoberta” aquela que eu considero a maior homenagem de sempre ao 11 de Setembro, e muito honestamente, a única que vale a pena. Foi por acaso, como quase todas as descobertas na Internet, que descobri William Basinski. Lia sobre métodos de gravação em cassete e outros media “mortos”, quando esbarrei com o nome do compositor norte-americano. Aconselho uma pesquisa sobre o seu nome e os seus trabalhos no campo da música ambiente e processual, mas há uma obra sua que é considerada, e bem, essencial. “The Desintegration Loops” é um álbum de quatro volumes que regista o desaparecimento de antigas gravações do artista. Ao transferir loops gravados em fita para um formato digital, Basinski apercebeu-se que estes se estavam a desfazer à sua frente. No entanto, deixou que isto acontecesse, consciente que a degradação destas fitas estava a ser gravada, registada para a posteridade. Era a morte, ou o caminho percorrido da nascença até ela. Em cada faixa é estabelecido um loop, um trecho melódico repetido que no final deixa de existir. Pelo meio divagamos, ouvimos as falhas dolorosas que pouco a pouco fazem com que o loop se decomponha. Ouvimos os estalos, os saltos, os riscos. Perdemos a noção do tempo e do espaço, da própria realidade, que só volta a nós quando a faixa acaba. É como um enorme fade-out que não quer acontecer. Esta música é difícil de ouvir, não por ser música ambiental ou processual, mas porque nos faz sofrer. É agoniante, mas ao mesmo tempo não a conseguimos largar, porque no fundo estamos a olhar para nós, lentamente a desaparecer, sem que nada possa ser feito.

O trabalho de Basinski neste álbum durou cerca de 19 anos e terminou precisamente na manhã dos atentados do 11 de Setembro. Não é mais genial por isso, mas tornou-se assim no maior romance trágico da história da música. Nesse dia, Basinski sentou-se no telhado do seu prédio com amigos, e ouviram pela primeira vez o trabalho na íntegra. Ao fim do dia, ligou uma câmara de vídeo e filmou o anoitecer, sem torres gémeas, com uma nuvem de fumo a fundir-se com o céu cada vez mais escuro. A atitude iconoclasta de Basinski ao não filmar as torres a arder, ao não filmar o caos mas sim o rescaldo, o depois, diz muito do porquê de esta homenagem ser tão importante. Ela é não-intencional na sua origem, e a sua associação com a tragédia não é sensacionalista. Tal como a música, as imagens gravadas pelo artista, que fazem também a capa dos quatro volumes, mostram o fantasma do que aconteceu, o lado abstracto do atentado que nos obriga a pensar nos acontecimentos e não nas imagens que nos chegaram à cabeça em torrente. E fazem-nos pensar em nós, novamente. Como a “New York, New York” do Sinatra ecoa na Times Square em festa todos os 31 de Dezembro, lembrando a vida nova que nasce no dia seguinte, naquele final de dia soou o trabalho de Basinski, hino de morte que assombrou os céus de Nova-Iorque, sem que ninguém o soubesse.

A verdade é que, tal como sobre o atentado, tenho dificuldade em escrever sobre o “The Desintegration Loops”, porque esta é uma obra maior do que as palavras alguma vez possam descrever, muito menos vindas de mim. Mas é 11 de Setembro outra vez, e tenho vontade de falar sobre isso. Como todos os anos até aqui, e como para o ano será outra vez. Caindo no foleiro, no voyerismo que eu critico, na incapacidade de falar no assunto de forma sã e objectiva. Porque tanta gente mais morreu em guerras, mas nenhuma dessas guerras nos marca como o ataque ao coração da América, do mundo ocidental. O “The Desintegration Loops” é um oásis de sanidade no meio de toda a loucura, não é objectivo nem subjectivo, apenas aconteceu. E está lá, para nos lembrar da vida, da morte, e na inevitabilidade.

Desculpem o texto sério.

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