O Milhões foi mais ou menos assim…

Que Barcelos é um caldeirão do rock durante todo o ano, já toda a gente sabe. A mesma gente sabe também que por um fim-de-semana de Verão a cidade minhota é casa do festival mais interessante de Portugal. Durante estes 3 dias, ou 4 como preferirem, Barcelos recebe de braços abertos milhares de festivaleiros que peregrinam em busca de concertos únicos e finos à beira da piscina. Depois de no ano passado ter lá estado um dia, ansiei pela chegada desta edição para curtir o Milhões de Festa por inteiro. Fui com um conhecimento mínimo das bandas que lá iam estar, confiando no selo da Lovers, e voltei com expectativas mais que superadas.

Sexta, dia 20

A chegada a Barcelos anima qualquer um, o ambiente que se vive antecipa aquilo que vai ser um fim-de-semana único. Com um bom lugar no campismo, onde dormir num parque infantil é um sonho tornado realidade, ruma-se à piscina onde o combo mergulhos/finos/miúdas giras nos arruma para o canto. Somos agora putos felizes numa loja de doces, milhões de doces. E depois há os concertos, Jibóia foi um deles, ritmos electrónicos de impulso oriental a pôr o pessoal a dançar. Soube muito bem. Já à noite, no recinto dito principal, havia dois nomes que pareciam reunir unanimidade entre o público: Baroness e Throes + The Shine eram antecipados e reuniram as maiores “multidões” do primeiro dia. Os primeiros, nome grande do sludge metal, caminham actualmente no fio da navalha, após o lançamento de Yellow & Green, onde os norte-americanos parecem ter amansado, alienando grande parte do seu público mais fiel. Mas em Barcelos não foi tão mau assim, houve dignas passagens por Red e Blue, os dois álbuns adorados antes do filho bastardo. Para muitos estará nos momentos altos do festival, para os outros não estará nos momentos baixos. Já o mix Throes + The Shine apareceu sem o elemento surpresa que em 2011 conquistou um público que foi céptico durante 5 segundos máximo. Já aqui falei deles e da festa sempre garantida que apresentam, e que obviamente não faltou na sua casa. Mas para a próxima esqueçam lá o patrocínio da Red Bull, é um bocado mood killer. Ainda neste dia assistimos aos concertos de Holy Other, provavelmente o melhor de Sexta, com a sua electrónica escura e profunda, de contornos chill; e Meneo, que é um gajo todo bêbado de Gameboy, que faz alto festão com músicas de praí meio minuto e aparições nos concertos de outras pessoas. O Milhões começava muito bem!

Sábado, dia 21

No Sábado fui para mais uma tarde de pura boa vida na piscina, e também para ver Gnod e Bro-X. Os ingleses iniciaram a tarde com a suas batidas psych industriais, que foram bem recebidas e abriram o apetite para a colaboração com os Black Bombaim no dia seguinte. Já os Bro-X imagino que tenham sido altamente, mas eu adormeci na relva e quando acordei já estava em palco Moullinex e Xinobi. Obrigado à Rafa por me deixar dormir. Foi um bocado facada porque queria mesmo abanar a cabeça ao som das malhas de Xangai, mas pronto, há que continuar a curtir e assim foi. Depois de um hamburger no Garden, segui para o palco Milhões com grande vontade de ver o concerto de El Perro Del Mar, que acabou por ser um seca enorme. Ela parecia que estava ali obrigada, e muito do público também. Foi pena. No palco Vice, os Prinzhorn Dance School libertavam a energia que faltou à sueca. Um pós-Punk bem rasgado e uma banda que se divertia em palco, como deve ser. O concerto encheu as medidas de quem lá esteve. O ping-pong de palcos levou-nos então para o concerto da noite, o do neozelandês Connan Mockasin, que conquistou a plateia com a sua pop experimental, silenciosa mas groovy até dizer chega. Foi um diálogo entre artista e público que terá deixando muito poucos indiferentes. Destaque para o final, com uma Forever Dolphin Love enorme. São coisas destas que fazem o Milhões tão maravilhoso. Vale ainda a pena referir Ghunagangh e o seu hip-hop cheio de raiva portuense undeground e xxxy, que deu um bom final a este segundo dia, acompanhado de um MC que nos foi presenteando com alusões, em português, ao Fernando Mendes e ao maravilhoso rio Cávado.

Domingo, dia 22

O último dia…o mais agridoce deles todos, mas também o de maior festa. Milhões dela! E um dia que começa com Moon Duo na piscina, foda-se, tem tudo para ser genial. A dupla de São Francisco debitou guitarradas sujas por cima de batidas repetitivas e electrónicas hipnotizantes. Foi grande loucura, e sem duvida o melhor concerto neste fantástico mini-palco! Depois de mandar a baixo o último jantar do festival, a noite começou no palco Vice, com os fantásticos Memória de Peixe. O duo português deu um bom espectáculo com o seu dream pop instrumental, com influências nos crescendos pós-rock e em sons mais matemáticos e cerebrais, lembrando por vezes os momentos mais veraneantes dos Battles, por exemplo. Foi de sair com um sorriso estampado. No outro palco segui-se mais um excelente momento da pop mais bem disposta, desta vez proveniente de Leeds e com vozes à mistura. Os Alt-J (∆) trouxeram de Inglaterra o seu muy aclamado An Awesome Wave, apresentado com uma grande atitude em palco, que quando se junta a boas canções resulta em grandes momentos. Este foi um. Mas se o dia já estava a ser espectacular, então a seguir tornou-se divinal. Black Gnod, a junção “one night only” dos portugueses Black Bombaim com os ingleses Gnod (que já percorreram a Inglaterra juntos, em tour) invadiu o palco Vice com uma jam de proporções monumentais. Foi cerca de uma hora de viagem psicadélica, entre o stoner e o industrial, mas convenhamos, para quê as etiquetas nestes casos? Enorme, transcendental, um concerto único. Ali se assinou o momento mais alto de todo o festival, de olhos fechados e braços no ar, a levar com um muro do som na focinheira. Mas não acabou ali o Milhões, ainda houve o rock de barbas do Red Fang a cavalgar pelas margens do rio e a proporcionar talvez o maior número de crowdsurfs do fim-de-semana. A noite foi-se aproximando do fim com a pista de dança criada pela Discotexas Band, dream team dos sons mais dançáveis do nosso país; os Shangran Electro e as suas batidas inquetas da África do Sul (189 BPM!); e por fim a dupla de DJ’s portugueses Zombies For Money, que levaram a festa até às seis da manhã. E aí sim nos despedíamos do Milhões de Festa. Durante todo o festival, apenas um contra, os atrasos. De resto, como é possível não amar o Milhões? Como é possível não ter saudades da piscina, do pessoal, dos finos, dos concertos, do campismo, do Homem de Branco, de tudo? Não é mesmo. O Milhões de Festa é o melhor festival português, e a par do Primavera, deve estar no roteiro daqueles que querem música e festa em grandes ambientes. Até para o ano, Barcelos!

2 thoughts on “O Milhões foi mais ou menos assim…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s